Katechismus

5 Os mandamentos de Deus

Deus deu ao Homem mandamentos através dos quais Ele anuncia a Sua vontade para bem de todos os seres humanos.

5.1 Viver a fé segundo os mandamentos de Deus Voltar ao topo

A fé em Deus tem repercussões profundas em toda a vida do Homem. O crente anseia corresponder à vontade de Deus nos seus pensamentos e nos seus atos. Ele reconhece em Deus o autor de uma ordem justa.

Para que os homens se possam movimentar dentro dos limites dessa ordem, Deus, enquanto seu Criador, deu-lhes mandamentos. Os mandamentos expressam a vontade de Deus, em como deverá ser a relação com Ele. Além disso, são a base para um convívio saudável entre os homens.

Dado que o crente reconhece Deus como seu Senhor e confia nas providências divinas, por estar consciente da omnisciência de Deus, ele pergunta pela vontade de Deus e esforça-se por subordinar a sua própria vontade à vontade de Deus.

Já no tempo do Antigo Testamento, tanto os homens como as mulheres consentiam que os seus atos fossem determinados pela fé; em Hebreus 11 são dados alguns exemplos disso. Estas testemunhas da fé também são exemplos a seguir pelos cristãos. Em Hebreus 12,1 está contida uma exortação para deixarmos o pecado «que tão de perto nos rodeia» e para percorrermos com coragem o caminho da fé, lutando contra o pecado.

O maior exemplo é Jesus Cristo, o autor e consumador da fé. Ele era uno com Seu Pai e sempre submeteu a Sua vontade à vontade de Deus (Lc 22,42). A Sua obediência incondicional, o cumprimento de tudo quanto o Pai Lhe tinha mandado, incentiva a seguir o Seu exemplo e exige uma conduta segundo o Seu exemplo: «Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor» (Jo 15,10). Assim sendo, Jesus Cristo é o autor da salvação eterna para todos aqueles que O seguem em obediência fiel (Heb 5,8.9).

Faz parte da fé do cristão, o reconhecimento de que a salvação é alcançada através da receção dos sacramentos. A receção destes atos salvíficos divinos e a expectativa da iminente revinda de Cristo fazem com que «renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos, neste presente século, sóbria, e justa, e piamente, aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo; o qual se deu a si mesmo por nós, para nos remir de toda a iniquidade, e purificar, para si, um povo seu, especial, zeloso de boas obras» (Tt 2,12-14).

"Viver neste presente século piamente" significa orientar os seus pensamentos e os seus atos segundo a vontade de Deus, a partir de uma confiança como a de uma criança, livre de qualquer beatice e hipocrisia. O fundamento de uma confiança infantil no Pai Celestial é o Seu amor para com o Homem. Através da sua obediência de fé, o Homem subordina-se à vontade divina.

Edificar a «obediência da fé» em nome de Jesus é uma função que cabe ao apostolado (Rm 1,5; 16,25.26). Quem praticar esta obediência, estará a orientar a sua vida segundo a doutrina de Cristo (Rm 6,17). Esta é a verdadeira vida na fé segundo os mandamentos de Deus. E é desta forma que o amor do Homem para com Deus se expressa.

SÍNTESE Voltar ao topo

Os mandamentos expressam a vontade de Deus de como deverá ser a relação com Ele. Além disso, são a base para um convívio saudável entre os homens. (5.1)

Com fé, o Homem aceita Deus como seu Senhor; confia n'Ele e anseia corresponder à vontade de Deus nos seus pensamentos e nos seus atos. (5.1)

A obediência incondicional de Jesus ao Seu Pai exorta ao seguimento e exige uma conduta correspondente ao Seu exemplo. (5.1)

5.2 Os mandamentos de Deus — uma expressão do Seu amor Voltar ao topo

Deus é amor (1Jo 4,16) e os Seus mandamentos são a expressão do Seu amor. A finalidade dos mandamentos consiste em ajudar aos homens, para que possam viver em conformidade com a vontade de Deus e com harmonia na sua interação social. Os mandamentos de Deus devem ensinar a alcançar um «amor de um coração puro, e de uma boa consciência e de uma fé não fingida» (1Tm 1,5).

Deus criou e abençoou o Homem. Ele ama-o desde o princípio. O Seu amor preservador também prevalece em relação à criatura caída no pecado. Toda a atuação salvífica de Deus é fundamentada no Seu amor. Foi por amor que Ele elegeu o povo de Israel (Dt 7,7.8). Através dos mandamentos, Ele dá a conhecer a Sua vontade a este povo, através do qual todos os povos hão-de ser abençoados, para os proteger, e oferece-lhes o Seu Filho Jesus Cristo, como expressão máxima do Seu amor para com o mundo (Jo 3,16).

O próprio Jesus Cristo também remete para o significado exuberante que Deus já dera ao amor na legislação e na proclamação profética da antiga aliança. Quando Lhe perguntaram qual seria o «grande mandamento na lei» (Mt 22,36), Jesus respondeu com duas citações tiradas da lei mosaica: «Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas» (Mt 22,37-40).

Jesus Cristo é o fim da Antiga Aliança e o princípio da Nova Aliança. Na Nova Aliança, Deus deu ao Homem a possibilidade de se tornar Seu filho e de receber a Sua natureza divina intrínseca, o amor: «... o amor de Deus está derramado em nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,5). Este amor intrínseco a Deus ajuda a chegar ao reconhecimento de que o Seu amor se evidencia nos mandamentos de Deus. Isso faz com que os mandamentos não sejam cumpridos por receio de castigo, mas antes por amor ao Pai Celestial: «Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. Porque este é o amor de Deus, que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados» (1Jo 5,2.3; cf. Jo 14,15.21.23).

5.2.1 O amor a Deus Voltar ao topo

O amor do Homem para com Deus e o seu próximo é fundamentado em Deus. O amor é a natureza do Criador e, como tal, é eterno: o amor divino existe antes de toda a criatura e nunca terminará. Todas as coisas são de Deus, por Deus e para Deus (Rm 11,36).

A partir do amor que Deus dedica ao Homem, nasce no crente a vontade de retribuir este amor (1Jo 4,19). Tal como a fé é a resposta do Homem à manifestação de Deus, assim o seu amor a Deus é a resposta ao amor que recebeu de Deus.

De Ben Sira 1,14* consta o seguinte: «O princípio da sabedoria é o temor do Senhor [no sentido de amor ao Senhor].» Quem ama Deus, anseia alcançar a comunhão com Ele. O facto de o amor de Deus estar «derramado em nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,5), é uma grande ajuda para a alcançar. Através da participação digna na Santa Ceia, o amor a Deus é fortalecido. Desta forma, esse amor pode crescer no regenerado e apoderar-se cada vez mais dele.

Quem ama Deus, procura o amor (1Cor 14,1). Amar a Deus é um mandamento que diz respeito ao Homem na sua plenitude e que exige uma dedicação total: «Amarás, pois, ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento» (Mc 12,30). O cumprimento deste mandamento dá conteúdo e sentido à vida.

O amor a Deus deve caracterizar a natureza do Homem e determinar o seu comportamento.

SÍNTESE Voltar ao topo

Os mandamentos de Deus são expressão do Seu amor. A sua finalidade consiste em ajudar os homens, para que possam viver em conformidade com a vontade de Deus e em harmonia na sua interação social. (5.2)

O reconhecimento do amor de Deus nos Seus mandamentos incentiva a cumprir os mandamentos não por medo de um castigo, mas antes por amor a Ele. (5.2)

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

5.2.2 O amor ao próximo — o amor aos concidadãos Voltar ao topo

«... mas amarás o teu próximo, como a ti mesmo» (Lv 19,18). Segundo a lei mosaica, o "próximo" era, em primeiro lugar, aquele que pertencia ao povo de Israel; no princípio, o mandamento só tinha validade nesse âmbito. No entanto, a sua aplicabilidade foi ampliada pelo apelo à proteção dos estrangeiros que viviam na terra dos israelitas (Lv 19,33.34).

O Filho de Deus juntou os mandamentos referidos em Levítico 19,18 e Deuteronómio 6,5, formando um duplo mandamento do amor (Mt 22,37-39).

No exemplo da parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37) vê-se que Jesus aboliu a restrição do mandamento do amor ao próximo, que vigorava entre o povo de Israel. Por um lado, Ele mostrou que o próximo é todo aquele que necessita de ajuda, ficando em aberto se aqui se trata de um israelita ou de um gentio: «Descia um homem de Jerusalém ...». Por outro lado, o próximo é aquele que ajuda — na parábola referida um membro de um povo desprezado pelos israelitas, um samaritano. A mensagem é bem clara: no momento em que um Homem se dedica ao outro, ambos se tornam reciprocamente o seu próximo. Ou seja, o próximo pode ser qualquer Homem com o qual tenhamos contacto.

Pode-se deduzir daí que o âmbito de aplicabilidade dos dez mandamentos (Decálogo) tem de ser ampliado e que eles são válidos para todos os homens.

A maioria dos dez mandamentos refere-se ao próximo (Ex 20,12-17). Isso é sublinhado no diálogo com o mancebo rico, em que o Filho de Deus equipara o mandamento do amor ao próximo com outros mandamentos pertencentes ao Decálogo (Mt 19,18.19).

O apóstolo Paulo considera que as regras que se referem ao concidadão estão reunidas no mandamento do amor ao próximo (Rm 13,8-10). Este reconhecimento é baseado na palavra do Senhor quando diz que do duplo mandamento do amor «depende toda a lei e os profetas» (Mt 22,37-40). Esta afirmação também se encontra no sermão da montanha, no contexto da "regra de ouro": «Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas» (Mt 7,12).

Qualquer Homem pode ser o próximo do outro. A abrangência que Jesus coloca nas Suas palavras também fica bem clara no sermão da montanha, quando Ele exige que se ame até mesmo o inimigo.

O amor ao próximo motiva à prática do Bem em todas as pessoas, desde que necessitem de misericórdia, e mesmo que sejam inimigos (Mt 5,44). Um exemplo prático do amor ao próximo é o ato altruísta para bem de outros, especialmente daqueles que, por algum motivo, são desfavorecidos.

Os seguidores de Cristo não são apenas exortados a praticar o amor ao próximo em aspetos terrenos, mas também a remeter os homens para o Evangelho de Cristo. Este é o amor «por obra e em verdade» (1Jo 3,18). É neste contexto que também se enquadra a oração de intercessão pelos falecidos.

«Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22,39) — estas palavras de Jesus concedem ao Homem o direito de pensar em si mesmo; por outro lado, o Senhor também define limites claros para o egoísmo e exorta a que o amor esteja presente no trato com todos os concidadãos.

O amor ao próximo, praticado seja em que forma for, merece um elevado reconhecimento. Quanto mais esse amor for praticado, mais aflição será atenuada, mais harmonioso será o convívio entre todos. A doutrina de Jesus mostra que o amor ao próximo desabrochará em toda a sua plenitude se estiver associado ao amor a Deus.

5.2.3 O amor ao próximo — o amor na comunidade Voltar ao topo

O amor ao próximo deve evidenciar-se, acima de tudo, na comunidade: «Portanto, cada um de nós agrade ao seu próximo, no que é bom para edificação» (Rm 15,2). Jesus ensina: «Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei a vós, [...]. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros» (Jo 13,34.35). Quer dizer, o amor recíproco entre os seguidores de Cristo é uma característica que identifica a comunidade do Senhor.

O padrão definido para esse seu amor ultrapassa a "regra de ouro" em Mateus 7,12: cada qual deve amar o outro como Cristo ama os Seus. Na primeira Igreja cristã, este amor ficou evidenciado no facto de se dizer que «era um o coração e a alma da multidão dos que criam» (Act 4,32). No entanto, as Igrejas eram constantemente exortadas a voltarem à conciliação, à paz e ao amor.

O texto bíblico da 1ª de João 4,7ss, estabelece uma correlação entre o mandamento do amor comunitário e o mandamento do amor a Deus. O apóstolo descreve a aparição do Deus que ama os homens no envio do Seu Filho e no sacrifício de Cristo, e daí tira a seguinte conclusão: «Amados, se Deus assim nos amou, também nos devemos amar uns aos outros.» E prossegue nesse mesmo raciocínio: «Se alguém diz: Eu amo a Deus, e aborrece o seu irmão, é mentiroso.» Terminado com a conclusão: «E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame, também, o seu irmão.»

Desta forma, o amor a Deus também se evidencia na dedicação com amor ao irmão e à irmã na comunidade, independentemente da natureza ou da condição social dele ou dela. O apóstolo Tiago afirma que qualquer distinção ou parcialidade dentro da Igreja é inconciliável com «a fé do nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória». Qualquer que seja o sentido dos preconceitos existentes na comunidade, eles infringem sempre o mandamento do amor ao próximo. Tiago chega à seguinte conclusão: «... Mas, se fazeis distinção de pessoas, cometeis pecado» (Tg 2,1-9).

O "amar uns aos outros" protege da irreconciliabilidade, de preconceitos e da visão depreciadora dos diversos membros da comunidade. Se o mandamento do amor ao próximo já implica dar assistência aos concidadãos, e ajuda em situações de emergência, muito mais isso se deve evidenciar dentro da Igreja: «... façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé» (Gl 6,10).

O "amar uns aos outros" mutuamente é uma força especial que fortalece o espírito comunitário dentro da Igreja e traz calor à vida comunitária. Este conceito impede que os conflitos, que existem em qualquer tipo de convívio social, desaguem em desentendimentos de longa duração. Transmite a capacidade de aceitar o irmão e a irmã tal como são (Rm 15,7). Mesmo que as maneiras de ver, as formas de pensar e os hábitos comportamentais dos membros da comunidade sejam incompreensíveis para os outros, isso não vai levar à depreciação nem à marginalização deles, porque existe tolerância entre todos.

Além disso, esse amor também abre os olhos no sentido de ver que o outro também é um eleito de Deus, que faz parte daqueles que são "santos e amados". Este reconhecimento representa para todos uma tarefa: tratarmo-nos com sincera compaixão, amabilidade, humildade, mansidão e paciência. Se alguma vez existir motivo de queixa, procura-se o perdão com base na palavra: «... assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós, também!» E o apóstolo Paulo dá um conselho: «E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição» (Cl 3,12-14).

Cada comunidade local pode ser vista sob o prisma do corpo de Cristo; cada indivíduo que pertence à comunidade é um membro desse corpo. Desta forma, todos os membros da comunidade estão interligados e todos dependem da cabeça que têm em comum: Deus assim formou o corpo, para que tenham os membros igual cuidado uns dos outros. Cada qual serve para bem do conjunto de membros, tendo parte na vida do outro. A empatia no sofrimento e o desprendimento em relação às coisas boas que o outro tem são comportamentos naturais: «De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.» Todos devem estar bem cientes do seguinte: «Ora vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular» (1Cor 12,26.27).

No capitulo 13 da primeira epístola aos Coríntios*, o apóstolo Paulo mostra à Igreja o caminho do amor; ele termina com as palavras: «Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior de todas é o amor.» Se o amor for vivido na Igreja, as consequências são muito mais vastas do que todas as dádivas, capacidades, reconhecimentos e conhecimentos jamais o conseguiriam.

SÍNTESE Voltar ao topo

Segundo a lei mosaica, o "próximo" é, em primeiro lugar, aquele que pertence ao povo de Israel. Jesus vem abolir esta restrição, tal como se vê na parábola do bom samaritano: qualquer Homem pode ser o próximo do outro. (5.2.2)

No sermão da montanha, Jesus exige que até os inimigos sejam amados. (5.2.2)

O amor ao próximo impõe limites ao egoísmo. Incita à misericórdia para com todos. Os seguidores de Cristo não são apenas exortados a praticar o amor ao próximo em aspetos terrenos, mas também a remeter os homens para o Evangelho de Cristo. É neste contexto que também se enquadra a oração de intercessão pelos falecidos. (5.2.2)

O amor ao próximo desbrocha completamente através do amor a Deus. (5.2.2)

A medida para o amor dos seguidores de Cristo entre si ultrapassa a "regra de ouro" «Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós!»: cada qual deve amar o outro como Cristo ama os Seus. Este amor protege de irreconciliabilidade, preconceitos e visão depreciativa, porque aceita o irmão e a irmã tal como eles são. (5.2.3)

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

5.3 Os Dez Mandamentos Voltar ao topo

Os dez mandamentos formam o núcleo da lei mosaica, os cinco livros de Moisés (Torá). Eles exprimem quais são os comportamentos que agradam e desagradam a Deus. Deles se podem deduzir indicações concretas sobre como o amor a Deus e ao próximo ordenado por Jesus Cristo se deve refletir na prática da vida humana.

Nos dez mandamentos é Deus quem se dirige a todos os homens e responsabiliza pessoalmente cada indivíduo pelo seu comportamento e pela sua conduta.

5.3.1 Termo "Mandamento" Voltar ao topo

A designação "Dez Mandamentos", ou "Decálogo", é derivada da formulação bíblica "dez verbos" ("deka logoi") em Êxodo 34,28 e Deuteronómio 10,4.

5.3.1.1 Contagem Voltar ao topo

A Bíblia determina o número dos mandamentos como sendo dez, mas sem os numerar. Daí resultaram formas de contagem divergentes. A contagem usual dentro da Igreja Nova Apostólica remonta a uma tradição do século IV d.C.

5.3.1.2 Os Dez Mandamentos no Antigo Testamento Voltar ao topo

Dentro da lei mosaica, os dez mandamentos têm um significado de destaque: são unicamente eles que Deus proclama ao povo de Israel, de forma audível, no monte Sinai (Dt 5,22), e só eles são inscritos em tábuas de pedra (Ex 34,28).

A proclamação dos dez mandamentos faz parte da aliança que Deus fez com Israel. Desta forma, Ele renovou a aliança anteriormente feita com Abraão, Isaac e Jacob (Dt 5,2.3). De Deuteronómio 4,13 consta o seguinte: «Então vos anunciou ele [Deus] o seu concerto, que vos prescreveu, os dez mandamentos, e os escreveu em duas tábuas de pedra.»

O cumprimento dos mandamentos era uma obrigação dos israelitas ligada à aliança e era abençoado por Deus (Dt 7,7-16). Já as crianças do povo de Israel os aprendiam de cor (Dt 6,6-9). Até hoje, os dez mandamentos continuam a ter grande significado no judaísmo.

5.3.1.3 Os Dez Mandamentos no Novo Testamento Voltar ao topo

No Novo Testamento, os dez mandamentos são afirmados pelo Filho de Deus e através d'Ele também recebem um conteúdo mais profundo. Nas Suas afirmações, Jesus Cristo mostra que é Senhor sobre os mandamentos, até sobre toda a lei (Mt 12,8). A afirmação que fez perante o mancebo rico evidencia que a vida eterna só pode ser alcançada se o Homem, para além de cumprir os mandamentos, seguir o exemplo de Cristo (Mt 19,16-22; Mc 10,17-21).

Jesus Cristo faculta uma nova visão da lei mosaica (vide 4.8) — em parte, também dos dez mandamentos. O apóstolo Paulo resumiu o significado da lei mosaica segundo a interpretação do Antigo Testamento nesta fórmula: «porque pela lei vem o conhecimento do pecado» (Rm 3,20).

Já a transgressão de um único destes mandamentos faz o Homem tornar-se culpado de ter transgredido todos (Tg 2,10). Desse ponto de vista, todos os homens infringem a lei — todo os homens são pecadores.

A lei permite reconhecer o pecado. A remissão de pecados cometidos só é possível através do sacrifício de Cristo, o fundamento da Nova Aliança.

Os dez mandamentos continuam a ter validade na Nova Aliança; são vinculativos para todos os homens. A interpretação diferente dos dez mandamentos na Nova Aliança também tem o seu fundamento no facto de a lei de Deus agora não ser inscrita em tábuas de pedra, mas antes no coração, no interior do Homem, conforme profetizado em Jeremias 31,33.34. Com o cumprimento do mandamento do amor a Deus e ao próximo, também se cumpre a lei na sua plenitude (Rm 13,8-10).

5.3.1.4 Formulação Voltar ao topo

A redação atualmente corrente dos dez mandamentos não é congruente com o texto contido na Bíblia. Dá-se a preferência a uma formulação simples, conservadora do sentido memorável.

Os dez mandamentos na redação comum da atualidade Voltar ao topo

1º mandamento

Eu sou o Senhor teu Deus. Não terás outro Deus além de mim.

2º mandamento

Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão: porque o Senhor não terá por inocente ao que tomar o seu nome em vão.

3º mandamento

Santificarás o dia do Senhor.

4º mandamento

Honrarás pai e mãe para que se prolonguem os teus dias na terra.

5º mandamento

Não matarás.

6º mandamento

Não adulterarás.

7º mandamento

Não furtarás.

8º mandamento

Não levantarás falsos testemunhos.

9º mandamento

Não cobiçarás a casa do teu próximo.

10º mandamento

Não cobiçarás as coisas alheias.

Os dez mandamentos segundo Êxodo 20,2-17 Voltar ao topo

1º mandamento

Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egipto, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim.

Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas, nem as servirás: porque Eu, o Senhor, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais sobre os filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem. E faço misericórdia, em milhares, aos que me amam e guardam os meus mandamentos.

2º mandamento

Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão: porque o Senhor não terá por inocente ao que tomar o seu nome em vão.

3º mandamento

Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.

Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus: não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas.

Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou: portanto, abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou.

4º mandamento

Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá.

5º mandamento

Não matarás.

6º mandamento

Não adulterarás.

7º mandamento

Não furtarás.

8º mandamento

Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.

9º mandamento

Não cobiçarás a casa do teu próximo.

10º mandamento

Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.

Os dez mandamentos segundo Deuteronómio 5,6-21 Voltar ao topo

1º mandamento

Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egipto, da casa da servidão: não terás outros deuses diante de mim.

Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma, do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra: Não te encurvarás a elas, nem as servirás: porque Eu, o Senhor, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais sobre os filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem. E faço misericórdia, em milhares, aos que me amam e guardam os meus mandamentos.

2º mandamento

Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão: porque o Senhor não terá por inocente ao que tomar o seu nome em vão.

3º mandamento

Guarda o dia de sábado, para o santificar, como te ordenou o Senhor, teu Deus.

Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus: não farás nenhuma obra nele, nem tu, nem o teu filho„ nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas; para que o teu servo e a tua serva descansem como tu: Porque te lembrarás que foste servo na terra do Egipto, e que o Senhor, teu Deus, te tirou dali, com mão forte e braço estendido; pelo que, o Senhor, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado.

4º mandamento

Honra a teu pai e a tua mãe, como o Senhor, teu Deus, te ordenou, para que se prolonguem os teus dias, e para que te vá bem na terra que te dá o Senhor, teu Deus.

5º mandamento

Não matarás.

6º mandamento

Não adulterarás.

7º mandamento

Não furtarás.

8º mandamento

Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.

9º mandamento

Não cobiçarás a mulher do teu próximo.

10º mandamento

E não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.

SÍNTESE Voltar ao topo

Os dez mandamentos formam o núcleo da lei mosaica. É neles que Deus se dirige a todos os seres humanos. (5.3)

A proclamação dos dez mandamentos, cujo cumprimento era obrigatório, faz parte da aliança de Deus com Israel. (5.3.1.2)

Jesus Cristo trouxe uma visão nova da lei mosaica e, como tal, também dos dez mandamentos; eles continuam válidos na Nova Aliança. (5.3.1.3)

O texto dos dez mandamentos é referido duas vezes na Escritura Sagrada Ex 20,2-17 e Dt 5,6-21. (5.3.1.4)

5.3.2 Primeiro mandamento Voltar ao topo

Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás outro Deus além de mim. Voltar ao topo

5.3.2.1 Deus — Senhor e Benfeitor Voltar ao topo

"Eu sou o Senhor, teu Deus" — quase como uma introdução a todos os restantes mandamentos, esta afirmação expressa que Deus é o Senhor que está sobre tudo e todos. É a Ele, o Criador de todas as coisas, que cabe a soberania ilimitada. A Sua palavra é o Juízo; a Ele se deve obediência.

O Antigo Testamento dá provas disso, seja na lei, nos Salmos ou nos livros proféticos. No Novo Testamento, o destaque é o seguinte: Cristo é o Senhor, a Sua vontade divina é vinculativa.

Mas Deus não é apenas regente, Ele também é o Protetor. Através da Sua bênção, Ele evidencia-se como benfeitor de todos os homens.

5.3.2.2 Deus — Libertador do cativeiro Voltar ao topo

Embora Deus seja o soberano absoluto e não precise de dar satisfações a ninguém, Ele explica aos israelitas por que motivo exige obediência: Ele tirou Israel «da servidão», da escravidão no Egito; Ele é o Deus que conduz à liberdade, o Deus libertador.

Deus, que libertou o povo de Israel da opressão terrena no estrangeiro, manifesta-se no Seu Filho Jesus Cristo como benfeitor para todos os homens num sentido mais nobre: por amor, Deus envia o Seu Filho. Este, por amor e em obediência ao Pai, sacrifica a Sua vida imaculada na cruz. Desde então, qualquer Homem tem a oportunidade de ser redimido do cativeiro do pecado e da morte. Quem reconhece o significado da redenção, sente vontade de dar provas de amor e obediência ao Redentor. A estreita correlação existente entre o primeiro mandamento e a exortação de amar a Deus é destacada em Deuteronómio 6,4.5: «Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e de toda a tua alma, e de todo o teu poder.»

5.3.2.3 Adoração e temor a Deus Voltar ao topo

Unicamente a Deus, o Senhor, se deve adorar; só a Ele se deve servir.

As formas de adoração a Deus na Antiga Aliança são divergentes. Os Salmos dizem que é a oração que exprime louvor e enaltecimento. O serviço sacrificial no templo também era uma forma de adoração.

Com o passar dos tempos, o culto no templo foi dando lugar a uma forma de adoração a Deus mais exteriorizada e formal, algo que já os profetas criticavam (Am 5,21.22.24 e outros). Também Jesus retoma esta tradição profética quando ensina: «Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade» (Jo 4,23.24). Isso quer dizer que a adoração a Deus não é nenhum ato formal, consistindo, em vez disso, na dedicação total do Homem a Deus.

A dedicação a Deus é caracterizada pelo temor a Deus, ou seja, pelo respeito a Deus. O temor a Deus não é a expressão de um medo vassalo, mas antes de humildade, amor e confiança. Ela exprime-se pela veneração ao Altíssimo com amor filial e pela aceitação incondicional da majestade de Deus. O temor a Deus evidencia-se no esforço para cumprir os mandamentos, ou seja, para evitar o pecado.

5.3.2.4 Interdição da adoração de outros deuses Voltar ao topo

«Não terás outro Deus além de mim.». Desta forma, Deus deixa bem claro que Ele é o único a quem se deve adorar e venerar como Deus. Qualquer veneração ou adoração de tudo quanto o Homem considera ser uma divindade — sejam seres vivos, fenómenos naturais, objetos, seres reais ou imaginários — é pecado. Paulo escreve: «Porque, ainda que haja, também, alguns que se chamem deuses, quer no céu, quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores). Todavia, para nós, há um só Deus, o Pai, de quem é tudo, e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por Ele» (1Cor 8,5.6).

5.3.2.5 Interdição dos ídolos Voltar ao topo

Na região envolvente de Israel, estrelas e fenómenos naturais, estátuas, figuras de animais, rochas e outros objetos semelhantes eram adorados como deuses ou suas formas de manifestação. Os israelitas deixavam-se influenciar por este tipo de cultos e, por vezes, criavam imagens para as adorar, por exemplo o bezerro de ouro (Ex 32).

Segundo a sua redação bíblica, o primeiro mandamento proíbe que se faça qualquer tipo de imagem daquilo que Deus criou: «Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas, nem as servirás» (Ex 20,4.5).

É necessário encarar esta proibição de fazer e adorar imagens sob o prisma da existência de imagens e estátuas que eram idolatradas e adoradas como divindade.

Não é suposto o Homem criar uma imagem de Deus: ele deve antes aceitá-Lo tal como Ele apareceu no mundo: em Jesus Cristo, a automanifestação de Deus na carne. E não se trata da forma exterior dessa Sua aparição, mas antes da natureza da vontade de Deus (Jo 14,9).

Segundo a tradição cristã, o primeiro mandamento não encerra nenhuma proibição de criação de imagens, esculturas, fotografias ou ilustrações filmadas. Esta interpretação é fundamentada, entre outras coisas, pelo relato bíblico que refere que o próprio Deus deu ordem para se criarem esculturas (Nm 21,8.9 e outros).

5.3.2.6 Infrações ao primeiro mandamento Voltar ao topo

A veneração e adoração de estátuas, imagens idolátricas ou amuletos, assim como de montanhas, árvores e fenómenos naturais são transgressões ao primeiro mandamento. Outras transgressões ao primeiro mandamento também são o satanismo, a vidência mediúnica, a magia, o espiritismo e a invocação dos mortos.

É contrário à vontade de Deus que alguém se eleve a uma divindade por poder, honra, dinheiro, ídolos ou até mesmo na sua própria pessoa, para que todos se subordinem. Também representa uma transgressão ao primeiro mandamento que alguém idealize uma imagem de Deus caracterizada pelos próprios desejos ou pelas próprias opiniões.

O primeiro mandamento exorta a honrar Deus por amor e a aceitá-Lo tal como Ele se manifestou. Esta veneração de Deus consiste na adoração, na obediência e no temor a Deus. Assim se cumprem as palavras: «Dai grandeza ao nosso Deus» (Dt 32,3).

Na Igreja Nova Apostólica, imagens, ícones, estátuas, e outros objetos parecidos criados por religiosidade, não têm qualquer função religiosa e não são alvo de adoração. Não lhes são atribuídas quaisquer forças espirituais nem poderes curativos.

SÍNTESE Voltar ao topo

«Eu sou o Senhor, teu Deus» expressa que a Deus cabe a soberania ilimitada. Através da Sua palavra Ele define a legislação à qual se deve obediência. (5.3.2.1)

Deus é o Único a quem se deve adoração. Qualquer adoração de seres vivos, fenómenos naturais, objetos, seres espirituais, sejam eles reais ou inventados, é pecado. (5.3.2.3; 5.3.2.4)

Não é suposto o Homem criar uma imagem de Deus: ele deve antes aceitá-Lo tal como Ele se manifestou pessoalmente em Jesus Cristo. (5.3.2.5)

A veneração de Deus consiste na adoração, na obediência e no temor a Deus. (5.3.2.6)

5.3.3 Segundo mandamento Voltar ao topo

Não invocarás o santo nome de Deus em vão. Voltar ao topo

5.3.3.1 O nome de Deus Voltar ao topo

Quando Deus falava com Moisés na sarça ardente, Ele revelou-lhe o Seu nome (Ex 3,14). Ao mesmo tempo, foi um ato no qual Deus manifestou a Sua natureza. O nome "Javé" que Deus aqui deu a conhecer pode ser traduzido por "Eu serei, o que serei" ou então "Eu sou o que sou". Desta forma, Deus dá-se a conhecer como aquele que é absolutamente idêntico a Si mesmo, inalterável e eterno.

Por respeito, os judeus evitam pronunciar o nome de Deus, Javé. Até hoje, quando se encontra este nome de Deus em algum texto bíblico veterotestamentário, eles leem "Adonai" (Senhor). É uma forma de evitar o uso abusivo — mesmo que seja acidental — do nome de Deus.

O Antigo Testamento contém também outros nomes de Deus. Por exemplo, "Deus de Abraão, Isaac e Jacob" ou "Deus dos patriarcas". Estes nomes remetem para a atuação divina na história, na época dos patriarcas. Deus também é designado de "Senhor dos Exércitos", sendo que os "exércitos" aqui referidos são anjos.

Deus também é designado de "Pai" (Is 63,16). Quando Jesus ensinou a orar, Ele exortou a designar Deus de "Pai no céu" (Mt 6,9). A designação "Pai" exprime que o Homem se pode dirigir, em todos os assuntos, ao Deus do amor, com uma confiança de criança.

Na Grande Comissão dirigida aos apóstolos (Mt 28,19) e na bênção referida na 2ª aos Coríntios 13,13 Deus é designado de "Pai, Filho e Espírito Santo". Este nome manifesta a natureza divina com uma clareza nunca antes conhecida: Deus é trino e é invocado e venerado como Pai, Filho e Espírito Santo. Qualquer forma de referência imprópria às três pessoas divinas é proibida.

5.3.3.2 Formas de uso abusivo do nome de Deus Voltar ao topo

Quem pronunciar o nome de Deus, deverá fazê-lo com plena consciência de que tem uma responsabilidade para com Deus.

Um abuso grave do nome de Deus é considerado uma blasfémia, o que implica uma difamação, um escárnio ou um insulto intencional a Deus. Constitui também uma alusão abusiva ao nome de Deus afirmar algo falso, invocando o Omnipotente.

Ao longo da História, o nome de Deus foi muitas vezes usado abusivamente para obter vantagens financeiras, fazer guerras, discriminar pessoas, ou para torturar e matar.

No dia-a-dia também existem situações de transgressão do segundo mandamento. Basta o uso irrefletido das designações "Deus", "Jesus Cristo" ou "Espírito Santo" em ditos populares. É pecado! O mesmo se aplica quando se pragueja mencionando Deus ou Jesus — em parte com formulações um pouco distorcidas — e ao contar anedotas que tematizem Deus, o Pai, Jesus Cristo ou o Espírito Santo. Todas estas práticas puxam a majestade de Deus e a Santidade da Sua atuação para um nível indigno; são as «chocarrices, que não convêm», mencionadas em Efésios 5,4.

5.3.3.3 A ameaça de sanção Voltar ao topo

A segunda parte do mandamento reza assim: «[...] porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.» Isso mostra que os mandamentos de Deus têm de ser levados a sério. Da Bíblia nada consta sobre o tipo de sanção em questão. Aquele que estiver consciente de que abusou do nome de Deus e sentir remorsos, pode ter esperança de ser perdoado.

A motivação para cumprir o segundo mandamento deve ser, acima de tudo, o amor a Deus e o temor a Deus, e não o medo de sofrer alguma sanção.

5.3.3.4 Santificar o nome de Deus — oração e conduta Voltar ao topo

O segundo mandamento exorta a manter sagrado tudo o que estiver relacionado com Deus e o Seu nome. Isso inclui a conduta de cada indivíduo. Enquanto cristão, o crente tem uma responsabilidade decorrente do nome do Senhor. Se aqueles que são designados com o nome de Deus tiverem uma conduta indigna, estarão a desonrar o nome de Deus.

Por causa da filiação divina, os filhos de Deus têm a grande responsabilidade de manter o nome de Deus no domínio do sagrado, pois eles são portadores do nome do Pai e do Filho (Ap 14,1).

5.3.3.5 Juramento - voto Voltar ao topo

No contexto do segundo mandamento também se coloca a questão de saber se é permitido jurar ou fazer um voto invocando o nome de Deus. Em Israel, isso era permitido (Dt 6,13; Dt 10,20); mas no sermão da montanha, foi proibida tal jura (Mt 5,33-37).

As afirmações divergentes no Novo Testamento sobre o juramento (Tg 5,12; Rm 1,9; 2Cor 1,23; Fl 1,8 e mais) permitem deduzir que a proibição de jurar não era considerada uma regra comportamental geral. A tradição cristã adota esta interpretação e associa a proibição expressa por Jesus apenas ao juramento leviano na vida quotidiana, mas, por exemplo, não a associa ao juramento em tribunal. Quem invocar Deus como testemunha, ao usar uma fórmula de juramento obrigatória ("Juro por Deus!"), para expressar o seu compromisso de preservar a veracidade perante o Eterno, está a fazer uma profissão pública da sua fé em Deus Omnipotente e Omnisciente. Este tipo de juramento também não é considerado pecado.

SÍNTESE Voltar ao topo

Através do nome "Javé" — "Eu serei, o que serei" ou "Eu sou o que sou" — Deus dá-se a conhecer como Aquele que é absolutamente idêntico, inalterável e eterno. (5.3.3.1)

Uma utilização abusiva do nome de Deus é blasfémia. (5.3.3.2)

O segundo mandamento é o único dos mandamentos que contém uma ameaça de castigo. (5.3.3.3)

É uma advertência para manter sagrado o nome de Deus, mesmo na conduta de vida. (5.3.3.4)

Juramentos levianos invocando o nome de Deus infringem o segundo mandamento. (5.3.3.5)

5.3.4 Terceiro mandamento Voltar ao topo

Santificarás o dia do Senhor. Voltar ao topo

O terceiro mandamento exorta a separar um dia da semana de todos os restantes dias para adorarmos Deus, relembrarmos com gratidão os Seus atos salvíficos e ocupar-nos com a Sua palavra.

5.3.4.1 Fundamentos do terceiro mandamento para Israel Voltar ao topo

O sábado, enquanto parte da ordem da criação divina, deve ser santificado porque Deus descansou no sétimo dia da criação e o santificou (Gn 2,2.3; Ex 20,8-11). O feriado foi dado como dia memorial para honrar a atuação criadora de Deus, que foi para bem de todos os homens.

Outro motivo para santificar o sábado é dado em Deuteronómio 5,15: «Porque te lembrarás que foste servo na terra do Egipto, e que o Senhor, teu Deus, te tirou dali, com mão forte e braço estendido; pelo que, o Senhor, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado.»

Assim sendo, o dia de descanso destina-se ao louvor ao Criador e à memória da libertação de Israel do cativeiro. Além disso, o sábado é o dia em que se relembram os atos de Deus para a humanidade e, em particular, para o Seu povo eleito.

5.3.4.2 O sábado em Israel Voltar ao topo

Já antes da decretação das leis no Sinai, Deus deu relevo ao sábado (Ex 16,4-30). Ele deu o sábado como um presente, um dia no qual o povo de Israel pudesse descansar do trabalho e dedicar-se inteiramente a Deus — desta forma, o sábado era um dia de repouso e um dia feriado ao mesmo tempo. Era caracterizado pelo serviço sacrificial especial (Nm 28,9.10). Era prometida bênção àquele que honrasse o sábado e evitasse negócios pessoais e "falasse as suas próprias palavras" (Is 58,13.14).

5.3.4.3 Jesus Cristo e o sábado Voltar ao topo

A postura de Jesus em relação ao sábado era totalmente diferente da dos judeus fiéis à lei. O comportamento do Filho de Deus mostra que a Lei e o Evangelho dão valores distintos ao feriado. Embora também Jesus fosse à sinagoga ao sábado (Lc 4,16), Ele curava lá os doentes (Lc 6,6-11) — o que os escribas consideravam ser trabalho e, como tal, uma transgressão ao terceiro mandamento. No entanto, para Jesus, a cura de doentes era uma expressão da benfeitoria divina e, como tal, também era admissível no sábado.

Jesus Cristo tem a autoridade para libertar o dia de descanso da restrição que a legislação severa lhe impunha: «O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado» (Mc 2,27).

5.3.4.4 Do sábado para o domingo Voltar ao topo

«Porque o Filho do homem, até do sábado é Senhor» (Mt 12,8) — esta palavra de Jesus, na qual ficou documentada a Sua autoridade divina sobre a lei, também se cumpriu na alteração do dia da semana que é santificado por praticamente todos os cristãos: Enquanto, em Israel, é santificado o sétimo dia do calendário judaico, o sábado, os cristãos festejam o domingo como dia sagrado. Isso deve-se ao facto de Jesus Cristo, segundo testemunho unânime em todos os Evangelhos, ter ressuscitado dos mortos nesse dia da semana (Mt 28,1; Mc 16,2; Lc 24,1; Jo 20,1). É por isso que, para os cristãos, a santificação do domingo também representa uma profissão de fé na ressurreição de Jesus Cristo e uma forma de relembrar a Páscoa.

Após a Ascensão do Senhor, os primeiros cristãos ainda continuaram a praticar as suas tradições judaicas, entre as quais a santificação do sábado. Esta situação foi-se alterando com o trabalho missionário entre os gentios. Ao longo de um processo que demorou décadas, o domingo tornou-se o dia feriado dos cristãos. As primeiras indicações referentes ao significado do domingo encontram-se em Actos 20,7 e na 1ª aos Coríntios 16,2.

Em 321 d.C., o imperador Constantino I decretou que o domingo seria o dia de repouso geral no reino romano. Até hoje, esta regulamentação continua a ter validade em quase todos os países cristãos.

5.3.4.5 Santificar o feriado no serviço divino Voltar ao topo

A santificação do feriado consiste, acima de tudo, em frequentar o serviço divino para praticar a adoração a Deus, receber a Sua palavra com fé, aceitar a remissão dos pecados com disposição penitencial e receber com dignidade o corpo e o sangue de Cristo no sacramento da Santa Ceia. Ao fazê-lo, os crentes estão a relembrar o sacrifício de Cristo, o Seu ato redentor, bem como a celebrar a ressurreição do Senhor e orientar-se para a Sua revinda. A frequência do serviço divino reflete a gratidão pelos atos salvíficos de Jesus. Além disso, também exprime o desejo que o crente tem de receber a palavra de Deus e o sacramento.

Aqueles que têm de trabalhar aos domingos, e os doentes, deficientes e idosos que não podem ir ao serviço divino, santificam o domingo ligando-se em oração, segundo as suas possibilidades, com Deus e com a comunidade. Deus aproxima-se deles e oferece-lhes paz, consolação e fortificação (vide 12.4.3).

Os feriados do ano eclesiástico (vide 12.5), que não calham a um domingo, também são comemorados com serviços divinos.

Além disso, o feriado enquanto dia de repouso também é uma forma de exemplificar o descanso prometido junto de Deus. A correlação entre o terceiro mandamento e este "feriado“ é descrita em Hebreus 4,4-11. Para alcançar esse repouso em Deus é preciso aproveitar o "hoje" e aceitar a palavra e o sacramento no serviço divino com fé (Heb 3,7).

5.3.4.6 Trabalhar aos domingos — entre obrigatoriedade e santificação Voltar ao topo

Quem mantiver Jesus Cristo sagrado no seu coração (1Pe 3,15), procurará, sempre que lhe seja possível, a comunhão com Ele no serviço divino. Se alguém for obrigado a trabalhar aos domingos, deverá ligar-se em oração a Deus e à comunidade.

5.3.4.7 Forma de passar os domingos Voltar ao topo

Sempre que possível, o domingo deverá ser um dia de repouso e de meditação sobre o Evangelho. É o dia de festa da alma, uma ocasião em que as suas necessidades devem estar em primeiro plano. Valores divinos, como a paz e o convívio comunitário, contribuem para a santificação.

O mandamento que exorta à santificação do feriado, é uma exortação dirigida ao crente para que verifique até que ponto as suas atividades são compatíveis com o espírito do dia que é dedicado ao Senhor. Em primeiro lugar deve estar o aprofundamento e a conservação do efeito do serviço divino.

Se o domingo for usado neste sentido, os crentes vivem em conformidade com a exortação no Salmo 118,24: «Este é o dia que fez o Senhor: regozijemo-nos, e alegremo-nos nele.»

SÍNTESE Voltar ao topo

O Sábado destina-se ao louvor ao Criador e relembra a libertação de Israel do cativeiro. Além disso, é o dia em que se relembram os atos de Deus para a humanidade e, em particular, para o Seu povo eleito. (5.3.4.1)

Os cristãos comemoram o domingo, o dia da ressurreição de Jesus Cristo, como feriado. (5.3.4.4)

A frequência do serviço divino reflete a gratidão pelos atos salvíficos de Cristo. (5.3.4.5)

O feriado enquanto dia de repouso é também uma forma de exemplificar o descanso prometido junto de Deus. (5.3.4.5)

O terceiro mandamento exorta a passar o domingo como um dia dedicado e consagrado ao Senhor. (5.3.4.7)

5.3.5 Quarto mandamento Voltar ao topo

Honrarás pai e mãe para que se prolonguem os teus dias na terra. Voltar ao topo

O quarto mandamento é o primeiro dos dez mandamentos que regulamenta a relação com o próximo. Este mandamento não contém nenhuma interdição, mas antes evidencia um comportamento que agrada a Deus. É dirigido às pessoas de qualquer idade e exige que se conceda o respeito e a consideração devidos ao pai e à mãe. A realização concreta do mandamento pode ser diferenciada, dependendo das respetivas condições de vida, como sejam a idade, o contexto social e as normas e práticas sociais.

5.3.5.1 O quarto mandamento segundo a visão veterotestamentária Voltar ao topo

Tal como a lei mosaica em si, o quarto mandamento está relacionado com a peregrinação pelo deserto dos israelitas (Dt 5,16). O significado original do mandamento pode deduzir-se deste episódio histórico: era dirigido, em primeiro lugar, aos israelitas livres (segundo a visão da época, não era dirigido a mulheres, estrangeiros nem escravos). A intenção era que demonstrassem respeito pelos membros mais idosos do clã, ajudando-os na peregrinação tão difícil. E a promessa contida no mandamento também era dirigida aos israelitas: deveriam ter uma vida longa e deviam estar bem na vida — nomeadamente em Canaã, a terra que ainda tinham de conquistar. Aqui fica claro que, para o povo da antiga aliança, o "bem-estar" estava relacionado com a vida terrena. Quando, mais tarde, os israelitas povoaram Canaã, os pais idosos foram honrados no sentido de os seus descendentes cuidarem deles, alimentando-os e, em caso de doença, tratando-os.

Este mandamento é interpretado em várias Escrituras do Antigo Testamento. Em Ben Sira 3,12*, por exemplo, o quarto mandamento refere-se à relação com os pais idosos: «Filho, ampara o teu pai na velhice, não o desgostes durante a sua vida». Em Provérbios 1,8 exige-se a obediência ao pai e à mãe; em Tobite 10,14 também se diz que se deve honrar os sogros: «Dê-me o Senhor a graça de vos [os sogros] honrar todos os dias da minha vida».

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

5.3.5.2 Jesus Cristo e o quarto mandamento Voltar ao topo

Segundo Lucas 2,51, Jesus subordinou-se em obediência à Sua mãe Maria e ao marido dela, José. A intensidade da Sua dedicação à mãe fica bem clara no Seu comportamento em Gólgota: Na cruz, Ele honrou Maria, entregando-a ao cuidado do apóstolo João (Jo 19,27).

Perante o mancebo rico, o Filho de Deus citou o quarto mandamento como sendo importante para alcançar a vida eterna (Mc 10,17-19). No âmbito dos Seus ensinamentos, o Senhor criticou o facto de os professores da lei judaicos terem invalidado um aspeto parcial do mandamento: o do sustento dos pais na velhice (Mc 7,9-13).

5.3.5.3 O quarto mandamento na visão do apóstolo Paulo Voltar ao topo

Nas epístolas do apóstolo Paulo, o quarto mandamento é mencionado expressamente. As crianças são exortadas a serem obedientes aos seus pais (Ef 6,1-3; Cl 3,20). A desobediência dos filhos para com os pais até é listada em "catálogos de iniquidades" (Rm 1,30; 2Tm 3,2). Por outro lado, os pais também são exortados a terem consideração pelos filhos (Ef 6,4), e as mães devem amar os seus filhos (Tt 2,4). A mensagem é bem clara: para além da obrigação para os filhos, resultante do quarto mandamento, também os pais têm obrigações para com os filhos.

5.3.5.4 Ampliação do quarto mandamento na tradição cristã Voltar ao topo

Com o passar do tempo, a interpretação do quarto mandamento foi-se ampliando. Não obstante a sua redação original falar apenas de honrar os pais, a tradição cristã passou a entender o mandamento, de uma forma mais lata, como obrigação de respeitar todas as formas de autoridade. O quarto mandamento refere-se, principalmente, ao comportamento em relação aos antepassados.

Toda a obrigatoriedade de ser obediente, incluindo aos pais, é limitada pela ordem: «Mais importa obedecer a Deus do que aos homens» (Act 5,29).

5.3.5.5 O quarto mandamento na vida atual Voltar ao topo

Não foi revogada a obrigação de os filhos, independentemente da sua idade, honrarem os pais.

Quando a relação é fundamentada em amor e confiança, os pais podem esperar obediência dos seus filhos. O adolescente é exortado a capacitar-se de quanta dedicação paternal os pais zelosos lhe deram ao longo da sua infância e juventude. Isso resultará num sentimento de gratidão. Ao lidar com os pais, ao falar com eles e sobre eles, o respeito deve ser percetível.

O quarto mandamento também contém uma obrigação para com os pais: na sua missão educativa, eles têm uma grande responsabilidade e devem contribuir, através de um comportamento que agrade a Deus, para que não seja difícil aos seus filhos honrá-los. Através da maneira como lidam com os seus próprios pais e sogros, ou como falam com e sobre eles, servem de exemplo aos filhos. Quando os pais e os filhos lidam uns com os outros com amor, criando e preservando, assim, uma relação de confiança mútua, isso é favorável a uma vida familiar harmoniosa.

O cumprimento do quarto mandamento passa pela continuidade da dedicação carinhosa aos pais quando estes forem idosos. Se o comportamento for caracterizado por gratidão, amor e confiança, cumpre-se o quarto mandamento e a bênção de Deus estará sobre tudo. Do ponto de vista do Antigo Testamento, uma "vida longa" é expressão da bênção de Deus; na Nova Aliança, ela expressa-se, acima de tudo, em bens espirituais.

SÍNTESE Voltar ao topo

O quarto mandamento é o primeiro mandamento dos dez que regulamenta a relação com o próximo. Não contém nenhuma interdição, mas evidencia um comportamento que agrada a Deus. (5.3.5)

Para além da obrigação dos filhos de honrar os pais, os pais também têm obrigações: cuidar dos filhos e ser para eles um exemplo. (5.3.5.5)

Se o mandamento for cumprido, resulta daí a bênção de Deus. (5.3.5.5)

5.3.6 Quinto mandamento Voltar ao topo

Não matarás. Voltar ao topo

5.3.6.1 Interdição de matar no Antigo Testamento Voltar ao topo

A tradução literal deste mandamento, do texto original hebraico, é a seguinte: «Não assassinarás.» No seu sentido original, o quinto mandamento proíbe o derramamento arbitrário, ilícito e prejudicial para a vida comunitária de sangue inocente. Ficou excluído deste mandamento o serviço militar e a pena de morte.

No que se refere às sanções, a lei mosaica faz a distinção entre o homicídio acidental, o homicídio por negligência e o homicídio intencional (Ex 21,12-14).

Por princípio, em Israel, o homicídio era sancionado com a morte. Mas nos primeiros dois casos citados, o autor tinha a possibilidade de evitar esta sanção: se, na sua fuga, conseguisse alcançar uma das "cidades de refúgio" espalhadas pelo território de Israel, estaria protegido do vingador de sangue (Nm 35,6-34). Mas em casos de homicídio intencional a pena de morte era inevitável.

O Antigo Testamento relata muitas situações de homicídio, por exemplo, no contexto da tomada de Canaã ou dos combates do povo de Israel com os filisteus. As guerras também eram consideradas meios legítimos para proteger Israel da idolatria.

5.3.6.2 Interdição de matar no Novo Testamento Voltar ao topo

Jesus interpretou o quinto mandamento para além do seu sentido original: «Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu do juízo. Eu, porém, vos digo que, qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo» (Mt 5,21.22). Ele não restringe a obrigatoriedade de cumprir o mandamento à letra, Ele inclui também a postura interior do ser humano. Assim sendo, na 1ª epístola de João 3,15* é expresso o seguinte: «Todo aquele que tem ódio a seu irmão é um homicida».

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

5.3.6.3 Significado do quinto mandamento na atualidade Voltar ao topo

A vida é dada por Deus. Só Ele é o Senhor sobre a vida e a morte. Desse ponto de vista, nenhum ser humano tem o direito de pôr termo a uma vida humana.

A violência e o desrespeito pela vida na sociedade atual não podem, de forma alguma, relativizar o mandamento.

O mandamento de não matar inclui, ao mesmo tempo, a ordem de proteger e manter a vida humana.

5.3.6.4 Questões específicas referentes ao quinto mandamento Voltar ao topo

Todas as questões específicas têm de ser respondidas tendo presente que Deus é a fonte de toda a vida. Ele é a autoridade em cujas mãos estão o princípio e o fim da vida humana. Não compete ao Homem infringir esta ordem divina.

Pena de morte

A Igreja Nova Apostólica não considera a pena de morte um meio apropriado para a dissuasão criminal nem, por conseguinte, um meio apropriado para proteger a sociedade.

Guerras

O homicídio em situações de guerra infringe o quinto mandamento, embora o indivíduo pouco possa influenciar o curso dos acontecimentos. Ele tem a responsabilidade de escolher o menor dos males, mesmo nesta situação excecional, evitando, na medida do possível, matar alguém. Mesmo que se queira justificar o emprego de violência em determinadas situações, nomeadamente para evitar danos maiores ou a título de autodefesa, o ato de matar continua a infringir o quinto mandamento.

Motivos de justificação e de exclusão de culpa

Mesmo matar em autodefesa infringe o quinto mandamento. Independentemente da persecução criminal, tanto nestes casos como em casos semelhantes, a culpa perante Deus pode ser pouca.

Matar uma vida humana antes de nascer

A vida não nascida deve ser respeitada e protegida, uma vez que se pode partir do princípio de que, logo a partir do momento da fecundação, existe vida humana oferecida por Deus. A Igreja não concorda que se matem embriões, ou seja, rejeita o aborto e a destruição de vida humana gerada por meios artificiais. No entanto, se um médico atestar que a vida da mãe está em risco, a sua vida deverá ser salvaguardada. Mas também neste caso será uma infração ao quinto mandamento, embora a culpa possa ser efetivamente muito reduzida.

Suicídio

O suicídio também representa uma infração ao quinto mandamento.

Morte assistida

A morte assistida diz respeito ao moribundo para o qual não existe qualquer esperança de cura nem de melhoramento da sua doença.

Eutanásia ativa

A eutanásia ativa infringe o quinto mandamento tanto quanto a cumplicidade em suicídio.

Ortotanásia

A decisão sobre medidas de prolongamento artificial das funções vitais compete, em primeiro lugar, ao próprio paciente. Se não existir um termo de declaração do doente, esta decisão deverá ser tomada em consenso entre os médicos e os familiares, dignificando, de forma conscienciosa, unicamente os interesses do moribundo. Em ambos os casos, não se considera haver uma infração ao quinto mandamento.

Eutanásia ideológica

Matar pessoas com deficiências ou lesões constituiu uma infração ao quinto mandamento.

Matar outros seres vivos

Matar animais não é abrangido pelo quinto mandamento. Em Génesis 9,1-3 fica bem claro que os animais servem de alimento ao Homem. No entanto, a vida da criatura muda também tem de ser respeitada. Faz parte da corresponsabilidade do ser humano preservar a criação. Cada indivíduo tem a obrigação de tratar qualquer forma de vida com respeito.

SÍNTESE Voltar ao topo

A vida é dada por Deus. Só Ele é o Senhor sobre a vida e a morte. Desse ponto de vista, nenhum ser humano tem o direito de pôr termo a uma vida humana. (5.3.6.3)

No seu sentido original, o quinto mandamento proíbe o derramamento de sangue inocente de uma forma arbitrária, ilícita e prejudicial para a vida comunitária. (5.3.6.1)

Jesus não restringe a obrigatoriedade de cumprir o mandamento à letra, Ele inclui também a postura interior do ser humano. (5.3.6.2)

O mandamento de não matar inclui, ao mesmo tempo, a ordem de proteger e manter a vida humana. (5.3.6.3)

5.3.7 Sexto mandamento Voltar ao topo

Não adulterarás. Voltar ao topo

5.3.7.1 Matrimónio Voltar ao topo

O matrimónio é uma forma de comunhão entre homem e mulher que corresponde ao plano de Deus e que está previsto durar a vida inteira. A sua base é um ato voluntário de ambos, expresso num voto de fidelidade proferido publicamente (Mt 19,4.5).

A Bíblia descreve dois tipos diferentes de matrimónio. Enquanto o Antigo Testamento fala, com frequência, da poligamia ("muitos casamentos", neste contexto: quando um homem está casado com várias mulheres, "poliginia"), Jesus Cristo e, com Ele, todo o Novo Testamento, professam a monogamia ("um casamento") como sendo a forma de comunhão matrimonial entre homem e mulher prevista por Deus e apropriada para o cristão crente (Mt 19,5.6; 1Tm 3,2.12; 5,9 e outros).

Já no Antigo Testamento, o matrimónio é visto como uma aliança que está sob a proteção de Deus (Pr 2,17; Ml 2,13-16) e que é abençoada com uma oração: «vamos orar para que o Senhor nos conceda a sua misericórdia e salvação. Levantaram-se ambos e puseram-se a orar e a implorar que lhes fosse enviada a salvação» (Tb 8,4.5*).

Na Igreja Nova Apostólica, os casais, em que, regra geral, pelo menos um dos cônjuges deve ser novo-apostólico, recebem a bênção matrimonial se assim o pedirem. Esta bênção de Deus contém forças que ajudam a levar a futura vida conjugal do casal de uma forma que agrade a Deus. Isso implica que o casal se esforce seriamente por caminhar em conjunto pelo caminho da vida, com temor a Deus e amor.

O matrimónio, tal como a vontade de Deus o reflete, é uma imagem da comunhão de Cristo com a Sua Igreja e, por isso, é sagrado. Representa uma responsabilidade para os cônjuges, a de se honrarem e amarem reciprocamente (Ef 5,25.28-33). Originalmente, a sua duração é vitalícia, indissolúvel até à morte: «Portanto, o que Deus ajuntou, não o separe o homem» (Mt 19,6). Deste ponto de vista, é exigido que se proteja e promova o matrimónio.

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

5.3.7.2 Adultério Voltar ao topo

Em termos gerais, comete adultério aquele que, sendo casado, tiver relações sexuais com alguém que não seja o seu cônjuge ou, sendo solteiro, com alguém que é casado com outra pessoa. Segundo as palavras de Jesus «Eu, porém, vos digo, que, qualquer que atentar uma mulher, para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela» (Mt 5,28), apesar de uma conduta exteriormente impecável, pode dar-se um "adultério no coração". Ou seja, este mandamento não é transgredido apenas quando o adultério é consumado de facto, mas ainda antes, no momento em que se pensa nele (vide também Mc 7,20-23).

5.3.7.3 Divórcio Voltar ao topo

No Novo Testamento, o divórcio é visto como pecado: «Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem» (Mc 10,9); a única exceção em que o divórcio é admissível, é no caso do adultério por parte do cônjuge (Mt 19,9).

Quando um divorciado volta a casar, o Evangelho segundo S. Marcos diz que é adultério (Mc 10,11.12). Segundo outras afirmações neotestamentárias, o divórcio e o segundo casamento em tempo de vida do cônjuge divorciado representam uma transgressão do sexto mandamento. Muito aparentemente, na igreja cristã primitiva, exceto em certas circunstâncias, um segundo casamento após um divórcio não é aceite (1Cor 7,10.11.39; Rm 7,2.3).

As afirmações neotestamentárias sobre o divórcio têm de ser encaradas no contexto histórico e social da antiguidade: o intuito principal consistia, acima de tudo, em melhorar a situação da mulher, que apenas tinha direitos muito restritos. A intenção era proteger a mulher de ser rejeitada arbitrariamente pelo seu marido.

Não obstante isso, as citações bíblicas anteriores colocam a Igreja perante a questão de saber como lidar com pessoas divorciadas. Acima de tudo, é necessário ponderar todo o ambiente pessoal de cada caso. Pode ser difícil tomar decisões que estejam em conformidade com o espírito do Evangelho. Nunca se deve perder de vista o facto de Jesus não ter lidado com o Homem com o espírito da legislação da Antiga Aliança, mas sempre com o espírito do amor e da graça (Jo 8,2-11).

Como qualquer outro pecado, também o adultério e o divórcio requerem um perdão. Quando há um divórcio, regra geral, ambos os cônjuges têm a sua quota-parte de culpabilidade, embora a culpa de um possa ser maior do que a do outro. Existem casos em que um cônjuge exerce violência ou não quer continuar com o matrimónio. Por isso, é bom que cada um se autoanalise seriamente e preste contas de quais são as características e os comportamentos pessoais que contribuíram para que a situação de rotura se desse.

Pessoas que vivam em vias de divórcio, ou já divorciadas, não estão excluídas de receber os sacramentos. Têm o seu lugar na comunidade e continuam a ser acompanhadas pelos seus assistentes pastorais, sem qualquer restrição.

As pessoas divorciadas que queiram voltar a casar podem receber a bênção matrimonial se a pedirem. A intenção é dar-lhes a oportunidade de um recomeço.

5.3.7.4 Comportamento sagrado no matrimónio Voltar ao topo

Deve honrar-se o matrimónio e manter o "leito sem mácula" (Heb 13,4). Da compreensão de que o corpo é a habitação de Deus no regenerado, e também pertença do Altíssimo, resulta a obrigação para levar uma conduta sagrada (1Cor 6,19.20). Isso aplica-se, particularmente, ao comportamento no matrimónio (1Ts 4,3.4; vide também 13.3).

SÍNTESE Voltar ao topo

O matrimónio é a comunhão que Deus quer que exista entre homem e mulher. Como a comunhão de Cristo com a Sua comunidade, o matrimónio está previsto ser indissolúvel. Deste ponto de vista, é exigido que se proteja e promova o matrimónio. (5.3.7.1)

Em termos gerais, comete adultério aquele que, sendo casado, tiver relações sexuais com alguém que não seja o seu cônjuge ou, sendo solteiro, com alguém que é casado com outra pessoa. (5.3.7.2)

Também se trata de uma transgressão do mandamento quando o adultério ocorre em pensamento. (5.3.7.2)

5.3.8 Sétimo mandamento Voltar ao topo

Não furtarás. Voltar ao topo

5.3.8.1 Roubo no quadro legislativo geral Voltar ao topo

É proibido apoderar-se das pertenças de outra pessoa. Esta interdição de roubar, que remete para Deus, faz parte dos fundamentos da jurisdição humana e serve para proteger e respeitar a propriedade dos concidadãos.

Com base no mandamento do amor ao próximo, não se deve lidar com a propriedade com avareza nem egoísmo; a propriedade também implica uma responsabilidade.

Regra geral, o termo "roubo" (ou “furto") é entendido como o ato de subtração ilícita de propriedade alheia. Podendo essa propriedade ser material ou intelectual. Ninguém pode apoderar-se ilicitamente de pertenças do seu próximo nem prejudicar ou danificar a propriedade alheia. É igualmente proibido enganar os outros com o intuito de conseguir vantagens ilícitas. Antes pelo contrário, é preciso conter a atitude de querer acumular poder e lucro pessoal. A dignidade e o bem-estar do outro têm de ser respeitados.

5.3.8.2 Interdição do roubo no Antigo Testamento Voltar ao topo

Originalmente, o mandamento de não roubar visava condenar, acima de tudo, o rapto. A intenção era proteger o homem livre de ser furtado, vendido ou mantido em cativeiro. Em Israel, o rapto — contrariamente aos delitos de furto material, que podiam ser compensados por indemnização monetária ou material — era castigado com a pena de morte: «E quem furtar algum homem, e o vender, ou for achado na sua mão, certamente morrerá» (Ex 21,16). Ou seja, tratava-se de um delito que era sancionado com a mais severa de todas as penas possíveis.

Além disso, também o furto de propriedade alheia era punível; a lei mosaica exigia uma indemnização do objeto do furto. Regra geral, era exigida uma indemnização correspondente ao dobro do valor furtado, em casos graves até podia ser quatro ou cinco vezes o valor furtado (cf. Ex 21,37*; 22,3.6.8).

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

5.3.8.3 Interdição do roubo no Novo Testamento Voltar ao topo

Ao falar com o mancebo rico (Mt 19,16-23), Jesus citou o sétimo mandamento. Em conformidade com Marcos 7,20-23, o Senhor definiu o roubo como pecado cuja origem está no interior do Homem e o contamina. Neste texto bíblico, o sétimo mandamento é interpretado no sentido convencional do Antigo Testamento.

Em João 10,1, o mandamento é ampliado e elevado para um plano espiritual: «Na verdade, na verdade vos digo que, aquele que não entra pela porta, no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador». Aqui, refere-se àqueles que procuram convencer a aderir a doutrinas falsas. São como ladrões e salteadores que agem como se fossem lobos, procurando a sua presa entre os crentes e querendo arrancá-los para fora do rebanho de Cristo (Act 20,29).

5.3.8.4 Tipos diferentes de roubo Voltar ao topo

No sentido literal da palavra, estamos perante roubo (ou furto) quando propriedade material ou intelectual é subtraída sem consentimento. Além dessa forma mais imediata, existem ainda outros tipos de roubo. A fraude, por exemplo, também pode ser um roubo na aceção do sétimo mandamento.

O acontecimento descrito em Lucas 19,1-10 dá ênfase a este aspeto. Porque parte do património do publicano Zaqueu também tinha sido adquirida mediante fraude. Depois de Jesus ter entrado na sua casa, o publicano prometeu: «Senhor, eis que dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho desfraudado alguém, o restituo quadruplicado» (Lc 19,8). Este exemplo amplia ainda mais o campo de visão referente ao conceito do que é roubo a nível das relações inter-humanas: também inclui a usura, o aproveitamento de uma situação de aflição, o desfalque e a fraude. Burla, sonegação de impostos, corrupção e esbanjamento de dinheiro confiado também são abrangidos por este mandamento.

Resumindo, o sétimo mandamento exorta a não mexer nos bens do próximo, nem a fazê-los diminuir ilicitamente, nem roubar-lhe a sua honra, a sua reputação, nem a sua dignidade como ser humano.

SÍNTESE Voltar ao topo

É proibido apoderar-se das pertenças do seu próximo, seja de que forma for. (5.3.8.1)

O sétimo mandamento também exorta a não fazer nada que prejudique o próximo na sua honra, reputação ou dignidade enquanto ser humano. (5.3.8.4)

5.3.9 Oitavo mandamento Voltar ao topo

Não levantarás falsos testemunhos. Voltar ao topo

5.3.9.1 Significado original Voltar ao topo

Originalmente, o oitavo mandamento referia-se ao falso testemunho perante o tribunal. Para o israelita, o "próximo" (vide 5.2.2) era, em termos gerais, o Homem com o qual se lidava na vida quotidiana. Um testemunho falso tanto podia ser uma acusação falsa como a prestação de declarações falsas enquanto testemunha.

5.3.9.2 Exemplos de falsos testemunhos no tempo do Antigo Testamento Voltar ao topo

Em Israel, na época do Antigo Testamento, ao lidar com processos que envolviam a pena de morte era necessário arrolar, pelo menos, duas testemunhas para depor em tribunal (Nm 35,30). Se estas incriminassem o acusado com declarações falsas, ele era executado, se a sentença assim o mandasse, mesmo que fosse inocente (1Rs 21).

Quando se descobria, diante tribunal, que uma testemunha tinha prestado falsas declarações, a pena que teria sido decretada sobre o acusado, caso fosse achado culpado, passava a ser aplicada àquele que tivesse prestado falso testemunho (Dt 19,18.19).

Na literatura da sabedoria judaica, o falso testemunho é associado à mentira em geral: «A testemunha falsa não ficará impune, e o que diz mentiras perecerá» (Pr 19,9*).

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

5.3.9.3 Exemplos de falsos testemunhos no tempo do Novo Testamento Voltar ao topo

Jesus Cristo remeteu várias vezes para o oitavo mandamento (Mt 19,18 e outros). Ele demonstrou que a transgressão deste mandamento é a expressão de uma índole incorreta e que torna o Homem impuro (Mt 15,18.19).

O próprio Filho de Deus também teve de experienciar o que significa ser acusado através de falsos testemunhos: foi assim que chegou a ser decretada a Sua sentença de morte (Mt 26,57-66; Lc 23,2), e mesmo depois da Sua ressurreição, os sumos sacerdotes e anciãos trataram de difundir outra mentira (Mt 28,11-15). Jesus Cristo, «a testemunha fiel e verdadeira» (Ap 3,14), suportou as mentiras das falsas testemunhas com dignidade real.

5.3.9.4 Falso testemunho na atualidade — interdição da mentira e da fraude Voltar ao topo

Qualquer falso testemunho é uma mentira. No sentido mais lato, o oitavo mandamento pode ser encarado como proibição de qualquer ato que não seja verdadeiro (Lv 19,11). Devido à imperfeição humana, ninguém é capaz de colocar apenas verdade nas suas palavras. Mas quanto mais o Homem se dedica à imitação e ao seguimento de Cristo, e viver de forma correspondente, tanto mais verídicos serão as suas palavras e os seus atos.

O apóstolo Paulo aconselha: «Pelo que, deixai a mentira, e falai a verdade, cada um com o seu próximo» (Ef 4,25). Mas falar verdade com o seu próximo não significa que todos possam ou devam dizer sempre, em qualquer que seja a situação, todas as verdades desagradáveis ao próximo. Se alguém apontar impiedosamente todos os defeitos de quem o rodeia, irá causar muitos estragos. Também o oitavo mandamento é subjacente ao princípio básico do amor ao próximo. Ou seja, é preciso ponderar cuidadosamente como se fala com os outros e sobre os outros. É notável que em Provérbios 6,19 se encontre a indicação de que entre as coisas «que o Senhor aborrece» estão a «discórdia entre irmãos» e também «a testemunha falsa que profere mentiras».

5.3.9.5 Outras infrações ao oitavo mandamento Voltar ao topo

Cada qual deve esforçar-se por ser sincero e verdadeiro. O comportamento na sociedade e na vida profissional também se deve orientar pelo oitavo mandamento.

Para além do falso testemunho perante o tribunal (designado por perjúrio) e a mentira evidente, também as mentiras piedosas, as meias verdades, as afirmações que visam dissimular os factos reais e as difamações representam uma transgressão ao oitavo mandamento. Da mesma forma, a ostentação e o exagero, a ambiguidade e a hipocrisia, a propagação de boatos, a calúnia e a adulação são expressão de falsidade.

5.3.9.6 Testemunho falso e verídico no sentido espiritual Voltar ao topo

O Deus Trino é a essência da verdade (Jo 17,17; 14,6; 16,13), enquanto o diabo é o pai da mentira (Jo 8,44). O seu falso testemunho está de um lado e do outro está o testemunho verídico do Espírito Santo.

Os cristãos são exortados a dar sempre um testemunho verídico, crendo no Evangelho e proclamando-o, e levando uma conduta consentânea.

SÍNTESE Voltar ao topo

Originalmente, o oitavo mandamento referia-se ao falso testemunho perante o tribunal. Um testemunho falso tanto podia ser uma acusação falsa como a prestação de falsas declarações enquanto testemunha (perjúrio). (5.3.9.1)

Qualquer falso testemunho é uma mentira. No sentido mais lato, o oitavo mandamento pode ser encarado como interdição de qualquer ato que não seja verdadeiro. (5.3.9.4)

Os cristãos devem dar sempre um testemunho verídico, crendo no Evangelho e proclamando-o, e levando uma conduta consentânea. (5.3.9.6)

5.3.10 O nono mandamento e o décimo mandamento Voltar ao topo

Não cobiçarás a mulher do teu próximo. Não cobiçarás as coisas alheias. Voltar ao topo

5.3.10.1 Formas de contagem e versões diferentes Voltar ao topo

Os últimos dois mandamentos do Decálogo estão estreitamente correlacionados no seu conteúdo. Muitas vezes, são referidos juntos como sendo o décimo mandamento, por exemplo no judaísmo, enquanto no cristianismo geralmente se faz a separação do nono e do décimo mandamentos.

Estes dois mandamentos existem em várias versões. Em Êxodo 20,17 fala-se, em primeiro lugar, da casa do próximo, enquanto em Deuteronómio 5,21 se fala primeiro da mulher.

5.3.10.2 Concupiscência — causadora de pecado Voltar ao topo

O tema central abordado pelo nono e décimo mandamentos é a afirmação: «Não cobiçarás». Não se trata de uma interdição de qualquer tipo de desejo humano em si, mas antes da cobiça pecaminosa da mulher ou dos bens de outra pessoa. Tal como também a transgressão dos outros mandamentos, esta cobiça infringe o mandamento do amor ao próximo (Rm 13, 9).

Desde o início dos tempos que Satanás procura seduzir o Homem para o pecado, despertando nele a cobiça e a vontade de possuir tudo o que é proibido (Gn 3,6). Adão e Eva cedem a este desejo e, por causa da sua desobediência, caem em pecado contra o mandamento de Deus. As consequências são descritas em Tiago 1,15: «Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.»

A concupiscência, ou seja, o desejo pecaminoso, gera-se no interior do Homem. Desperta pensamentos impuros. Se não for controlado, o pensamento pecaminoso acaba por ser concretizado num ato pecaminoso. Esta correlação também fica expressa em Mateus 15,19: «Porque, do coração, procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfémias.»

O nono e o décimo mandamento representam uma tarefa para o Homem que consiste em ficar vigilante, com o intuito de manter a pureza do coração. Isso implica o esforço sincero de resistir à tentação de quaisquer práticas pecaminosas.

5.3.10.3 Desejar o parceiro conjugal do seu próximo Voltar ao topo

No Antigo Testamento, no contexto de David e Batseba, temos um exemplo drástico de até onde pode levar o desejo concupiscente pela mulher do próximo: ao adultério, à mentira e ao homicídio (2Sm 11). A correlação entre o desejo pela mulher do próximo e o adultério também foi um assunto abordado pelo Filho de Deus (Mt 5,27.28). Do ponto de vista cristão, a interdição de desejar a mulher do próximo também se refere ao desejo de uma mulher pelo marido da sua próxima. Quando o desejo é direcionado para o cônjuge de uma outra pessoa, trata-se de uma transgressão do mandamento de Deus. Neste sentido, o texto bíblico na 1ª de João 2,16.17, também pode ser visto como aviso de um desejo desses: «Porque, tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo; e o mundo passa, e a sua concupiscência.»

5.3.10.4 Cobiçar os bens do seu próximo Voltar ao topo

Na legislação mosaica, a casa do próximo, a sua terra e o seu gado representam a sua propriedade, tal como também o é a mulher, o servo e a serva. O mandamento proíbe que se cobice os bens do próximo. Esta cobiça pode levar à cupidez e, regra geral, tem a sua origem na inveja.

A cobiça leva aquele que é cúpido a apoderar-se impiedosamente da propriedade de outros. Muitas vezes, os pobres são logrados porque aqueles que têm o poder praticam desenfreadamente a acumulação de bens. São incontáveis as guerras que começaram assim.

Segundo Eclesiastes 5,9 a cupidez é tão desregrada quando a ganância pelo dinheiro e nunca é saciada. O apóstolo Paulo designa o avarento de «idólatra» (Ef 5,5). Sobre o amor ao dinheiro, ele escreve que é «a raíz de toda a espécie de males» (1Tm 6,10.11).

5.3.10.5 Como vencer a cobiça pecaminosa Voltar ao topo

O texto bíblico de Gálatas 5,19-25 mostra que o desejo pecaminoso se evidencia num comportamento pecaminoso, nas «obras da carne» que são descritas de forma drástica. O cristão deve manter-se afastado de tais pecados: «E os que são de Cristo crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências.» O apóstolo Paulo exorta: «Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito.» O que significa dar frutos do Espírito Santo: «amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança.» Neste contexto, o termo «temperança» significa autocontrolo, que se evidencia através da moderação e da abstinência. Esta virtude impede que o surgimento do desejo acabe por levar à cobiça.

Os cristãos são exortados a pautar as suas vidas com uma conduta de acordo com a sua vocação e a esforçarem-se por resistir ao desejo pecaminoso: «Como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia na vossa ignorância; mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós, também, santos, em toda a vossa maneira de viver» (1Pe 1,14.15).

SÍNTESE Voltar ao topo

Os últimos dois mandamentos do Decálogo estão estreitamente correlacionados no seu conteúdo e muitas vezes são vistos conjuntamente como sendo o décimo mandamento. O núcleo comum de ambos os mandamentos é o desejo pecaminoso pela mulher ou pelos bens do próximo. (5.3.10.1; 5.3.10.2)

O nono e o décimo mandamento representam uma tarefa para o Homem que consiste em ficar vigilante, com o intuito de manter a pureza do coração. (5.3.10.5)