Katechismus

4 O Homem carente de salvação

O Homem caído em pecado carece da redenção do Mal.

4.1 O Mal — as potestades antidivinas Voltar ao topo

A origem do Mal dentro da ordem da criação divina não pode ser abrangida nem explicada racionalmente. Paulo fala do Mal como sendo um mistério (2Ts 2,7). O Mal nem sempre é inequivocamente identificável. Por vezes, transfigura-se, fazendo-se passar por algo de bom ou divino (2Cor 11,14). O que é realmente o Mal, qual o seu poder, a sua força e quais os efeitos que produz, é algo que se percebe face à no Evangelho.

Deus é totalmente bom. Segundo a palavra de Deus, a criação visível e invisível começa por ser boa (Gn 1,1-31), o que indica que o Mal não tem a sua origem nesse momento. Não foi Deus quem criou o Mal na sua essência. Como tal, não faz parte daquilo que foi criado ativamente, apenas foi permitido.

Quando Deus cria o Homem, Ele -lo à Sua imagem e semelhança (Gn 1,26ss). Isso inclui o facto de o Homem estar provido de livre arbítrio. Ele tem a capacidade de tomar decisões, optando pela obediência ou pela desobediência a Deus (Gn 2,16.17; 3,1-7). É que o Mal tem a sua origem. Ele surge logo que o Homem opta, de forma consciente e intencional, por se opor ao Bem, distanciando-se de Deus e da Sua vontade. Assim sendo, o mal do Homem não é algo criado por Deus. Inicialmente, não passa de uma possibilidade pela qual o Homem optou no momento em que transgrediu o mandamento divino. Deus nunca quis nem criou o Mal, mas permitiu que pudesse existir, não impedindo que o Homem tivesse a capacidade de optar.

Desde a queda do Homem, tanto a humanidade como toda a criação são afetados pelo Mal (Rm 8,18-22).

O Mal começa a desenvolver-se quando a criatura se opõe ao Criador. Como consequência da desobediência, materializada no pecado original, o Mal vai ganhando terreno e conduz ao afastamento de Deus, à separação de Deus e, por fim, à asebeia (impiedade).

4.1.1 O Mal como força antidivina Voltar ao topo

O Mal é uma força que tem a sua origem na vontade de ser independente de Deus e do "querer-ser-como-Deus". Ele modifica totalmente aquele que se entregar a ele: o anjo transforma-se em demónio, o Homem em pecador.

A força do Mal evidencia-se repetidas vezes dentro da história da humanidade. Depois da queda de Adão e Eva, por exemplo, encontramos no Antigo Testamento relatos sobre o fratricídio de Caim, a asebeia existente na época de Noé, a opressão do povo de Israel pelos egípcios.

O Mal é uma força destruidora que se opõe à criação de Deus. Ele tem muitas facetas diferentes; é engano e desagregação, é mentira, inveja e ganância, procura destruir e traz a morte.

Devido à propensão para o pecado (concupiscência), desde a queda do Homem nenhum ser humanoexceto o Filho de Deus encarnadoconsegue levar uma vida sem pecado. No entanto, ninguém fica à mercê do Mal sem que o queira, pois tem a sua vontade própria. Por isso mesmo, o indivíduo não pode alegar não ter responsabilidade pessoal pelos seus pecados.

4.1.2 O Mal como pessoa Voltar ao topo

O Mal não surge apenas como força, também aparece como pessoa. A Escritura Sagrada designa o Mal personificado na figura do «diabo» (Mt 4,1), «Satanás» ou «Espírito impuro» (Jb 1,6ss; Mc 1,13.23).

Na de Pedro 2,4 e em Judas 6 fala-se de anjos que caíram no pecado. Estes seres espirituais entregaram-se ao Maligno e, como tal, eles próprios se tornaram maus. O «diabo peca desde o princípio» (1Jo 3,8), ele é «homicida desde o princípio» é «mentiroso, e pai da mentira» (Jo 8,44). A pergunta da serpente, dirigida a Adão e Eva, lança nos seus espíritos dúvidas em relação a Deus e faz com que se rebelem contra Ele: «Certamente, não morrereis. Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal» (Gn 3,4.5).

Uma das formas assumidas pelo Maligno é o anticristo. É a ele que Jesus Cristo se refere quando fala de «falsos cristos, e falsos profetas» (Mc 13,22). As designações «homem do pecado» ou «filho da perdição» remetem para o anticristo (2Ts 2,3.4).

Satanás não é capaz de impedir o plano de salvação de Deusantes pelo contrário: foi para isso que o Filho de Deus se manifestou, «para desfazer as obras do diabo» (1Jo 3,8). O poder do diabo e do seu séquito é limitado e foi vencido pela morte sacrificial de Jesus Cristo. A Jesus Cristo é dado «todo o poder, no céu e na terra» (Mt 28,18); ou seja, Ele também tem poder sobre os espíritos malignos.

Segundo Apocalipse 12, o Malignopersonificado como Satanás, diabo, dragão ou serpentefoi expulso do céu e lançado na terra. Uma última oportunidade de realizar o que é antidivino ser-lhe-á dada após o reino da paz (Ap 20,7.8). Por fim, o desterro definitivo do Mal, para o «lago de fogo e enxofre», é descrito em Apocalipse 20,10. Na nova criação, na qual Deus será «tudo, em todos» (1Cor 15,28), o Mal não terá lugar para existir.

SÍNTESE Voltar ao topo

A origem do Mal não pode ser abrangida nem explicada racionalmente. O que é realmente o Mal, se torna claro através da crença no Evangelho. (4.1)

No início, a criação invisível e a criação visível são muito boas; o Mal em si não foi criado por Deus, foi consentido. A existência do Mal é viabilizada pela possibilidade de poder optar pela obediência ou pela desobediência a Deus. (4.1)

O Mal começa a desenvolver-se quando a criatura se opõe ao Criador. Isso leva ao afastamento de Deus, à separação de Deus e, por fim, à asebeia. (4.1)

O Mal é uma força destruidora que tem a sua origem na vontade de ser independente de Deus. Modifica qualquer pessoa que se entregue a ele. O Homem torna-se pecador. (4.1.1)

Devido à concupiscência, nenhum ser humano, exceto o Filho de Deus encarnado, consegue levar uma vida imaculada. No entanto, ninguém fica à mercê do Mal sem que o queira, pois tem a sua vontade própria. Ninguém pode fugir à responsabilidade pessoal pelos seus pecados. (4.1.1)

O Mal não surge apenas como força, mas aparece também como pessoa e é designado por nomes como "Diabo", "Satanás" ou "Espírito impuro" (Demónio). (4.1.2)

4.2 O pecado original Voltar ao topo

A doutrina do pecado e da necessidade de ser remido do Homem tem o seu fundamento na Escritura Sagrada, no relato sobre a queda do Homem (vide também 3.3.3): «E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: [...] Mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia que dela comeres, certamente morrerás» (Gn 2,16.17). — «E vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu, e deu, também, a seu marido, e ele comeu com ela» (Gn 3,6).

4.2.1 Consequências do pecado original para o Homem Voltar ao topo

Como consequência do pecado original, o Homem é expulso do jardim do Éden (Gn 3,23.24).

Tendo-se o Homem, inicialmente, afastado de Deus pelos seus atos, agora entra numa nova dimensão: a separação de Deus (Gn 2,17; Rm 6,23).

4.2.1.1 O Homem caído em pecado Voltar ao topo

O Homem quer enaltecer-se, ser superior ao Seu Criador. Isso destrói a relação perfeita com Deus e acaba por ter efeitos graves sobre a humanidade que perduram até ao presente.

Adão é o símbolo original de todos os pecadores. Tanto no que se refere aos motivos que levaram ao pecado, ao comportamento no estado pecaminoso, como também à insolubilidade da situação após a queda.

O pensamento decisivo antes de ultrapassar o limite definido por Deus está contido na tentação: «[...] e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal» (Gn 3,5). Não querer ter nenhum Deus acima de si, mas antes querer também ser (um) Deus, não respeitar mais os mandamentos de Deus, mas agir segundo a sua própria vontade e desejar prazer próprioestes são os motivos que levam ao comportamento pecaminoso.

O carácter pecaminoso de todos os homens é descrito em Génesis pelo aumento assustador dos pecados da humanidade: Caim revolta-se, contra o conselho e o aviso de Deus, e mata o seu irmão (Gn 4,6-8). À medida que o tempo vai passando, os pecados dos homens vão aumentando e "bradam ao céu" — Deus manda vir um dilúvio (Gn 6,5-7.17). Mas mesmo depois deste ato de justiça, a humanidade continua a assumir uma postura de desobediência e atrevimento para com o seu Criador. Refira-se, como exemplo, os feitos dos construtores da Torre de Babel (Gn 11,1-8), relatados na Bíblia, que Deus faz falhar devido à sua presunção.

O apóstolo Paulo escreve sobre o fenómeno da propensão para o pecado de todos os homens, após a queda, e sobre a morte espiritual que daí resultou: «Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim, também, a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram» (Rm 5,12).

A queda do Homem trouxe modificações à sua vida, que ele não consegue inverter. O medo separa-o do seu Criador, cuja proximidade ele não procura, querendo, antes esconder-se dele (Gn 3,8-10). A relação dos homens entre si também sofreu (Gn 3,12), tal como a relação do Homem com a criação. A partir de agora, o Homem terá de sofrer para se manter vivo e no fim da sua vida, tornar-se-á terra, tal como da terra foi criado (Gn 3,16-19).

O Homem fica impossibilitado de retornar ao estado imaculado.

4.2.1.2 O Homem pecaminoso continua a ser amado por Deus Voltar ao topo

A partir de agora, o Homem caído no pecado terá de colher aquilo que semeou: «... o salário do pecado é a morte» (Rm 6,23). Apesar da sua desobediência e da sua presunção, o Eterno ama as Suas criaturas, preocupa-se com elas e cuida delas. Alguns sinais do cuidado paternal de Deus: Deus faz túnicas de peles para Adão e Eva e veste-os (Gn 3,21), e quando Caim, depois do fratricídio, tem medo da vingança das outras pessoas, Ele marca-o com um sinal que o protege (Gn 4,15).

O amor de Deus, que o Homem continua a receber, mesmo depois da queda, manifesta-se em toda a plenitude no envio do Seu Filho. Jesus Cristo vem e vence o pecado (1Jo 3,8). Foi através d'Ele que o Homem recebeu a salvação dos danos que o pecado provoca (Act 4,12).

Através de uma imagem impressionante, e totalmente contrária à revolta e à presunção do Homem cada vez mais envolto no pecado, o Filho de Deus, na Sua humanidade, deixa um sinal inequívoco de obediência absoluta ao Seu Pai (Fl 2,8). Com a Sua morte sacrificial, Jesus Cristo adquire o mérito através do qual o Homem é remido dos seus pecados e acaba por ser libertado «da servidão da corrupção» (Rm 8,21). Assim, obtém a possibilidade de viver em comunhão eterna com Deus.

Neste contexto, o apóstolo Paulo é bem explícito: «Pois assim como por uma ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação, assim também, por um acto de justiça, veio a graça sobre todos os homens, para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um homem, muitos foram feitos pecadores, assim, pela obediência de um, muitos serão feitos justos» (Rm 5,18.19).

Mas a justificação do Homem pecador diante de Deus não lhe cai do céu. Através do sacrifício de Jesus, Deus disse que "sim" ao Homem, não o condena, quer oferecer-lhe a salvação. Cabe ao Homem esforçar-se seriamente em consegui-lo e aceitar o "sim" de Deus. Foi para isso que Deus deu ao ser humano consciência, razão e . Se o Homem orientar essas dádivas para Jesus Cristo, ele conseguirá, pela graça de Deus, a justificação resgatada pelo Filho de Deus (Rm 4,25). Isto é, aquilo que o Homem faz não tem qualquer efeito justificador. Aquilo que ele faz, as suas obras, são antes uma expressão necessária e absolutamente natural da sua : um sinal de que ele aceita a oferta de salvação de Deus.

SÍNTESE Voltar ao topo

Através da queda, o pecado original, o Homem é apartado de Deus. A consequência é a sua expulsão do jardim do Éden. Adão é o protótipo ancestral de todos os pecadores. (4.2.1.; 4.2.1.1)

O amor de Deus para com o Homem prevalece, mesmo depois da queda do Homem. Ele manifesta-se, na sua expansão total, no envio de Jesus Cristo, que vence o pecado e a morte. (4.2.1.2)

4.2.1.3 Consciência Voltar ao topo

A consciência, como um dom que o Homem recebeu da mão de Deus, é descrita na Escritura Sagrada com termos diferentes [6]. No Antigo Testamento, é usado com frequência o termo "coração", no qual se ouve a voz de Deus. Por exemplo, em Deuteronómio 30,14: «Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a fazeresPaulo, por sua vez, mostra que a vontade de Deus não foi colocada apenas no coração dos homens que estavam sob a lei mosaica, mas também no coração dos gentios: «Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, [...] os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência» (Rm 2,14.15). Ou seja, todos os homens têm no seu interior uma consciência daquilo que Deus quertodos têm esta consciência.

O Homem pecaminoso está sem orientação; perdeu a segurança e o amparo que a obediência a Deus lhe dava. Aqui, a instância da consciência pode ajudar a tomar decisões em conformidade com a vontade de Deus. E é bem possível que sejam tomadas decisões erradas, especialmente quando a consciência não é guiada pela razão e pela .

Na sua consciência, o Homem que se questiona consegue aperceber-se da vontade de Deus. Assim sendo, a instância da consciência permite dirigir a vontade do indivíduo para o lado do bem. Por isso, o Homem deverá esforçar-se sempre por formar e apurar cada vez mais a sua consciência através da lei que está inscrita no coração de todos os homens.

Na consciência é que se define o que é o Bem e o que é Mal. Se a consciência for controlada pela razão e pela , ela ajudará o Homem a agir com sabedoria. Também lhe confere a capacidade de reconhecer, perante Deus e perante o seu próximo, que se tornou culpado, e identifica as situações em que a vontade de Deus foi infringida e as Suas ordens desrespeitadas em pensamentos e atos.

Antes de mais, o Homem deve conhecer-se e reconhecer-se a si próprio e prestar contas à sua própria consciência. Se ela testificar ao Homem que ele pecou, e que acarretou culpa sobre si próprio, e se o pecador se deixar guiar pelo sentimento da penitência e do arrependimento, então Deus oferece-lhe a graça do perdão através do mérito de Cristo. Este é o caminho definido por Deus para a justificação do Homem que caiu em pecado.

Para o Homem, o Santo Batismo com Água torna-se experienciável como dedicação curativa de Deus: «Isto era uma figura do baptismo, que agora vos salva, [...] mas pelo compromisso com Deus de uma consciência honrada, em virtude da ressurreição de Jesus Cristo» (1Pe 3,21*). A palavra de Deus motiva o Homem a continuar pelo caminho rumo à salvação, pelo qual enveredou. Assim se realiza um aguçamento continuado da consciência que contribui para reconhecer a vontade de Deus com uma clarividência cada vez maior.

O experienciar da graça preenche o coração com a paz de Deus; a consciência, que condena o Homem em função dos seus pecados, sossega. João explica-o com estas palavras: «E nisto conhecemos que somos da verdade, e diante dele asseguraremos os nossos corações. Sabendo que, se o nosso coração nos condena, maior é Deus do que os nossos corações, e conhece todas as coisas» (1Jo 3,19.20).

SÍNTESE Voltar ao topo

A instância da consciência pode ajudar a tomar decisões segundo a vontade de Deus. Na consciência é que se define o que é o Bem e o que é Mal. (4.2.1.3)

Se a consciência for determinada pela razão e pela , isso ajuda o Homem a agir sabiamente e permite-lhe reconhecer que ele se tornou culpado diante Deus e o seu próximo. (4.2.1.3)

[6] O termo "consciência" é usado em muitos outros contextos, por exemplo, sociológico, filosófico, psicológico, que agora não serão abordados aqui.

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

4.2.1.4 Razão Voltar ao topo

A razão é um dom de Deus, que distingue o Homem de todas as outras criaturas, por ter sido feito à imagem e semelhança de Deus. Isto é-lhe útil, especialmente no que se refere à organização da sua vida e à perceção do seu ambiente.

A razão evidencia-se pelo facto de o Homem pensar e agir usando a sua inteligência e os seus conhecimentos. Ao fazê-lo, ele tem uma responsabilidade perante Deus e perante ele próprio, de forma consciente ou inconsciente (vide 4.2.1.3). O Homem é capaz de reconhecer situações e identificar correlações. Ele reconhece-se a si próprio como indivíduo e -se a si próprio dentro de uma relação com o mundo. No fundo, a razão é uma dádiva de Deus ao Homem, que o pode instruir para se comportar corretamente: «Eles receberam o uso dos cinco poderes do Senhor; como sexto foi-lhes dada a participação da inteligência, e como sétimo, a razão, intérprete dos seus poderes» (Sir 17,5*).

Logo no princípio, o Homem recebeu de Deus a ordem para "dominar a terra" (Gn 1,28). Com o seu espírito de descoberta, o Homem quer usar e aceder a tudo o que existe na criação. Quando isso acontece respeitando a responsabilidade perante Deus e a criação, o Homem age com razão e sensatez, de acordo com o dom que recebeu de Deus.

Em termos bíblicos, a razão também é designada por "sabedoria". Sendo interpretada no sentido de uma capacidade de reconhecer, ela é correlacionada com a atuação de Deus. «Foi Ele quem me deu a verdadeira ciência das coisas para conhecer a estrutura do universo e a propriedade dos elementos» (Sb 7,17). Em vez do termo "razão", o apóstolo Paulo também usa a expressão "sabedoria humana". É ela que transmite ao Homem a capacidade de alcançar conhecimentos, através dos quais ele tenta desvendar os segredos divinos (1Cor 1,21). Se o Homem se colocasse acima da ordem divina e, como tal, acima de Deus, ele estaria a desrespeitar a sabedoria divina como se fosse uma loucura, visto que isso significaria que a razão rejeitaria a (1Cor 2,1-16). Se assim fosse, o Homem perderia o sentido da sua vida. Desde o iluminismo, esta tendência está bem presente em todas as áreas, especialmente no mundo industrializado. Surge sempre onde o espírito de descoberta do Homem não é subjugado à responsabilidade perante Deus e a criação.

Deste ponto de vista, a razão humana será sempre imperfeita, devido ao pecado. É por isso que, do ponto de vista da , uma mentalidade que define a razão como a medida perfeita é desmascarada como sendo uma loucura: «Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?» (1Cor 1,19.20).

Na sua efemeridade, a razão humana não consegue abranger Deus na Sua infinidade. Os Seus atos ultrapassam toda a razão humana. Por isso, o Homem deve estar sempre bem consciente de que com a razão nunca conseguirá abranger, na sua totalidade, o que é divino (Rm 11,33).

Embora a razão não possa ser a medida perfeita de todas as coisas, ela é precisa, por exemplo, para reconhecer as correlações do Evangelho, captar e conseguir entender as palavras e as parábolas da Escritura Sagrada. Também é precisa para confessar a doutrina de Jesus diante dos homens. A razão é um dom divino, mas não é o mais precioso de todos os dons (Fl 4,7). Por isso é que não se pode fazer dela a medida única.

Sempre que a razão tende a erguer-se contra o que é divino, cada indivíduo deve estar ciente de que não está a usar o dom da razão da forma correta, pois está a menosprezar a responsabilidade que tem para com Deus. Através da , o Homem sente a responsabilidade de combater tais tendências de altivez: «Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo» (2Cor 10,5).

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A razão evidencia-se pelo facto de o Homem pensar e agir usando a sua inteligência e os seus conhecimentos. Ao fazê-lo, ele tem uma responsabilidade perante Deus e perante ele próprio (consciência) e a criação, de forma consciente ou inconsciente. (4.2.1.4)

A razão é uma dádiva de Deus, que pode instruir o Homem para adotar um comportamento correto. (4.2.1.4)

Na sua efemeridade, a razão não consegue abranger Deus na Sua infinidade. Os atos de Deus ultrapassam toda a razão humana. (4.2.1.4)

Embora não se possa considerar a razão como sendo a medida perfeita de todas as coisas, ela é necessária para conseguir entender e confessar as correlações do Evangelho. (4.2.1.4)

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

4.2.1.5 Fé Voltar ao topo

Nos textos hebraicos do Antigo Testamento não se encontra a palavra "". Nos pontos em que hoje se encontra esta palavra em traduções modernas, estavam originalmente termos como "confiança", "fidelidade", "obediência", "fundamento" ou "certeza". Todos estes significados estão englobados no termo "". De Hebreus 11,1 consta o seguinte: «Ora, a é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem» (vide 1.4).

O princípio da está sempre em Deus, que se manifesta por palavras e atos. Enquanto o Homem confiar plenamente em Deus, ele consegue obedecer a Deus. A desobediência faz o Homem pecar e tornar-se culpado perante Deus. Desde então, o Homem tem uma relação conturbada com o seu Criador. Se quiser voltar a ter comunhão com Deus, é indispensável que ele tenha (Heb 11,6).

Para os patriarcas da na época da Antiga Aliança, a salvação ainda era algo do futuro (Heb 11,39). Quando Deus se manifesta em Jesus Cristo, cumprem-se as promessas veterotestamentárias. Assim sendo, a adquire uma nova dimensão: agora está direcionada para o Redentor, para Jesus Cristo. Através da n'Ele torna-se possível a reconciliação com Deus e entrar na comunhão com Ele.

Esta é exigida pelo Filho de Deus: «Credes em Deus, crede, também, em mim» (Jo 14,1). Ele deixa bem claro qual é a consequência da falta de : «... porque, se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados» (Jo 8,24).

Àqueles que creem em Jesus Cristo como Filho de Deus e que O aceitam, estão prometidas coisas grandiosas: «para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3,16).

A verdadeira cristã está sempre fundamentada na graça de Deus, que elege e se manifesta. A profissão de do apóstolo Pedro mostra isso: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivoe também a resposta que Jesus é elucidativa: «Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas; porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai que está nos céus» (Mt 16,16.17). A é uma dádiva de Deus e uma tarefa para o Homem. Se o Homem aceitar a palavra de Deus, ele confia nela e age de forma correspondente, e a será viva e conduzi-lo-á à salvação.

SÍNTESE Voltar ao topo

A é uma dádiva de Deus e uma tarefa para o Homem. Se o Homem aceitar a palavra de Deus, ele confia nela e age de forma correspondente, e a será viva e conduzi-lo-á à salvação. (4.2.1.5)

O princípio da está sempre em Deus, que se manifesta por palavras e atos. (4.2.1.5)

Através da crença em Jesus Cristo torna-se possível a conciliação com Deus. (4.2.1.5)

4.2.2 Consequências do pecado original para a criação Voltar ao topo

Da queda do Homem também resultam efeitos significativos sobre a criação, apesar de esta ser em si imaculada.

Originalmente, a criação foi designada como sendo "muito boa", ou seja, perfeita (Gn 1,31). Deus colocou o Homem como governador sobre a criação visível. Quer dizer, perante Deus, é ele o responsável pela criação, sem deixar de ter também uma responsabilidade perante a própria criação (Gn 1,28-30). Face a uma posição tão importante do Homem, dentro da criação visível, a sua desobediência a Deus também tem consequências graves sobre a criação terrena: depois de o Homem ter pecado, a terra, como símbolo da criação visível, e a serpente são amaldiçoados (Gn 3,17.18). Espinhos e cardos - o esforço que o Homem terá de fazer a partir de agora para sobreviver - são o símbolo do afastamento entre Deus e o Homem e da