Katechismus

4 O Homem carente de salvação

O Homem caído em pecado carece da redenção do Mal.

4.1 O Mal — as potestades antidivinas Voltar ao topo

A origem do Mal dentro da ordem da criação divina não pode ser abrangida nem explicada racionalmente. Paulo fala do Mal como sendo um mistério (2Ts 2,7). O Mal nem sempre é inequivocamente identificável. Por vezes, transfigura-se, fazendo-se passar por algo de bom ou divino (2Cor 11,14). O que é realmente o Mal, qual o seu poder, a sua força e quais os efeitos que produz, é algo que só se percebe face à fé no Evangelho.

Só Deus é totalmente bom. Segundo a palavra de Deus, a criação visível e invisível começa por ser boa (Gn 1,1-31), o que indica que o Mal não tem a sua origem nesse momento. Não foi Deus quem criou o Mal na sua essência. Como tal, não faz parte daquilo que foi criado ativamente, apenas foi permitido.

Quando Deus cria o Homem, Ele fá-lo à Sua imagem e semelhança (Gn 1,26ss). Isso inclui o facto de o Homem estar provido de livre arbítrio. Ele tem a capacidade de tomar decisões, optando pela obediência ou pela desobediência a Deus (Gn 2,16.17; 3,1-7). É aí que o Mal tem a sua origem. Ele surge logo que o Homem opta, de forma consciente e intencional, por se opor ao Bem, distanciando-se de Deus e da Sua vontade. Assim sendo, o mal do Homem não é algo criado por Deus. Inicialmente, não passa de uma possibilidade pela qual o Homem optou no momento em que transgrediu o mandamento divino. Deus nunca quis nem criou o Mal, mas permitiu que pudesse existir, não impedindo que o Homem tivesse a capacidade de optar.

Desde a queda do Homem, tanto a humanidade como toda a criação são afetados pelo Mal (Rm 8,18-22).

O Mal começa a desenvolver-se quando a criatura se opõe ao Criador. Como consequência da desobediência, materializada no pecado original, o Mal vai ganhando terreno e conduz ao afastamento de Deus, à separação de Deus e, por fim, à asebeia (impiedade).

4.1.1 O Mal como força antidivina Voltar ao topo

O Mal é uma força que tem a sua origem na vontade de ser independente de Deus e do "querer-ser-como-Deus". Ele modifica totalmente aquele que se entregar a ele: o anjo transforma-se em demónio, o Homem em pecador.

A força do Mal evidencia-se repetidas vezes dentro da história da humanidade. Depois da queda de Adão e Eva, por exemplo, encontramos no Antigo Testamento relatos sobre o fratricídio de Caim, a asebeia existente na época de Noé, a opressão do povo de Israel pelos egípcios.

O Mal é uma força destruidora que se opõe à criação de Deus. Ele tem muitas facetas diferentes; é engano e desagregação, é mentira, inveja e ganância, procura destruir e traz a morte.

Devido à propensão para o pecado (concupiscência), desde a queda do Homem nenhum ser humano — exceto o Filho de Deus encarnado — consegue levar uma vida sem pecado. No entanto, ninguém fica à mercê do Mal sem que o queira, pois tem a sua vontade própria. Por isso mesmo, o indivíduo não pode alegar não ter responsabilidade pessoal pelos seus pecados.

4.1.2 O Mal como pessoa Voltar ao topo

O Mal não surge apenas como força, também aparece como pessoa. A Escritura Sagrada designa o Mal personificado na figura do «diabo» (Mt 4,1), «Satanás» ou «Espírito impuro» (Jb 1,6ss; Mc 1,13.23).

Na 2ª de Pedro 2,4 e em Judas 6 fala-se de anjos que caíram no pecado. Estes seres espirituais entregaram-se ao Maligno e, como tal, eles próprios se tornaram maus. O «diabo peca desde o princípio» (1Jo 3,8), ele é «homicida desde o princípio» é «mentiroso, e pai da mentira» (Jo 8,44). A pergunta da serpente, dirigida a Adão e Eva, lança nos seus espíritos dúvidas em relação a Deus e faz com que se rebelem contra Ele: «Certamente, não morrereis. Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal» (Gn 3,4.5).

Uma das formas assumidas pelo Maligno é o anticristo. É a ele que Jesus Cristo se refere quando fala de «falsos cristos, e falsos profetas» (Mc 13,22). As designações «homem do pecado» ou «filho da perdição» remetem para o anticristo (2Ts 2,3.4).

Satanás não é capaz de impedir o plano de salvação de Deus — antes pelo contrário: foi para isso que o Filho de Deus se manifestou, «para desfazer as obras do diabo» (1Jo 3,8). O poder do diabo e do seu séquito é limitado e já foi vencido pela morte sacrificial de Jesus Cristo. A Jesus Cristo é dado «todo o poder, no céu e na terra» (Mt 28,18); ou seja, Ele também tem poder sobre os espíritos malignos.

Segundo Apocalipse 12, o Maligno — personificado como Satanás, diabo, dragão ou serpente — foi expulso do céu e lançado na terra. Uma última oportunidade de realizar o que é antidivino ser-lhe-á dada após o reino da paz (Ap 20,7.8). Por fim, o desterro definitivo do Mal, para o «lago de fogo e enxofre», é descrito em Apocalipse 20,10. Na nova criação, na qual Deus será «tudo, em todos» (1Cor 15,28), o Mal não terá lugar para existir.

SÍNTESE Voltar ao topo

A origem do Mal não pode ser abrangida nem explicada racionalmente. O que é realmente o Mal, só se torna claro através da crença no Evangelho. (4.1)

No início, a criação invisível e a criação visível são muito boas; o Mal em si não foi criado por Deus, foi consentido. A existência do Mal é viabilizada pela possibilidade de poder optar pela obediência ou pela desobediência a Deus. (4.1)

O Mal começa a desenvolver-se quando a criatura se opõe ao Criador. Isso leva ao afastamento de Deus, à separação de Deus e, por fim, à asebeia. (4.1)

O Mal é uma força destruidora que tem a sua origem na vontade de ser independente de Deus. Modifica qualquer pessoa que se entregue a ele. O Homem torna-se pecador. (4.1.1)

Devido à concupiscência, nenhum ser humano, exceto o Filho de Deus encarnado, consegue levar uma vida imaculada. No entanto, ninguém fica à mercê do Mal sem que o queira, pois tem a sua vontade própria. Ninguém pode fugir à responsabilidade pessoal pelos seus pecados. (4.1.1)

O Mal não surge apenas como força, mas aparece também como pessoa e é designado por nomes como "Diabo", "Satanás" ou "Espírito impuro" (Demónio). (4.1.2)

4.2 O pecado original Voltar ao topo

A doutrina do pecado e da necessidade de ser remido do Homem tem o seu fundamento na Escritura Sagrada, no relato sobre a queda do Homem (vide também 3.3.3): «E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: [...] Mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia que dela comeres, certamente morrerás» (Gn 2,16.17). — «E vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu, e deu, também, a seu marido, e ele comeu com ela» (Gn 3,6).

4.2.1 Consequências do pecado original para o Homem Voltar ao topo

Como consequência do pecado original, o Homem é expulso do jardim do Éden (Gn 3,23.24).

Tendo-se o Homem, inicialmente, afastado de Deus pelos seus atos, agora entra numa nova dimensão: a separação de Deus (Gn 2,17; Rm 6,23).

4.2.1.1 O Homem caído em pecado Voltar ao topo

O Homem quer enaltecer-se, ser superior ao Seu Criador. Isso destrói a relação perfeita com Deus e acaba por ter efeitos graves sobre a humanidade que perduram até ao presente.

Adão é o símbolo original de todos os pecadores. Tanto no que se refere aos motivos que levaram ao pecado, ao comportamento no estado pecaminoso, como também à insolubilidade da situação após a queda.

O pensamento decisivo antes de ultrapassar o limite definido por Deus está contido na tentação: «[...] e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal» (Gn 3,5). Não querer ter nenhum Deus acima de si, mas antes querer também ser (um) Deus, não respeitar mais os mandamentos de Deus, mas agir segundo a sua própria vontade e desejar prazer próprio — estes são os motivos que levam ao comportamento pecaminoso.

O carácter pecaminoso de todos os homens é descrito em Génesis pelo aumento assustador dos pecados da humanidade: Caim revolta-se, contra o conselho e o aviso de Deus, e mata o seu irmão (Gn 4,6-8). À medida que o tempo vai passando, os pecados dos homens vão aumentando e "bradam ao céu" — Deus manda vir um dilúvio (Gn 6,5-7.17). Mas mesmo depois deste ato de justiça, a humanidade continua a assumir uma postura de desobediência e atrevimento para com o seu Criador. Refira-se, como exemplo, os feitos dos construtores da Torre de Babel (Gn 11,1-8), relatados na Bíblia, que Deus faz falhar devido à sua presunção.

O apóstolo Paulo escreve sobre o fenómeno da propensão para o pecado de todos os homens, após a queda, e sobre a morte espiritual que daí resultou: «Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim, também, a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram» (Rm 5,12).

A queda do Homem trouxe modificações à sua vida, que ele não consegue inverter. O medo separa-o do seu Criador, cuja proximidade ele já não procura, querendo, antes esconder-se dele (Gn 3,8-10). A relação dos homens entre si também sofreu (Gn 3,12), tal como a relação do Homem com a criação. A partir de agora, o Homem terá de sofrer para se manter vivo e no fim da sua vida, tornar-se-á terra, tal como da terra foi criado (Gn 3,16-19).

O Homem fica impossibilitado de retornar ao estado imaculado.

4.2.1.2 O Homem pecaminoso continua a ser amado por Deus Voltar ao topo

A partir de agora, o Homem caído no pecado terá de colher aquilo que semeou: «... o salário do pecado é a morte» (Rm 6,23). Apesar da sua desobediência e da sua presunção, o Eterno ama as Suas criaturas, preocupa-se com elas e cuida delas. Alguns sinais do cuidado paternal de Deus: Deus faz túnicas de peles para Adão e Eva e veste-os (Gn 3,21), e quando Caim, depois do fratricídio, tem medo da vingança das outras pessoas, Ele marca-o com um sinal que o protege (Gn 4,15).

O amor de Deus, que o Homem continua a receber, mesmo depois da queda, manifesta-se em toda a plenitude no envio do Seu Filho. Jesus Cristo vem e vence o pecado (1Jo 3,8). Foi através d'Ele que o Homem recebeu a salvação dos danos que o pecado provoca (Act 4,12).

Através de uma imagem impressionante, e totalmente contrária à revolta e à presunção do Homem cada vez mais envolto no pecado, o Filho de Deus, na Sua humanidade, deixa um sinal inequívoco de obediência absoluta ao Seu Pai (Fl 2,8). Com a Sua morte sacrificial, Jesus Cristo adquire o mérito através do qual o Homem é remido dos seus pecados e acaba por ser libertado «da servidão da corrupção» (Rm 8,21). Assim, obtém a possibilidade de viver em comunhão eterna com Deus.

Neste contexto, o apóstolo Paulo é bem explícito: «Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação, assim também, por um só acto de justiça, veio a graça sobre todos os homens, para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim, pela obediência de um, muitos serão feitos justos» (Rm 5,18.19).

Mas a justificação do Homem pecador diante de Deus não lhe cai do céu. Através do sacrifício de Jesus, Deus disse que "sim" ao Homem, não o condena, quer oferecer-lhe a salvação. Cabe ao Homem esforçar-se seriamente em consegui-lo e aceitar o "sim" de Deus. Foi para isso que Deus deu ao ser humano consciência, razão e fé. Se o Homem orientar essas dádivas para Jesus Cristo, ele conseguirá, pela graça de Deus, a justificação resgatada pelo Filho de Deus (Rm 4,25). Isto é, aquilo que o Homem faz não tem qualquer efeito justificador. Aquilo que ele faz, as suas obras, são antes uma expressão necessária e absolutamente natural da sua fé: um sinal de que ele aceita a oferta de salvação de Deus.

SÍNTESE Voltar ao topo

Através da queda, o pecado original, o Homem é apartado de Deus. A consequência é a sua expulsão do jardim do Éden. Adão é o protótipo ancestral de todos os pecadores. (4.2.1.; 4.2.1.1)

O amor de Deus para com o Homem prevalece, mesmo depois da queda do Homem. Ele manifesta-se, na sua expansão total, no envio de Jesus Cristo, que vence o pecado e a morte. (4.2.1.2)

4.2.1.3 Consciência Voltar ao topo

A consciência, como um dom que o Homem recebeu da mão de Deus, é descrita na Escritura Sagrada com termos diferentes [6]. No Antigo Testamento, é usado com frequência o termo "coração", no qual se ouve a voz de Deus. Por exemplo, em Deuteronómio 30,14: «Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a fazeres.» Paulo, por sua vez, mostra que a vontade de Deus não foi colocada apenas no coração dos homens que estavam sob a lei mosaica, mas também no coração dos gentios: «Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, [...] os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência» (Rm 2,14.15). Ou seja, todos os homens têm no seu interior uma consciência daquilo que Deus quer — todos têm esta consciência.

O Homem pecaminoso está sem orientação; perdeu a segurança e o amparo que a obediência a Deus lhe dava. Aqui, só a instância da consciência pode ajudar a tomar decisões em conformidade com a vontade de Deus. E é bem possível que sejam tomadas decisões erradas, especialmente quando a consciência não é guiada pela razão e pela fé.

Na sua consciência, o Homem que se questiona consegue aperceber-se da vontade de Deus. Assim sendo, a instância da consciência permite dirigir a vontade do indivíduo para o lado do bem. Por isso, o Homem deverá esforçar-se sempre por formar e apurar cada vez mais a sua consciência através da lei que está inscrita no coração de todos os homens.

Na consciência é que se define o que é o Bem e o que é Mal. Se a consciência for controlada pela razão e pela fé, ela ajudará o Homem a agir com sabedoria. Também lhe confere a capacidade de reconhecer, perante Deus e perante o seu próximo, que se tornou culpado, e identifica as situações em que a vontade de Deus foi infringida e as Suas ordens desrespeitadas em pensamentos e atos.

Antes de mais, o Homem deve conhecer-se e reconhecer-se a si próprio e prestar contas à sua própria consciência. Se ela testificar ao Homem que ele pecou, e que acarretou culpa sobre si próprio, e se o pecador se deixar guiar pelo sentimento da penitência e do arrependimento, então Deus oferece-lhe a graça do perdão através do mérito de Cristo. Este é o caminho definido por Deus para a justificação do Homem que caiu em pecado.

Para o Homem, o Santo Batismo com Água torna-se experienciável como dedicação curativa de Deus: «Isto era uma figura do baptismo, que agora vos salva, [...] mas pelo compromisso com Deus de uma consciência honrada, em virtude da ressurreição de Jesus Cristo» (1Pe 3,21*). A palavra de Deus motiva o Homem a continuar pelo caminho rumo à salvação, pelo qual enveredou. Assim se realiza um aguçamento continuado da consciência que contribui para reconhecer a vontade de Deus com uma clarividência cada vez maior.

O experienciar da graça preenche o coração com a paz de Deus; a consciência, que condena o Homem em função dos seus pecados, sossega. João explica-o com estas palavras: «E nisto conhecemos que somos da verdade, e diante dele asseguraremos os nossos corações. Sabendo que, se o nosso coração nos condena, maior é Deus do que os nossos corações, e conhece todas as coisas» (1Jo 3,19.20).

SÍNTESE Voltar ao topo

A instância da consciência pode ajudar a tomar decisões segundo a vontade de Deus. Na consciência é que se define o que é o Bem e o que é Mal. (4.2.1.3)

Se a consciência for determinada pela razão e pela fé, isso ajuda o Homem a agir sabiamente e permite-lhe reconhecer que ele se tornou culpado diante Deus e o seu próximo. (4.2.1.3)

[6] O termo "consciência" é usado em muitos outros contextos, por exemplo, sociológico, filosófico, psicológico, que agora não serão abordados aqui.

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

4.2.1.4 Razão Voltar ao topo

A razão é um dom de Deus, que distingue o Homem de todas as outras criaturas, por ter sido feito à imagem e semelhança de Deus. Isto é-lhe útil, especialmente no que se refere à organização da sua vida e à perceção do seu ambiente.

A razão evidencia-se pelo facto de o Homem pensar e agir usando a sua inteligência e os seus conhecimentos. Ao fazê-lo, ele tem uma responsabilidade perante Deus e perante ele próprio, de forma consciente ou inconsciente (vide 4.2.1.3). O Homem é capaz de reconhecer situações e identificar correlações. Ele reconhece-se a si próprio como indivíduo e vê-se a si próprio dentro de uma relação com o mundo. No fundo, a razão é uma dádiva de Deus ao Homem, que o pode instruir para se comportar corretamente: «Eles receberam o uso dos cinco poderes do Senhor; como sexto foi-lhes dada a participação da inteligência, e como sétimo, a razão, intérprete dos seus poderes» (Sir 17,5*).

Logo no princípio, o Homem recebeu de Deus a ordem para "dominar a terra" (Gn 1,28). Com o seu espírito de descoberta, o Homem quer usar e aceder a tudo o que existe na criação. Quando isso acontece respeitando a responsabilidade perante Deus e a criação, o Homem age com razão e sensatez, de acordo com o dom que recebeu de Deus.

Em termos bíblicos, a razão também é designada por "sabedoria". Sendo interpretada no sentido de uma capacidade de reconhecer, ela é correlacionada com a atuação de Deus. «Foi Ele quem me deu a verdadeira ciência das coisas para conhecer a estrutura do universo e a propriedade dos elementos» (Sb 7,17). Em vez do termo "razão", o apóstolo Paulo também usa a expressão "sabedoria humana". É ela que transmite ao Homem a capacidade de alcançar conhecimentos, através dos quais ele tenta desvendar os segredos divinos (1Cor 1,21). Se o Homem se colocasse acima da ordem divina e, como tal, acima de Deus, ele estaria a desrespeitar a sabedoria divina como se fosse uma loucura, visto que isso significaria que a razão rejeitaria a fé (1Cor 2,1-16). Se assim fosse, o Homem perderia o sentido da sua vida. Desde o iluminismo, esta tendência está bem presente em todas as áreas, especialmente no mundo industrializado. Surge sempre onde o espírito de descoberta do Homem não é subjugado à responsabilidade perante Deus e a criação.

Deste ponto de vista, a razão humana será sempre imperfeita, devido ao pecado. É por isso que, do ponto de vista da fé, uma mentalidade que define a razão como a medida perfeita é desmascarada como sendo uma loucura: «Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?» (1Cor 1,19.20).

Na sua efemeridade, a razão humana não consegue abranger Deus na Sua infinidade. Os Seus atos ultrapassam toda a razão humana. Por isso, o Homem deve estar sempre bem consciente de que com a razão nunca conseguirá abranger, na sua totalidade, o que é divino (Rm 11,33).

Embora a razão não possa ser a medida perfeita de todas as coisas, ela é precisa, por exemplo, para reconhecer as correlações do Evangelho, captar e conseguir entender as palavras e as parábolas da Escritura Sagrada. Também é precisa para confessar a doutrina de Jesus diante dos homens. A razão é um dom divino, mas não é o mais precioso de todos os dons (Fl 4,7). Por isso é que não se pode fazer dela a medida única.

Sempre que a razão tende a erguer-se contra o que é divino, cada indivíduo deve estar ciente de que não está a usar o dom da razão da forma correta, pois está a menosprezar a responsabilidade que tem para com Deus. Através da fé, o Homem sente a responsabilidade de combater tais tendências de altivez: «Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo» (2Cor 10,5).

SÍNTESE Voltar ao topo

A razão evidencia-se pelo facto de o Homem pensar e agir usando a sua inteligência e os seus conhecimentos. Ao fazê-lo, ele tem uma responsabilidade perante Deus e perante ele próprio (consciência) e a criação, de forma consciente ou inconsciente. (4.2.1.4)

A razão é uma dádiva de Deus, que pode instruir o Homem para adotar um comportamento correto. (4.2.1.4)

Na sua efemeridade, a razão não consegue abranger Deus na Sua infinidade. Os atos de Deus ultrapassam toda a razão humana. (4.2.1.4)

Embora não se possa considerar a razão como sendo a medida perfeita de todas as coisas, ela é necessária para conseguir entender e confessar as correlações do Evangelho. (4.2.1.4)

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

4.2.1.5 Fé Voltar ao topo

Nos textos hebraicos do Antigo Testamento não se encontra a palavra "fé". Nos pontos em que hoje se encontra esta palavra em traduções modernas, estavam originalmente termos como "confiança", "fidelidade", "obediência", "fundamento" ou "certeza". Todos estes significados estão englobados no termo "fé". De Hebreus 11,1 consta o seguinte: «Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem» (vide 1.4).

O princípio da fé está sempre em Deus, que se manifesta por palavras e atos. Enquanto o Homem confiar plenamente em Deus, ele consegue obedecer a Deus. A desobediência faz o Homem pecar e tornar-se culpado perante Deus. Desde então, o Homem tem uma relação conturbada com o seu Criador. Se quiser voltar a ter comunhão com Deus, é indispensável que ele tenha fé (Heb 11,6).

Para os patriarcas da fé na época da Antiga Aliança, a salvação ainda era algo do futuro (Heb 11,39). Quando Deus se manifesta em Jesus Cristo, cumprem-se as promessas veterotestamentárias. Assim sendo, a fé adquire uma nova dimensão: agora está direcionada para o Redentor, para Jesus Cristo. Através da fé n'Ele torna-se possível a reconciliação com Deus e entrar na comunhão com Ele.

Esta fé é exigida pelo Filho de Deus: «Credes em Deus, crede, também, em mim» (Jo 14,1). Ele deixa bem claro qual é a consequência da falta de fé: «... porque, se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados» (Jo 8,24).

Àqueles que creem em Jesus Cristo como Filho de Deus e que O aceitam, estão prometidas coisas grandiosas: «para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3,16).

A verdadeira fé cristã está sempre fundamentada na graça de Deus, que elege e se manifesta. A profissão de fé do apóstolo Pedro mostra isso: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» e também a resposta que Jesus dá é elucidativa: «Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas; porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai que está nos céus» (Mt 16,16.17). A fé é uma dádiva de Deus e uma tarefa para o Homem. Se o Homem aceitar a palavra de Deus, ele confia nela e age de forma correspondente, e a fé será viva e conduzi-lo-á à salvação.

SÍNTESE Voltar ao topo

A fé é uma dádiva de Deus e uma tarefa para o Homem. Se o Homem aceitar a palavra de Deus, ele confia nela e age de forma correspondente, e a fé será viva e conduzi-lo-á à salvação. (4.2.1.5)

O princípio da fé está sempre em Deus, que se manifesta por palavras e atos. (4.2.1.5)

Através da crença em Jesus Cristo torna-se possível a conciliação com Deus. (4.2.1.5)

4.2.2 Consequências do pecado original para a criação Voltar ao topo

Da queda do Homem também resultam efeitos significativos sobre a criação, apesar de esta ser em si imaculada.

Originalmente, a criação foi designada como sendo "muito boa", ou seja, perfeita (Gn 1,31). Deus colocou o Homem como governador sobre a criação visível. Quer dizer, perante Deus, é ele o responsável pela criação, sem deixar de ter também uma responsabilidade perante a própria criação (Gn 1,28-30). Face a uma posição tão importante do Homem, dentro da criação visível, a sua desobediência a Deus também tem consequências graves sobre a criação terrena: depois de o Homem ter pecado, a terra, como símbolo da criação visível, e a serpente são amaldiçoados (Gn 3,17.18). Espinhos e cardos - o esforço que o Homem terá de fazer a partir de agora para sobreviver - são o símbolo do afastamento entre Deus e o Homem e da não-visibilidade de Deus que a partir de agora irão reinar na criação. Nela, o Homem deixa de ter acesso direto a Deus. A vida do Homem passa a ser acompanhada de insegurança e medo.

O comportamento dos animais entre si pode ser visto como símbolo da inimizade e da discórdia. A ansiedade de superar este estado, de ser curado, também é referida em Isaías 11,6-8: «E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará...»

Ou seja, a criação necessita de ser libertada da maldição que recaiu sobre ela. Na epístola aos Romanos, este aspeto é abordado com clareza: «Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que, também, a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto, até agora» (Rm 8,19-22).

SÍNTESE Voltar ao topo

A queda do Homem também tem repercussões para a criação que, no fundo, não tem culpa nenhuma: originalmente, ela é perfeita; depois de o Homem ter pecado, ela fica danificada. (4.2.2)

Na criação "caída", o Homem não obtém acesso direto a Deus; a sua vida é acompanhada por insegurança e medo. (4.2.2)

A criação caída é carente de redenção. (4.2.2)

4.3 Pecado e culpa Voltar ao topo

Na Bíblia, os termos "pecado" e "culpa" são usados, por vezes, como sinónimos e outras vezes, com significados diferentes. A diferenciação entre estes dois termos é evidenciada numa afirmação do Filho de Deus, quando estava a defender os Seus discípulos que, na opinião dos fariseus, tinham infringido a lei e, por conseguinte, cometido um pecado: «Ou não tendes lido na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado [isto é, pecam por não observância do 3º mandamento], e ficam sem culpa?» (Mt 12,5).

4.3.1 Pecado Voltar ao topo

Pecado é tudo aquilo que se opõe à vontade de Deus e é contrário à natureza de Deus. Qualquer pecado separa de Deus. Para voltar a estar próximo d'Ele, é preciso que o pecado seja perdoado (vide 12.1.8).

Nem o Antigo nem o Novo Testamento contêm uma "doutrina sobre o pecado" intrinsecamente conclusiva ou um "catálogo de pecados" sistemático e completo.

É sempre Deus quem define pessoalmente o que é certo, manifestando a Sua vontade. Ao Homem cabe perguntar pela vontade de Deus e agir de forma consentânea. Todas as palavras, atos e pensamentos direcionados que se oponham à vontade e à natureza de Deus são pecados, tal como também o é a ausência da prática do Bem (Tg 4,17).

A Escritura Sagrada designa por "pecado" a infração aos dez mandamentos (Ex 20,20), o incumprimento do voto feito a Deus (Dt 23,22), a rejeição da fé em Cristo (Jo 16,9), bem como avareza, inveja e outras atitudes parecidas.

O aspeto determinante na questão de saber se algo é ou não um pecado é unicamente a vontade de Deus, tal como ela decorre da Escritura Sagrada, tal como ela corresponde ao sentido e ao espírito do Evangelho de Cristo, e tal como ela é manifestada pelo Espírito Santo. De forma alguma pode o Homem determinar por si próprio o que é ou não pecado.

Nas suas condições de vida específicas, cada qual é responsável perante Deus e si próprio, ou seja, tem uma autorresponsabilidade.

4.3.2 Culpa Voltar ao topo

Quando o Homem infringe a vontade de Deus, está a cometer um pecado e a carregar uma culpa perante Deus. A culpa verifica-se quando Deus, na Sua justiça e omnisciência, imputa este comportamento faltoso ao ser humano que cometeu um pecado. É só Deus quem define a gravidade da culpa.

A dimensão desta culpa pode divergir: o que mais importa neste contexto é o conhecimento e a vontade do pecador; determinadas influências, às quais os seres humanos são expostos, também podem ter repercussões. Por exemplo, situações gerais da vida, estruturas sociais, normas jurídicas do governo, situações de aflição, tendências doentias. Em casos individuais, a culpa resultante do pecado pode tender para o zero, enquanto noutros até pode "clamar aos céus" (Gn 4,10). De tudo isso resulta que a culpa pode ser relativizada, mas o pecado não pode.

Pelo amor que Lhe é próprio, Deus quer redimir o Homem do pecado e libertá-lo da culpa. É a isso que se destina o sacrifício de Cristo, a essência dos atos divinos.

SÍNTESE Voltar ao topo

O pecado e a culpa são duas coisas distintas. (4.3)

Pecado é tudo aquilo que se opõe à vontade de Deus e é contrário à natureza de Deus. Qualquer pecado aparta de Deus e tem de ser perdoado. O que determina o que é pecado ou não é exclusivamente a vontade divina. De forma alguma pode o Homem determinar por si próprio o que é ou não pecado. (4.3.1)

A culpa verifica-se quando Deus, na Sua justiça e omnisciência, imputa este comportamento faltoso ao ser humano que cometeu um pecado. A gravidade da culpa pode diferir, só Deus a sabe medir. Contrariamente ao pecado, a culpa é relativizável. (4.3.2)

4.4 Plano de salvação de Deus Voltar ao topo

Na Escritura Sagrada, o termo "salvação" é usado no sentido de "salvar", "proteger" e "redimir". A atuação de Deus tem como objetivo realizar a salvação. Isso acontece na forma de história de salvação. É nela que se reconhece uma sequência de atos divinos baseados num plano de Deus.

A história de salvação começa logo após a queda do Homem. Tem a sua continuação na salvação de Noé, da perdição no dilúvio, na eleição e bênção divina dos patriarcas, na aliança com Israel e na história do povo de Deus veterotestamentário. O acontecimento histórico-salvífico central é a encarnação de Deus em Jesus Cristo, o Seu sacrifício na cruz, a Sua ressurreição e a Sua ascensão. Seguem-se o derramamento do Espírito Santo, a propagação do Evangelho através dos apóstolos dos primeiros tempos e a continuação do desenvolvimento do cristianismo até à restauração do ministério de apóstolo, direcionada para a preparação da Igreja-noiva para a revinda de Jesus Cristo. Depois, segue-se a atuação salvífica no reino milenário da paz até ao Juízo Final. Por fim, Deus criará o novo céu e a nova terra. Todo este processo é designado de "plano de salvação de Deus".

Uma primeira expressão dos pensamentos salvíficos divinos encontra-se nos Seus atos após a queda do Homem (vide 4.2). A tradição cristã vê na maldição lançada sobre a serpente uma indicação referente ao Redentor que há-de vir, o fulcro do Seu plano de salvação.

Nas diversas fases da história de salvação, a forma e a dimensão da salvação que ocorrerá são concebidas por Deus de modo diferenciado. Mas, acima de tudo está a vontade salvífica de Deus que abrange todos os homens em todas as épocas.

4.4.1 Esperança salvífica veterotestamentária Voltar ao topo

Na Antiga Aliança, a esperança na salvação era sempre primeiro no sentido da salvação de aflições terrenas e do cativeiro. Neste aspeto, o povo de Israel foi alvo dos atos de Deus no sentido da libertação do cativeiro egípcio.

Depois, Deus deu ao Seu povo a lei, através de Moisés. Ela contém instruções sobre como o Homem se consegue libertar de relações de culpabilidade com outros homens (Ex 21,28-30; Lv 25,39ss e outros).

Com o passar do tempo, a esperança salvífica de Israel passou a referir-se de forma cada vez mais nítida ao Messias esperado, à libertação do poder escravizante do pecado: «... espere, Israel no Senhor, porque no Senhor há misericórdia, e nele há abundante redenção. E ele remirá a Israel de todas as suas iniquidades» (Sl 130,7.8).

Deus preparou o surgimento do Redentor em muitas promessas proclamadas através dos profetas. É n'Ele que todas essas promessas serão cumpridas.

4.4.2 Jesus Cristo — Salvador e Mediador da Salvação Voltar ao topo

O texto bíblico em Gálatas 4,4.5 mostra que toda a história de salvação na Antiga Aliança é direcionada para o nascimento do Filho de Deus, Jesus Cristo: «Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adopção de filhos.»

Jesus Cristo é o Redentor enviado por Deus. Ele manifesta-se, nas Suas palavras e nas Suas obras, como sendo o Salvador. Quem crê n'Ele, reconhece: «este é, verdadeiramente, o Cristo, o Salvador do mundo» (Jo 4,42). «E em nenhum outro há salvação» (Act 4,12).

Durante o Seu tempo na Terra, o Filho de Deus faz vários milagres curativos. Ao curar um paralítico, segundo relato em Mateus 9,2-6, Jesus remete para a salvação muito mais importante: a redenção do Homem dos seus pecados.

Em Jesus Cristo chegou a salvação ao mundo — Ele é o autor da salvação eterna (Heb 5,9). Ele trouxe a redenção e Ele é o único mediador entre Deus e o Homem (1Tm 2,5.6). Através do sacrifício de Cristo, a relação entre o Homem e Deus adquiriu uma nova qualidade. O mérito produzido pelo sacrifício permite a libertação do pecado e a abolição da separação permanente de Deus: «... as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo, por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação» (2Cor 5,17-19).

Nenhum ser humano consegue alcançar a redenção pelos seus próprios meios; todos são pecadores e carecem dos atos salvíficos de Deus (Mt 16,26). Através de Jesus Cristo, a salvação tornou-se acessível a todos os homens, tanto vivos como mortos (Act 13,47; Rm 14,9).

O plano de salvação de Deus prevê que, ao longo dos tempos, a salvação seja oferecida a todos os homens. Nesse sentido, a proclamação do Evangelho através dos primeiros apóstolos, a propagação do cristianismo no mundo inteiro e a preparação da Igreja-noiva para a revinda de Cristo são etapas neste plano de salvação.

SÍNTESE Voltar ao topo

Os atos de Deus visam a realização da salvação, no sentido de "salvar", "proteger" e "redimir". Isso acontece na forma de história de salvação. É nela que se reconhece uma sequência de atos divinos com base num plano de Deus, o qual é designado "plano de salvação de Deus". (4.4)

O tipo e a dimensão da salvação a conceder diferem nas diversas partes da história de salvação. Mas, acima de tudo está a vontade salvífica de Deus, que abrange todos os homens em todas as épocas. (4.4)

Na época veterotestamentária, a esperança na salvação era sempre primeiro no sentido da salvação de aflições terrenas e do cativeiro. Com o passar do tempo, a esperança salvífica de Israel passou a referir-se de forma cada vez mais nítida ao Messias esperado. (4.4.1)

A história de salvação na Antiga Aliança remete para Jesus Cristo, o Redentor enviado por Deus. Ele é o autor da salvação eterna e o único mediador entre Deus e o Homem. O mérito adquirido por Cristo na cruz permite alcançar a libertação do pecado e a abolição da apartação de Deus. (4.4.2)

Através de Jesus Cristo, a salvação tornou-se possível para todos os seres humanos, sejam os vivos ou os mortos. Nenhum ser humano consegue alcançar a redenção pelos seus próprios meios. (4.4.2)

4.4.3 Preparação da Igreja-noiva Voltar ao topo

Atualmente, o crente experiencia a salvação, que consiste em ser preparado para a revinda de Cristo, através da comunhão com Jesus Cristo, pela prédica e pelos sacramentos, o que lhe dá acesso à participação na glória de Deus. Para alcançar esta salvação em Cristo, o ministério de apóstolo (vide 7.4) volta a estar ocupado na atual fase do plano de salvação divino (vide 11.3.3). Os apóstolos têm a função de proclamar a palavra de Deus e de ministrar os sacramentos (vide 8).

O objetivo desta mediação salvífica é juntar todos os que formam a Igreja-noiva de Cristo e prepará-los para a revinda do Senhor. Para a Igreja-noiva de Cristo, que aceitou com fé a proposta salvífica de Deus, a salvação consiste em entrar na comunhão eterna com Deus logo no dia do Senhor, através das bodas do Cordeiro (vide também 10.5).

Nas etapas do plano de salvação que se seguem depois do dia do Senhor (vide 10.3 até 10.6), a salvação será experienciada de outra forma:

Os crentes, que na grande tribulação perderam a sua vida por professarem a sua fé em Cristo, têm parte na Primeira Ressurreição e regem como sacerdotes com Cristo. Neste período, o reino milenário da paz, a salvação é proposta a todos os homens. Todos aqueles que usufruírem da misericórdia no Juízo Final terão comunhão eterna com Deus na nova criação.

O plano de salvação de Deus, tal como se encontra descrito na Escritura Sagrada, termina com a nova criação (Ap 21).

SÍNTESE Voltar ao topo

Na parte atual do plano de salvação de Deus, no presente, o ministério de apóstolo, que transmite a salvação através da palavra e dos sacramentos, está, de novo, ocupado. O objetivo consiste em reunir a Igreja-noiva e prepará-la para a revinda do Senhor. (4.4.3)

A salvação plena da Igreja-noiva ocorrerá no momento da revinda de Cristo, quando ela alcançar a comunhão eterna com Deus. (4.4.3)

O plano de salvação de Deus termina com a nova criação. (4.4.3)

4.5 Eleição Voltar ao topo

A eleição está fundamentada na vontade de Deus, que chama determinadas pessoas, ou grupos de pessoas, para uma finalidade por Ele definida, impondo-lhes a correspondente responsabilidade.

4.5.1 Eleição no Antigo Testamento Voltar ao topo

Logo na criação existem indícios da eleição divina, sempre associada à responsabilidade inerente à eleição. De entre todas as Suas criaturas, Deus elegeu o Homem e deu-lhe a ordem de dominar a Terra. A posição especial que lhe foi concedida é referida em Sabedoria 2,23*: «Com efeito, Deus criou o homem para a incorruptibilidade e fê-lo à imagem do seu próprio ser.» Ao longo da história de salvação veterotestamentária, reconhece-se o significado da eleição especialmente em Noé, Abraão e o povo de Israel:

  • Quando Deus decide «destruir o Homem de sobre a face da terra» (Gn 6,1-8), Ele promete salvar Noé. E Noé assegura o cumprimento desta promessa, fazendo tudo quanto Deus lhe manda fazer. Desta forma, Noé e a sua família — e, por conseguinte, toda a humanidade — são salvos da perdição.

  • Abraão é eleito para que através dele sejam abençoadas «todas as famílias da terra» (Gn 12,3). As promessas que Deus lhe deu são repassadas para Isaac.

  • Dos dois filhos que este teve, Esaú, como primogénito, seria o recetor legal da bênção, mas Deus elegeu Jacob e abençoou-o (Gn 28,13-15). Aqui evidencia-se o seguinte: ninguém pode reivindicar qualquer direito à graça da eleição divina, nem tampouco é possível compreendê-la com o intelecto humano.

  • Dos doze filhos de Jacob se desenvolve o povo de Israel que Deus elege como Seu povo da aliança: «Porque povo santo és ao Senhor, teu Deus: o Senhor, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que sobre a terra há. O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o Senhor vos amava» (Dt 7,6-8). Quer dizer, a origem que leva à eleição é o amor de Deus.

  • De entre o povo de Israel, Deus elegeu alguns homens para proclamarem a Sua vontade e cumprirem tarefas especiais. Entre eles, Moisés e Josué, bem como vários juízes, reis e os profetas.

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

4.5.2 Eleição no Novo Testamento Voltar ao topo

Jesus elege os Seus apóstolos de entre a multidão dos Seus discípulos e envia-os para o mundo inteiro, dando-lhes a missão de ensinar e batizar (Mt 28,19.20; Lc 6,13). De entre os judeus e os gentios, o Senhor elege o povo da Nova Aliança. Quem quiser assegurar essa eleição, aceita o Evangelho com fé e deixa-se batizar com água e Espírito Santo. Do povo da Nova Aliança está escrito na 1ª carta de Pedro 2,9: «Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.» Este texto bíblico também mostra que todos os que fazem parte do povo da Nova Aliança passam a ter a responsabilidade de dar testemunho das benfeitorias de Deus, recebidas através das suas palavras e do seu comportamento (2Pe 1,10.11).

4.5.3 Soberania de Deus na eleição por misericórdia Voltar ao topo

A eleição é uma dádiva de Deus, que é aceite com fé ou que é rejeitada onde há incredulidade.

Ninguém pode adquirir a eleição por boas obras, muito menos reivindicar qualquer direito a ela; é inexplicável com o raciocínio humano. A eleição divina é um segredo de Deus ao qual unicamente a fé dá acesso. Deus oferece esta dádiva àqueles que Ele elegeu (Rm 9,10-20).

O Homem não é obrigado a aceitar a eleição de Deus e a assegurá-la. Se ele crê no chamamento divino, e se o segue, e se cumpre, ou não, com fidelidade as tarefas que lhe foram atribuídas, é sempre uma opção que o Homem tem de tomar.

Assim sendo, existe um campo de tensão indissolúvel entre a eleição de misericórdia de Deus, que é independente do comportamento humano, e a decisão deliberada do Homem de aceitar ou não a eleição de Deus.

Deus elege os homens para a sua própria salvação e para a salvação de outros; eles estão eleitos para cooperarem no Seu plano de salvação. Quando Deus elege, essa eleição está sempre associada a uma tarefa ou vocação.

São convocados e eleitos para serem cristãos aqueles que foram batizados e professam a sua fé em Jesus Cristo enquanto Senhor e Salvador. Eles estão destinados a propagar o Evangelho. Aqueles cristãos, que foram regenerados em água e espírito, receberam, além disso, o pré-requisito necessário para obter os direitos de primogenitura. É de entre essa multidão que será preparada a Igreja-noiva de Cristo, para formar, no reino da paz, o sacerdócio real (vide 10.6).

Da doutrina da eleição não se pode deduzir que o Homem seja pré-determinado, desde o princípio, nos seus atos e que não tenha qualquer opção de decisão [7]. Antes pelo contrário, esta possibilidade de tomar opções faz parte da natureza do Homem. Nem tampouco se poderá deduzir que a eleição de um Homem para fazer parte da Igreja-noiva implique também a rejeição daqueles que não são eleitos para esse fim. A salvação futura está aberta a todos os homens — até mesmo a comunhão eterna com Deus na nova criação.

A aceitação da eleição com fé significa seguir inteiramente o exemplo de Jesus Cristo. A eleição também tem consequências escatológicas: quando Jesus Cristo edificar o Seu reino da paz, como Rei dos reis, o sacerdócio real ao Seu lado proclamará a todos os homens a feliz mensagem de salvação em Cristo. Estão eleitos para formar esse sacerdócio real aqueles que participam na Primeira Ressurreição (Ap 20,6).

O assegurar da eleição evidencia-se na aceitação crente da graça, bem como na fidelidade a Deus e à Sua obra.

A eleição é um ato do amor de Deus. Ele é fiel àqueles que elegeu. Não existem influências externas que consigam separar os eleitos do amor de Deus (Rm 8,29.37-39).

SÍNTESE Voltar ao topo

A eleição é fundamentada na vontade de Deus. Deus chama o indivíduo com um propósito por Ele definido. De entre todas as Suas criaturas, Deus elegeu o Homem e deu-lhe a ordem de dominar a Terra. (4.5; 4.5.1)

Ninguém pode reivindicar qualquer direito à graça da eleição divina, nem tampouco é possível compreendê-la com o intelecto humano. Isso vê-se em muitos exemplos do Antigo Testamento. (4.5.1; 4.5.3)

Jesus elege os Seus apóstolos de entre a multidão dos Seus discípulos e envia-os para o mundo inteiro, dando-lhes a missão de ensinar e batizar. De entre os judeus e os gentios, Deus elege o povo da Nova Aliança. (4.5.2)

A eleição é uma dádiva do amor de Deus, que é aceite com fé ou que é rejeitada onde há incredulidade; esta liberdade de tomar opções faz parte da natureza do Homem. A aceitação da eleição com fé significa seguir inteiramente o exemplo de Jesus Cristo. (4.5.3)

Deus elege os homens para a sua própria salvação e para a salvação de outros. Quando Deus elege, essa eleição está sempre associada a uma tarefa ou vocação. (4.5.3)

A eleição não significa que os atos do Homem fiquem predefinidos de antemão. (4.5.3)

[7] Frequentemente, estabelece-se uma correlação entre a eleição e a predestinação. A predestinação era, por vezes, vista como uma previsão divina do destino individual dos homens. Mas a predestinação não se refere aos percursos da vida humana na Terra, nem os determina, mas antes remete para o facto de Deus predestinar o Homem para receber a salvação.

4.6 Bênção de Deus Voltar ao topo

O termo "bênção" significa dedicação de Deus. Bênção é um sinónimo da atuação criadora, salvífica e curativa de Deus no Homem e na criação. O antónimo é a maldição, o afastamento de Deus por parte do Homem.

A convicção de que o ser humano depende da bênção de Deus em toda a sua existência remete para uma visão do ser humano de que toda a criação é derivada da fé em Deus enquanto Criador e Sustentador omnipotente. Por si próprio, o Homem não tem condições para conceber a sua vida de maneira a servir de bem para si mesmo, para os seus próximos e para a criação.

O contrário da bênção, a maldição, cai sobre o Homem, quando este se opõe a Deus no momento do pecado original. Maldição é tudo o que leva o Homem ao afastamento de Deus e o que ele vivencia nesse estado: está cheio de inquietude, sem paz e entregue à mercê da corruptibilidade e da morte. A ajuda não se encontra nele próprio, mas unicamente em Deus.

A libertação da maldição de estar entregue ao pecado vem através da graça de Deus. Quando o Homem aceita as dádivas de Deus com fé, e se deixa guiar por Ele, também recebe a bênção.

Muitas vezes, Deus oferece a Sua bênção através de pessoas por Ele encarregadas.

A bênção é abrangente, diz respeito ao ser humano no seu todo, contém força divina e dá ao Homem a promessa da salvação futura. A bênção é uma dádiva de Deus que ninguém consegue obter por mérito. Ser abençoado significa receber algo de bom de Deus. Ninguém consegue abençoar-se a si próprio. No entanto, o Homem é exortado a orar pela bênção de Deus e a comportar-se de forma a mostrar que é digno dessa bênção.

A bênção desenvolve-se quando a fé existe; a bênção é uma dádiva de Deus que se autorrenova constantemente. Se terá ou não efeitos duradouros, acaba por depender da mentalidade e do comportamento daquele que é abençoado. Se agir de forma a atrair o agrado de Deus, ele próprio tornar-se-á uma bênção para os outros.

A bênção pode ir muito além do destinatário original, e da sua vida, abrangendo até mesmo gerações futuras.

4.6.1 Bênção de Deus na criação Voltar ao topo

No ato da criação, Deus abençoou a criatura e colocou a lei da multiplicação na vida por Ele criada. Ele confiou a criação nas mãos do Homem e prometeu que lhe daria a Sua bênção por isso (Gn 1,28-30), uma bênção que viria a ser renovada após o dilúvio (Gn 9,1.11). Aquilo que esta bênção inclui, fica expresso nas seguintes palavras: «Enquanto a terra durar, sementeira e sega, e frio e calor, e verão e inverno, e dia e noite, não cessarão» (Gn 8,22).

Embora a bênção de Deus, que no princípio incidia sobre a criação, tivesse sido limitada no seu efeito pela maldição do pecado, ela não foi neutralizada: «Porque a terra que embebe a chuva, que muitas vezes cai sobre ela, e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção de Deus» (Heb 6,7). Esta bênção é proveitosa para todos os homens (Mt 5,45).

4.6.2 Bênção de Deus na Antiga Aliança Voltar ao topo

A promessa de bênção dirigida a Israel é parte integrante da aliança que Deus fez com o Seu povo eleito. Esta bênção dependia do cumprimento das responsabilidades do povo de Israel relativamente à aliança: servir unicamente a Deus e obedecer aos Seus mandamentos. Se o povo agisse de forma diferente, a consequência seria a maldição. A decisão estava nas mãos do povo: «Eis que hoje ponho diante de vós a bênção e a maldição: A bênção, quando ouvirdes os mandamentos do Senhor, vosso Deus, que hoje vos mando; Porém, a maldição, se não ouvirdes os mandamentos do Senhor, vosso Deus» (Dt 11,26-28). Aqui vê-se claramente que o afastamento de Deus e dos Seus mandamentos acarreta a maldição.

Na Antiga Aliança, a bênção de Deus evidenciava-se, principalmente, no contexto de vida diretamente experienciável do Homem e estendia-se a todas as áreas, por exemplo, à vitória no combate com os inimigos, a uma vida longa, à riqueza, a um grande número de filhos e descendentes e à fertilidade da terra (Dt 28,3-6). Mas já na Antiga Aliança, a bênção também tem uma dimensão que vai além do bem-estar natural. Por exemplo, no caso da promessa de Deus dirigida a Abraão: «E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra» (Gn 12,2.3). Esta bênção ia muito além da promessa de dar bem-estar pessoal; deu a Abraão a capacidade de também se tornar numa bênção para os outros. A bênção de Deus devia chegar a todas as gerações vindouras: através de Jesus Cristo, esta bênção tornou-se acessível a todas as nações (Gl 3,14).

4.6.3 Bênção de Deus na Nova Aliança Voltar ao topo

Com Jesus Cristo começou a transmissão da bênção divina na Nova Aliança. O Senhor abençoava através da Sua palavra, dos Seus milagres, da Sua vida. Impunha as Suas mãos nas crianças, para as abençoar, e perdoava aos pecadores. Os Seus atos de bênção foram coroados pela entrega da Sua vida imaculada na cruz, como sacrifício expiatório para reconciliação de todos os homens. Com este sacrifício, Ele tomou sobre si a maldição que pairava sobre os pecadores.

A bênção que surge em Jesus Cristo pode ser compreendida como sendo omniabrangente. Podemos ler em Efésios 1,3: «Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais, nos lugares celestiais, em Cristo.» Esta bênção começou com a eleição antes da «fundação do mundo» (versículo 4). E contém também a redenção e a remissão dos pecados (versículo 7), leva ao reconhecimento da vontade de Deus (versículo 9), contém a nomeação como herdeiros da glória futura (versículo 11), dá acesso à participação no Evangelho (versículo 13) e permite o selamento com o dom do Espírito Santo, o penhor da herança para a redenção (versículos 13.14).

O crente sabe que, dentro da eleição realizada em Jesus Cristo, se encontra a vocação para herdar a bênção (1Pe 3,9). Ele mostra a sua gratidão pela bênção de Deus por uma conduta de vida caracterizada pelo temor a Deus, pela obediência na fé e pelo altruísmo.

O sacrifício também envolve bênção (vide 13.2.4); esta é uma experiência fundamental que se faz na vida cristã.

No serviço divino, o crente obtém acesso a muitas bênçãos divinas (vide 12.1 e 12.2).

A plenitude da bênção consiste em participar para sempre na glória de Deus.

SÍNTESE Voltar ao topo

A bênção é uma dádiva de Deus que ninguém consegue obter por mérito. Bênção é um sinónimo da atuação salvífica de Deus no Homem e na criação. (4.6)

Muitas vezes, Deus oferece a Sua bênção através de pessoas por Ele encarregadas. Ninguém consegue abençoar-se a si próprio. A bênção desenvolve-se quando existe fé. (4.6)

No ato da criação, Deus abençoou a criatura e colocou a lei da multiplicação na vida que criou. Ele confiou a criação nas mãos do Homem e prometeu-lhe bênção. Embora a bênção de Deus tenha sido limitada, no seu efeito, pela maldição do pecado, não foi abolida. (4.6.1)

Na Antiga Aliança, a bênção de Deus evidenciava-se, sobretudo, no bem-estar terrestre, mas também tinha dimensões que ultrapassavam esse conceito. (4.6.2)

Jesus Cristo abençoava através da Sua palavra e dos Seus atos. O sacrifício da Sua vida imaculada, como sacrifício expiatório para reconciliação de todos os homens, é a maior das bênçãos. (4.6.3)

No serviço divino, todos os crentes obtêm acesso às bênçãos divinas. (4.6.3)

A plenitude da bênção consiste em participar para sempre na glória de Deus. (4.6.3)

4.7 Funções da lei Voltar ao topo

Regra geral, o termo "lei" designa as diretivas e regras definidas por uma autoridade superior e que são vinculativas para todos aqueles que vivem dentro dos limites territoriais dessa entidade; a lei define os direitos e as obrigações.

Acima de todos os legisladores está Deus, como Soberano Supremo. A lei, que se aplica a qualquer Homem, apesar de não existir sob a forma escrita, é designada de "lei da natureza e lei moral" (Rm 2,14.15). Nela evidenciam-se as exigências e os padrões éticos e morais pelos quais a vida humana se deve reger. Nos seus fundamentos e exigências básicos, a lei moral continua inalterável ao longo de todas as modificações históricas e sociais. Da lei moral geral podem deduzir-se partes essenciais da legislação governamental. Como exemplo, elementos importantes desta lei são abordados nos dez mandamentos.

No entanto, não existe apenas uma lei que exige algo do Homem e que o instrui sobre como agir, mas antes uma lei que define a realidade de vida. Desta forma, fica definida uma estrutura que dá uma determinada ordem à área biológica, social e política da vida. Esta lei torna-se experienciável nos acontecimentos elementares da vida humana, na história e na natureza. O nascimento e a morte, o envelhecimento e o desfalecimento, o êxito e o fracasso, bem como o assistir a eventos históricos ou catástrofes naturais: tudo são facetas da experiência desta lei.

O Antigo Testamento parte do princípio de que o Homem é justo perante Deus levando uma vida em conformidade com a lei mosaica (Dt 6,25). Na época, a lei mosaica era considerada a ordem suprema e vinculativa para os israelitas. Por outro lado, o Evangelho diz que a salvação e a justiça válidas perante Deus advêm da crença no sacrifício e na ressurreição de Cristo. A graça de Deus está acima da lei.

O apóstolo Paulo ocupou-se das reflexões contraditórias que havia em relação à justiça, nomeadamente a da lei ou da graça, especialmente na sua epístola aos Romanos. Na igreja primitiva cristã, as duas abordagens diferenciadas resultaram em controvérsias entre judeus cristãos e cristãos gentios. Isso levou o apóstolo a dedicar-se intensamente a esta temática.

4.7.1 O termo "Lei" Voltar ao topo

Em primeiro lugar, o termo "lei" refere-se à lei mosaica documentado por escrito, ou seja, os cinco livros de Moisés (o Torá). O elemento essencial da lei mosaica são os dez mandamentos, bem como o duplo mandamento do amor (vide 5.3).

Na Antiga Aliança, a lei é vista como caminho para a salvação. Ela dá ao Homem a possibilidade de evitar o pecado e, assim, de viver justificado perante Deus e de evitar o Seu Juízo. A lei coloca o israelita perante uma decisão: se ele a cumprir, terá a bênção de Deus; se a infringir, será alvo da maldição de Deus (Dt 11,26-28). A ênfase do aspeto ritual da lei, do mero cumprimento dos mandamentos, é duramente criticada pelos profetas (Is 1,10-17).

Em Jesus Cristo foi definido o caminho para a salvação, a reconciliação total com Deus. O Novo Testamento desvenda o que isso significa na lei mosaica: não se trata, como até então se acreditava, do caminho para a salvação, mas antes do retrato da situação do Homem perdidamente envolvido pelo pecado perante Deus e indica o verdadeiro caminho para a salvação.

Além disso, o conceito da lei também se torna muito mais amplo, ao abordá-lo a partir do Novo Testamento: não é apenas o Torá definido por escrito, é também o estado fundamental de toda a vida e de todas as coisas, o que também inclui o Homem. Incluem-se aqui as leis da causa e do efeito, da sementeira e da colheita, do ser e do perecer, das quais nada nem ninguém consegue escapar. "Lei" também designa uma instância existente dentro do Homem que lhe impõe exigências morais e éticas (vide 4.2.1.3).

Tanto os judeus como os gentios estão sujeitos à lei: os judeus estão sob a lei manifestada a Moisés, os gentios estão sob a lei que Deus inscreveu no coração de todos os homens (Rm 2,15).

4.7.2 A lei como instrução para agir corretamente Voltar ao topo

A função da lei que Deus deu consiste em ensinar a agir de forma a atrair o agrado de Deus; é uma ajuda bondosa de Deus para a vida humana. Ela dá ao Homem regras comportamentais concretas. Assim sendo, a lei ensina o Bem e visa ajudar a evitar o Mal.

Dentro da lei mosaica, os mandamentos referentes aos alimentos e à purificação, bem como as instruções para respeitar o sábado e cumprir o serviço sacerdotal, assumem um papel central. Esta lei define o padrão para a adoração correta de Deus, bem como para o comportamento certo dos homens entre si: «Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a beneficência, e andes humildemente com o teu Deus» (Mq 6,8).

"Praticar a justiça", ou seja, agir em conformidade com a lei, significa, acima de tudo, manter-se fiel a Deus e não adorar ídolos. A humildade do Homem evidencia-se na obediência a Deus. No contexto do convívio social, "amar a beneficência" significa respeitar e estimar o próximo. No sermão da montanha, Jesus Cristo aborda esta intenção fundamental da lei: «Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas» (Mt 7,12).

Os piedosos da Antiga Aliança partiram do princípio de que as exigências da lei poderiam ser cumpridas e que, como tal, serviriam para a obtenção da salvação. No entanto, existem vários textos bíblicos no Antigo Testamento que mostram ter existido uma consciência de que o Homem não seria capaz de cumprir totalmente todas as diretivas da lei (Sl 19,13 e outros). Mas, de qualquer forma prevalece a convicção fundamental: quem cumpre a lei, é justificado; recebe a salvação. Quem infringe a lei, é pecador; espera-o o Juízo.

4.7.3 A lei como instrução para reconhecer o pecado Voltar ao topo

A visão correta da lei dada por Deus obtém-se à luz do Evangelho.

O apóstolo Paulo escreve na epístola aos Romanos: «Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso, nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado» (Rm 3,19.20). Face à exigência da lei, a qual o faz fracassar constantemente, o Homem reconhece que é pecador, que não é justificado e, como tal, que tem necessidade da graça de Deus (Rm 7,7-10).

Ou seja, do ponto de vista do Novo Testamento, a maior função da lei mosaica consiste em que o Homem reconheça que é impossível alcançar a salvação apenas por mérito próprio. A lei não pode transformar o injusto em justo, nem o pecador em indultado. Todavia, prevalecem as exigências fundamentais da lei nos dez mandamentos e no mandamento do amor a Deus e ao próximo.

Quer dizer, a lei faz o Homem manifestar-se como pecador. Isso mostra a necessidade da obtenção de salvação plena através da remissão dos pecados. Assim sendo, a lei sempre remeteu para Jesus Cristo: «Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar. De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados» (Gl 3,23.24). Um "aio" é um professor ou pedagogo que esclarece as correlações existentes e ajuda a chegar a Cristo.

Paulo resume as funções da lei na sua epístola aos Romanos: pela desobediência de um só Homem (Adão) muitos foram feitos pecadores; pela obediência de um só Redentor (Jesus Cristo) muitos foram feitos justos. Entre os dois, assim escreve Paulo, «veio, porém, a lei» (Rm 5,19.20). No fundo, a lei mosaica deve conduzir ao reconhecimento de que dela não resulta a redenção, mas que essa só pode vir unicamente de Jesus Cristo.

SÍNTESE Voltar ao topo

A lei não escrita e invariavelmente aplicável a todos os seres humanos é a lei da natureza e a lei moral. Elementos importantes desta lei são abordados nos dez mandamentos. (4.7)

A lei que estrutura a realidade de vida estabelece a ordem da vida biológica e social. (4.7)

Na Antiga Aliança, a lei mosaica é vista como caminho de salvação. Ela dá ao Homem a possibilidade de evitar o pecado e, assim, de viver justificado perante Deus e de evitar o Seu Juízo. Em Jesus Cristo está definido o caminho para a salvação, a reconciliação total com Deus. O Novo Testamento deixa claro que a lei mosaica não é o caminho da salvação, mas apenas mostra o caminho para a salvação. (4.7.1)

A função da lei mosaica é dar instruções para agir de forma a agradar a Deus. A visão correta da lei dada por Deus obtém-se à luz do Evangelho. (4.7.2)

A lei evidencia o Homem como pecador e esclarece que é necessário obter a salvação plena através da remissão dos pecados. Assim sendo, sempre remeteu para Jesus Cristo. (4.7.3)

4.8 Lei e Evangelho Voltar ao topo

Na Antiga Aliança, cumprir à risca a lei mosaica e ocupar-se dos seus conteúdos eram aspetos extremamente importantes (vide 4.7.1).

O termo "Evangelho" vem do grego e significa "boa notícia" ou "boa nova". Contudo, o uso da língua helénica não é a única fonte para a interpretação neotestamentária do termo. O termo já é usado no Antigo Testamento, por exemplo em Isaías 61,1: «O ESPÍRITO do Senhor JEOVÁ está sobre mim; porque o senhor me ungiu, para pregar boas novas aos mansos» (cf. Lc 4,18).

No Novo Testamento, entende-se por "Evangelho" a salvação divina em Jesus Cristo, desde o seu nascimento até à sua crucificação, ressurreição e, por fim, à sua revinda. O apóstolo Paulo descreve conteúdos essenciais do Evangelho: «Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; e que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e que foi visto por Cefas, e depois pelos doze» (1Cor 15,3-5).

Ou seja, "Evangelho" exprime o ato salvífico de Jesus Cristo, que não pode ser relativizado, nem desvalorizado por nada. O Evangelho proclama que Jesus Cristo é o único caminho que leva à salvação.

A lei e o Evangelho estão em contradição conflituosa. Embora ambos manifestem a vontade salvífica de Deus, a lei mosaica está direcionada para o povo de Israel da época, enquanto o Evangelho tem validade universal.

Mas não é admissível comparar a lei exclusivamente com o Antigo Testamento e o Evangelho só com o Novo Testamento. Ambas as partes da Escritura Sagrada contêm tanto elementos da lei, como do Evangelho. A natureza da lei e do Evangelho no Antigo Testamento só chegam a ser inteligíveis à luz dos conhecimentos neotestamentários. O Evangelho, que abrange toda a Escritura Sagrada, é a "palavra da cruz" (1Cor 1,18) e a "palavra da reconciliação" (2Cor 5,19).

4.8.1 Lei de Cristo — a graça Voltar ao topo

Nas suas observações sobre a justiça, provenientes da fé, o Apóstolo Paulo cita passagens dos profetas veterotestamentários, nomeadamente Isaías 28,16 e Joel 3,5. Ele escreve: «Visto que, com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo» (Rm 10,10-13). Em relação ao Evangelho, o apóstolo sublinha a unicidade da Antiga e da Nova Aliança.

O reconhecimento do Novo Testamento, em como o Homem é pecador, tem, desde logo, a sua origem no Antigo Testamento: «Contra ti, contra ti somente, pequei, e fiz o que a teus olhos parece mal [...]. Eis que em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu minha mãe» (Sl 51,4.5). É praticamente impossível exprimir a situação do pecador de uma forma mais impiedosa do que esta; neste texto bíblico, não se encontram nem vestígios da suposta superioridade por parte dos justos, que vivem segundo a lei, relativamente aos ímpios. Quer dizer que já na época veterotestamentária existiam aqueles que reconheciam a sua necessidade de salvação.

Também em Isaías, nos capítulos 49 a 56, se antecipa a mensagem de graça do Evangelho. Por exemplo, em Isaías 53,4-6: «Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si. [...] O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. [...] mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.»

Tal como na Antiga Aliança havia já indicações referentes aos elementos do Evangelho, também a palavra da lei é parte inalienável do anúncio do Evangelho na Nova Aliança. Tanto os Evangelhos, como as epístolas dos apóstolos, evidenciam o empenho desenvolvido em questionar a lei em relação à sua nova interpretação.

Não se trata aqui de abolir a lei, mas antes de chegar ao seu verdadeiro significado, no sentido que o Evangelho de Jesus Cristo lhe deu originalmente: «Se Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão. Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei» (Rm 3,30.31).

Cristo é simultaneamente cumprimento e objetivo da lei; assim, também a visão da lei como sendo um caminho para a salvação chegou ao fim (Rm 10,4.5).

Enquanto na Antiga Aliança se supunha que a lei levaria à vida e à vitória sobre o pecado, o apóstolo Paulo deixa bem claro que a lei apenas conduz ao conhecimento do pecado: «Mas eu não conheci o pecado senão pela lei, porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás!» (Rm 7,7).

Enquanto a lei mosaica, por um lado, deve dar a conhecer ao Homem a sua condição de pecador, por outro, ensina-o a agir corretamente. Jesus Cristo resumiu a parte sempre válida e necessária da lei mosaica no mandamento do amor a Deus e do amor ao próximo (Mt 22,37-40).

Desta forma, a "Lei de Cristo" adota elementos importantes da lei mosaica, nomeadamente a exigência da prática do amor a Deus e ao próximo (Dt 6,5; Lv 19,18) e sublinha as funções fundamentais que estes têm. Neste contexto, evidenciam-se, mais uma vez, conflitos e confluências entre a lei e o Evangelho.

O piedoso da Antiga Aliança tinha a esperança de que o esforço por cumprir a lei mosaica resultaria na vitória sobre o pecado. No entanto, não foi possível alcançá-la. Apenas com a "Lei de Cristo" se torna realmente possível vencer o pecado.

O Homem indultado é justificado perante Deus. A justificação do pecador é a consequência do sacrifício de Cristo: «Pois, assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação, assim também, por um só acto de justiça, veio a graça sobre todos os homens, para justificação de vida» (Rm 5,18).

4.8.2 Relação entre fé e obra Voltar ao topo

O Homem é justificado pela fé em Jesus Cristo. Assim sendo, as obras que ele faz não contribuem em nada para a sua santificação e justificação: «Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei» (Rm 3,28).

No entanto, a fé e as obras não deixam de estar numa relação estreita, sendo impossível separá-las, pois as boas obras são a expressão de uma fé viva. Se faltarem, a fé está morta. Ou seja, a fé não é apenas uma postura interior, ela impulsiona o Homem a agir (Tg 2,15-17).

As boas obras têm a sua origem na fé, e são também a parte visível da fé que permite a leitura do grau de realidade da fé. A fé realiza-se, acima de tudo, no amor a Deus e na prática do amor ao próximo.

A fé e a obra, a justificação e a vida santificada andam sempre juntas e não se podem separar.

SÍNTESE Voltar ao topo

"Evangelho" significa "boa nova". No Novo Testamento, "Evangelho" designa o ato salvífico de Deus em Jesus Cristo. (4.8)

A lei e o Evangelho manifestam a vontade salvífica de Deus. A lei está direcionada para o povo de Israel, enquanto o Evangelho tem validade universal. (4.8)

Tal como na Antiga Aliança havia já indicações referentes aos elementos do Evangelho, também a palavra da lei é parte inalienável do anúncio do Evangelho na Nova Aliança. (4.8.1)

Jesus Cristo resumiu a parte sempre válida e necessária da lei mosaica no mandamento do amor a Deus e do amor ao próximo. Assim sendo, a "lei de Cristo" adota elementos importantes da lei mosaica. (4.8.1)

O Homem é justificado pela fé em Jesus Cristo. Assim sendo, as obras que ele faz não contribuem em nada para a sua santificação e justificação. Todavia, a fé e as obras, a justificação e uma maneira de viver santificada são inseparáveis. As boas obras têm a sua origem na fé e são a parte visível da fé. (4.8.2)