Katechismus

3 Deus Trino

Pai, Filho e Espírito Santo são o Deus uno. O facto de Deus ser, desde sempre, trino é confirmado pela automanifestação de Deus na história de salvação, que demonstra que o Pai, o Filho e o Espírito Santo existem, criam, atuam e sustentam desde o início.

Na Antiga Aliança era acima de tudo Deus, o Pai, quem se manifestava, enquanto a atuação do Filho e do Espírito Santo ainda era praticamente invisível ao Homem. Do ponto de vista do Novo Testamento, o apóstolo Paulo comentava que o Filho de Deus já teria estado presente na época da peregrinação do povo de Israel pelo deserto (1Cor 10,4). Em Mc 12,36 e em Heb 3,7 também é referido que o Espírito Santo já teria falado na Antiga Aliança.

A encarnação, a morte e a ressurreição do Filho de Deus, bem como o envio do Espírito Santo permitem reconhecer Deus como sendo uma trindade. Em Jo 16,13-15, Jesus Cristo descreve os efeitos da Trindade de Deus: o que pertence ao Filho também pertence ao Pai, e o que o Espírito Santo anuncia advém do Pai e do Filho.

O Deus Trino é um Deus da comunhão entre Pai, Filho e Espírito; é a esta comunhão que Ele quer dar acesso ao Homem.

3.1 Natureza de Deus Voltar ao topo

Nós, os seres humanos, não conseguimos abranger a natureza e a atuação de Deus com o nosso intelecto — o acesso a Deus, à Sua omnipotência e grandiosidade só se consegue obter através da . Jesus Cristo revelou Deus e fez com que as pessoas O pudessem vivenciar como o Pai amoroso, misericordioso e compassivo. Outras revelações de Deus são dadas pelo Espírito Santo, que leva os crentes às profundezas da divindade (1Cor 2,6-16).

As características da natureza de Deus são: Ele é Uno (único), Santo, Omnipotente, Eterno, Amoroso, Misericordioso, Justo, Perfeito. Deus não é desconhecido, nem está oculto; Ele aproxima-se das pessoas, fala com elas e dá-lhes a possibilidade de falarem com Ele.

A descrição das virtudes da natureza divina pretende exprimir a perfeição e o valor absoluto de Deus, mas para isso, perante a realidade de Deus, todos os conceitos derivados do mundo da experiência humana terão de ser postos de parte.

3.1.1 Um Deus em três pessoas Voltar ao topo

A trindade divina é um mistério. Na fórmula trinitária «Em nome de Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo» não se usa a forma do plural "em nome dos", mas antes o singular "em nome de": o Deus uno é trino. Nas palavras que Jesus dirigiu aos apóstolos, ele deu a reconhecer a Trindade de Deus; disse-lhes que deveriam batizar «em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28,19). Quando se fala de Deus "o Pai, o Filho e o Espírito Santo", não se quer dizer que sejam três Deuses diferentes, mas sim três pessoas (hipóstases), que são um só Deus.

3.1.2 Deus, o Uno Voltar ao topo

A crença num Deus uno faz parte das confissões fundamentais do Antigo e do Novo Testamento. Deus falou a Moisés da unanimidade e da lealdade para com Ele, a qual se manifesta no Seu nome: «Eu sou o que sou» (Ex 3,14). A profissão de fé da unicidade de Deus - «Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor» (Dt 6,4), - acompanhou o povo da Antiga Aliança em toda a sua história.

Embora já o primeiro mandamento expresse isso muito claramente: «Não terás outros deuses diante de mim» (Ex 20,3), Israel ainda tinha um longo caminho à sua frente até que a profissão de fé na unicidade de Deus excluísse todos os restantes deuses e a sua adoração; repetidas vezes, os profetas tiveram de repreender o povo por adorarem outros deuses. Em Isaías 45,21.22 encontramos as palavras de Deus: «e não há outro Deus, senão eu; Deus justo e Salvador não há, fora de mim. Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro.». Após terem saído do cativeiro dos babilónios, os Judeus adotaram de forma consciente a profissão de fé de um Deus uno (monoteísmo) como característica essencial que os distinguia dos pagãos. Até hoje, a de que nos fala o livro da Sabedoria continua a ser característica do judaísmo: «Não há fora de ti um Deus» (Sb 12,13*).

Este reconhecimento, ficou também enraizado na cristã, desde as antigas comunidades até aos dias de hoje. O apóstolo Paulo aceitou o monoteísmo sem qualquer restrição. Relativamente à adoração de vários deuses (politeísmo) das religiões gregas e romanas, ele escreveu: «... e que não há outro Deus, senão um só» (1Cor 8,4).

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

3.1.3 Deus, o Santo Voltar ao topo

No Antigo Testamento, Deus é chamado várias vezes de «o Santo» (Is 43,3; Jr 50,29; Hab 1,12). Santidade — isso significa majestade, imunidade, estar afastado do que é profano — faz parte da natureza de Deus, do Seu Ser e da Sua atuação. Isso é testemunhado em Apocalipse 4,8 com as palavras: «Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, que era, e que é, e que há-de vir» (cf. Is 6,3). A Sua palavra e a Sua vontade também são santas.

A proximidade de Deus, a presença do Santo, repetidamente vivenciada ao longo da história de salvação, exige temor a Ele. Que a proximidade de Deus é santa e que exige temor a Ele, é algo que Moisés experimentou quando viu a sarça ardente e ouviu a voz de Deus: «Não te chegues para cá; tira os teus sapatos dos teus pés; porque o lugar em que tu estás é terra santa!» (Ex 3,5). A santidade de Deus santifica o lugar onde Ele se revela.

Poder tomar parte na santidade de Deus é, ao mesmo tempo, dádiva e tarefa: «Santos sereis, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo» (Lv 19,2; cf. 1Pe 1,15.16). Assim, todos os crentes são exortados a ambicionar a santidade, que provém da santidade de Deus. Assim, o crente "santificará" o nome de Deus, tal como também o exprimimos na oração do Pai-Nosso: «santificado seja o teu nome» (Mt 6,9).

3.1.4 Deus, o Omnipotente Voltar ao topo

Com a profissão no primeiro artigo de «Creio em Deus, o Pai, o Todo-Poderoso, o Criador do céu e da terra» dá-se testemunho do seguinte: Deus consegue fazer tudo, para Ele nada é impossível, para Ele não existem limitações para concretizar a Sua vontade. O Salmo 135,6 expressa-o da seguinte forma: «Tudo o que o Senhor quis, Ele o fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos.»

A omnipotência de Deus também se torna evidente ao Homem na criação. Tudo foi criado do nada, unicamente através da Sua palavra (Heb 11,3). Deus estabelece com a Sua omnipotência o princípio e o fim: «Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há-de vir, o Todo-Poderoso» (Ap 1,8). Assim sendo, também a nova criação será uma forma de exprimir a omnipotência de Deus.

Jesus Cristo também falava da omnipotência de Deus: «porque para Deus todas as coisas são possíveis» (Mc 10,27); e também os anjos o confirmaram: «Porque, para Deus, nada é impossível» (Lc 1,37).

Da omnipotência de Deus fazem parte a omnisciência e a omnipresença. A omnisciência de Deus é descrita no Salmo 139,2-4: «Tu conheces o meu assentar e o meu levantar: de longe, entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Sem que haja uma palavra na minha língua, eis que, ó Senhor, tudo conheces.» No mesmo Salmo, também se faz menção da omnipresença de Deus: «Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer no Sheol a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua dextra me susterá» (versículos 8-10).

3.1.5 Deus, o Eterno Voltar ao topo

Deus, "o Eterno", não teve princípio nem terá fim. Limitações de tempo não existem para Ele. «Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra, e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, tu és Deus» (Sl 90,2). Deus é o Criador e o Senhor do tempo: ao contrário do mundo material, que está pendente do tempo, Deus manda no tempo de forma soberana: Ele tanto o pode oferecer como o pode tirar.

A eternidade de Deus ultrapassa os horizontes humanos. Ela é infinita, sem ser atemporal. Não obstante, para Deus, o passado, o presente e o futuro estão sempre presentes. Que Deus está acima de todas as dimensões temporais pode-se ver em 2Pe 3,8: «Mas, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia.»

3.1.6 Deus, o Amoroso Voltar ao topo

Tanto na Antiga como na Nova Aliança, Deus aparece como o Amoroso. Por amor elegeu o povo de Israel e libertou-o do cativeiro dos egípcios. No entanto, Deus não se manifestou apenas ao povo de Israel, no Seu ato histórico, como sendo o Deus do amor, Ele acaba por se manifestar como "o Amoroso" a toda a humanidade, em Jesus Cristo: porque Deus amou o mundo de tal maneira, «que deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3,16).

Deus não se dedica apenas com amor ao mundo, mas antes «Deus é amor» (1Jo 4,16).

3.1.7 Deus, o Justo e o Misericordioso Voltar ao topo

Deus é o misericordioso. A Sua graça é parte da Sua justiça. Ele concede graça, misericórdia, paciência e bondade (Sl 103,8). Deus concede graça ao Seu povo, segundo a Sua justiça, mesmo quando o povo sai do caminho ou desrespeita a aliança: «Em grande ira, escondi a minha face de ti, por um momento; mas com benignidade eterna me compadecerei de ti, diz o Senhor, o teu Redentor» (Is 54,8).

A prova de como Deus é misericordioso encontra-se na Nova Aliança, quando Ele se dedica e perdoa aos que tendem para o pecado. O apóstolo Paulo dá testemunho de que Deus estava em Cristo e que reconciliou o mundo consigo (2Cor 5,19). Por graça, Deus concede justiça aos injustos; o pecador recebe o perdão, o sedento de salvação recebe salvação, ou seja redenção.

Deus é justo: «Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos juízo são: Deus é a verdade, e não há nele injustiça; justo e recto é» (Dt 32,4). Afirmações como «o salário do pecado é a morte» (Rm 6,23) ou «Senhor Deus, Todo-Poderoso, verdadeiros e justos são os teus juízos» (Ap 16,7) mostram claramente a Sua justiça. É ele que, na Nova Aliança, oferece justiça imerecida ao pecador através de Jesus Cristo (Rm 3,24-26; 5-18).

3.1.8 Deus, o Perfeito Voltar ao topo

Deus é perfeito. Ele não precisa de qualquer melhoramento, qualquer modificação ou qualquer aperfeiçoamento. Ele é o Incorruptível e o Liberto de todos os condicionalismos e obrigações. Os Seus atos não são fundamentados em qualquer tipo de necessidade externa, mas apenas na Sua vontade absolutamente soberana.

Perante Moisés, Deus deu-se a conhecer como sendo o completamente Idêntico e Perfeito: «Eu sou o que sou» (Ex 3,14).

A perfeição e a bondade de Deus estão estreitamente correlacionadas: tudo o que acontece em Deus, tudo o que parte d'Ele ou é criado por Ele, é perfeito e bom. A perfeição de Deus também se evidencia no facto de não existir qualquer diferença entre vontade e ato, nem, entre intenção e realização. Em Deus também não se encontra qualquer tipo de fracasso ou algo que em si seja imperfeito. A criação participa da perfeição e bondade de Deus, sendo, por isso, que Deus se refere à Sua criação dizendo «e eis que era muito bom» (Gn 1,31).

A perfeição de Deus também inclui a verdade. Em Deus não existe mentira, engano nem insegurança. «A tua palavra é a verdade» (Sl 119,160). A palavra divina é fiável, Deus assume as Suas promessas e é fiel.

A verdade de Deus interage com a sabedoria. Deus rege e preenche toda a criação com ela: «Ela estende-se com vigor de uma extremidade à outra e tudo governa com bondade» (Sb 8,1*).

A perfeição de Deus torna-se diretamente experienciável em Jesus Cristo, o «autor e consumador da » (Heb 12,2), porque Ele é perfeito no que diz e faz. Jesus Cristo é o exemplo e o professor para a perfeição que o Homem deve ansiar alcançar (Fl 2,5).

O "prosseguir para o alvo", o "prémio da soberana vocação de Deus" (Fl 3,12-16) — isto é, a perfeição —, tem uma natureza escatológica. A perfeição pode muito bem ser ansiada pelo Homem pecaminoso, mas ele nunca a conseguirá alcançar pelos seus próprios meios. Através da aceitação, no dia da revinda de Cristo, e da participação na nova criação é que Deus, por fim, oferece ao Homem uma parte abrangente da Sua perfeição.

SÍNTESE Voltar ao topo

O Pai, o Filho e o Espírito Santo são o Deus uno, que existe, cria e sustenta desde sempre. (3)

O ser humano não consegue abranger a natureza e a atuação de Deus por meio do seu intelecto, o acesso a Deus só se consegue obter através da . (3.1)

O Deus uno é trino: Pai, Filho e Espírito Santo. Não se trata de três Deuses, mas antes de três pessoas (hipóstases). (3.1.1)

A num único Deus (monoteísmo) faz parte das profissões de fundamentais do Antigo e Novo Testamento e até ao presente está ancorada na cristã das comunidades apostólicas mais antigas. (3.1.2)

Santidade — majestade, imunidade, estar afastado do que é profano — faz parte da natureza de Deus, do Seu Ser e da Sua atuação. A Sua palavra e a Sua vontade também são santas. (3.1.3)

Deus consegue tudo, para Ele nada é impossível. Da Sua omnipotência fazem parte a omnisciência e a omnipresença. (3.1.4)

Deus não tem princípio nem fim. A eternidade de Deus é infinita, sem ser atemporal. Ele é o Criador do tempo e, como tal, está acima de todas as dimensões temporais. Para Ele, o passado, o presente e o futuro estão sempre presentes. (3.1.5)

Deus é o amor (1Jo 4,16). No contexto histórico, Ele também surge sempre como aquele que pratica o amor. A prova mais evidente é quando oferece o Seu Filho a toda a humanidade. (3.1.6)

Deus é o Misericordioso e o Justo. A Sua graça também se evidencia no facto de Ele perdoar pecados. Ele oferece ao pecador justiça através de Jesus Cristo. (3.1.7)

Deus é o Perfeito. As Suas obras e os Seus caminhos não têm qualquer defeito. Os Seus atos acontecem simples e unicamente com base na Sua vontade soberana. Deus cumpre o que promete e é fiel. A perfeição de Deus torna-se diretamente percetível em Jesus Cristo. (3.1.8)

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

3.2 Deus - Pai, Filho e Espírito Santo Voltar ao topo

Deus automanifestou-se como Pai, como Filho e como Espírito Santo. É assim que Deus se torna reconhecível como trino. Esta automanifestação de Deus forma a base da doutrina trinitária. A atuação de Deus na história e na criação ocorre sempre na função de Pai, de Filho e de Espírito Santo. Deus manifesta-se como Criador, como Redentor e Reconciliador e como Recriador. Na vida de Jesus — aquando do Seu batismo, da Sua transfiguração, crucificação, ressurreição e ascensão — bem como aquando do derramamento do Espírito Santo, no Pentecostes, Deus manifestou a Sua natureza trina: Ele é Pai, Filho e Espírito Santo.

O segredo da Trindade de Deus é abordado de diversas formas no Antigo e Novo Testamento. Contudo, não se encontra o termo em toda a Escritura Sagrada, nem uma menção de uma doutrina trinitária. Ela foi reconhecida e formulada nos primórdios da Igreja com base nos testemunhos bíblicos.

3.2.1 Indicações referentes ao Deus Trino no Antigo Testamento Voltar ao topo

Uma primeira indicação referente à atuação do Deus Trino encontra-se no primeiro relato sobre a criação (Gn 1,1-31; 2,1-4). do qual consta: «e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas» (Gn 1,2) e também: «E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme à nossa semelhança» (Gn 1,26). A designação de Deus «Eloim», usada no texto hebraico, tem a forma de plural e significa "o divino", e também "deuses", e deve ser interpretada, à luz do Evangelho, como indicativo do Deus Trino.

As diversas manifestações divinas como «anjo do Senhor» (Gn 16,7-11.13; Ex 3,2-5; Jz 6,11-16), «Espírito de Deus» ou «Espírito do Senhor» (Jz 3,10; 1Sm 16,13) são vistas como alusões ao segredo da Trindade de Deus. Esta afirmação é corroborada por outros acontecimentos e indicações que envolvem o número trino:

  • na tradição cristã, os três varões, mensageiros de Deus, que foram ter com Abraão (Gn 18), são vistos como alusão ao segredo da trindade divina.

  • A mesma interpretação se aplica à atuação do Deus Trino na bênção sacerdotal (araónica) em Nm 6,24-26: «O Senhor te abençoe e te guarde; O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; O Senhor sobre ti levante o seu rosto, e te dê a paz

  • A tríplice glorificação do anjo, na visão de vocação do profeta Isaías, também é considerada como sendo um indicador da Trindade de Deus: «Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos: toda a terra está cheia da sua glória» (Is 6,3).

3.2.2 Indicações referentes ao Deus Trino no Novo Testamento Voltar ao topo

Embora também não se encontre uma formulação mais concreta sobre a doutrina trinitária no Novo Testamento, nele estão retratados acontecimentos e formulações que evidenciam a trindade divina no seu efeito histórico-salvífico. Um exemplo da presença do Deus Trino encontra-se logo no início da atuação de Jesus, quando, no momento do Seu batismo, o Pai e o Espírito Santo dão testemunho do envio do Filho de Deus encarnado: «E, logo que saiu da água, viu os céus abertos, e o Espírito, que, como pomba, descia sobre ele. E ouviu-se uma voz dos céus, que dizia: Tu és o meu Filho amado, em quem me comprazo» (Mc 1,10.11). Este trecho bíblico mostra que o Filho de Deus opera em unicidade com o Pai e o Espírito Santo.

Pai, Filho e Espírito Santo também são referidos na Grande Comissão, na parte que se refere ao batismo, que Jesus Cristo deu aos Seus apóstolos antes de ascender ao céu (Mt 28,18.19).

Indicações relativas à unicidade das pessoas divinas encontram-se no Evangelho de João, quando se fala da unicidade do Filho com o Pai, e dizendo Jesus Cristo: «Eu e o Pai somos um» (Jo 10,30, cf. Jo 1,1.18). A promessa do Espírito Santo também remete para a Trindade de Deus (Jo 16,13-15).

Nas epístolas do Novo Testamento existem mais sinais indicadores da Trindade de Deus. Encontram-se na glorificação de Deus ou ainda nas fórmulas de bênção. Por exemplo, em 1Cor 12,4-6: "Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo, em todos.» Este texto bíblico tanto aborda a unicidade de Deus, como também as diversas automanifestações pessoais. O texto bíblico em Efésios 4,4-6 também comprova que a atuação de Deus contém sinais indicadores da Sua natureza trinitária: «Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só , um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos.» Em 1Pe 1,2 fala-se dos atos salvíficos do Deus Trino: «Eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo [...]».

Uma indicação inequívoca da Trindade de Deus está contida na fórmula de bênção no final da segunda epístola aos Coríntios: «A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo, seja com vós todos!» (2Cor 13,13).

3.2.3 Desenvolvimento da doutrina trinitária Voltar ao topo

A identificação da Trindade de Deus e a sua integração em afirmações doutrinais começaram pouco depois de serem redigidas as escrituras neotestamentárias. Para conseguir expressar linguisticamente estas correlações foram usados termos filosóficos antigos como "pessoa" ou "hipóstase" e "substância". Por um lado, a formulação de uma doutrina trinitária destinava-se a verbalizar o conhecimento adquirido através da ; por outro lado, a intenção consistia em proteger a de doutrinas falsas, que procuravam transmitir uma imagem de Deus não consentânea com o testemunho neotestamentário. A doutrina trinitária de Deus foi formulada na sua redação final nos primeiros concílios realizados nos séculos IV e V.

O termo "Trindade" foi definido por Teófilo de Antioquia, na segunda metade do século II, mas foi o doutor da igreja Tertuliano (160 a 220 d.C.) quem o tornou popular. Tertuliano dava ênfase à unicidade de Deus — "uma substância [divina] [em] três pessoas" (latim: "una substantia tres personae") — e foi o primeiro a associar o termo "pessoa" ao conceito Pai, Filho e Espírito Santo.

No Concílio de Niceia (325 d.C.), definiu-se expressamente a unidade de natureza entre o Pai e o Filho. O que deu origem a este desenvolvimento foi a doutrina de Arius (falecido em 336 d.C.), que afirmava que o Filho pré-existente teria sido criado pelo Pai a partir do nada, ou seja, que teria sido a primeira obra de criação de Deus. Em contrapartida, o Concílio insistiu que o Filho não seria uma criatura, mas que, desde toda a eternidade, era parte da trindade divina.

Esta controvérsia, conhecida como "A Controvérsia Ariana", não terminou com o Concílio de Niceia, tendo-se prolongado até ao Concílio de Constantinopla (381 d.C.). Neste concílio ficou definido que o Espírito Santo tanto é pessoa e Deus verdadeiro como é o Pai e o Filho.

Nos anos subsequentes, salvo raras exceções, a doutrina trinitária passou a ser reconhecida globalmente dentro da cristandade. No entanto, as reflexões sobre a doutrina trinitária ainda não estavam concluídas. Foi, particularmente, graças à intervenção do doutor da Igreja Agostinho (354 até 430 d.C.) que, mais tarde, se começou a afirmar, na Igreja Ocidental, que o Espírito Santo provinha em partes iguais do Pai e do Filho. Em oposição, a Igreja Oriental continuava a insistir numa versão mais antiga do Credo Niceno-Constantinopolitano, que asseverava que o Espírito Santo provinha do Pai, através do Filho.

Os reformistas adotaram a crença na Trindade de Deus da Igreja ancestral (séculos II a VI). A doutrina da Trindade é algo que todas as Igrejas cristãs têm em comum, exceto no que se refere à divergência interpretativa sobre o Espírito Santo. É uma das afirmações fundamentais da cristã e é uma caraterística essencial de diferenciação das outras religiões abraâmicas, o judaísmo e o islamismo.

No décimo primeiro sínodo de Toledo (675 d.C.) foi anunciado: «O Pai é aquilo mesmo que o Filho, o Filho aquilo mesmo que o Pai, o Pai e o Filho, aquilo mesmo que o Espírito Santo, ou seja, um único Deus por natureza.»

3.2.4 Unicidade das três pessoas divinas Voltar ao topo

Os cristãos confessam o único Deus Trino. Cada uma das pessoas divinas — Pai, Filho e Espírito Santo — é o verdadeiro Deus. A cristã diz que Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, sempre existiu, ou seja, desde toda a eternidade.

Por conseguinte, "Pai", "Filho" e "Espírito Santo" não são meros nomes usados para designar as diversas formas de existência ou de manifestação de Deus, antes sendo três nomes para designar cada uma das três pessoas divinas que se distinguem na sua natureza. Na realidade, o Pai não é o mesmo que o Filho, e o Filho não é o mesmo que o Pai; o Espírito Santo não o mesmo que o Pai e o Filho. Pois é o Pai que gera, o Filho que é gerado, o Espírito Santo que procede de ambos.

As três pessoas divinas estão sempre interrelacionadas e são coeternas. A diversidade das três pessoas divinas não separa a unicidade de Deus, pois elas são uma só natureza ou substância. Nelas não existe qualquer oposição de vontades. O Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo, todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho.

Os cristãos confessam que todos os atos de Deus na criação, na redenção e na nova criação são atos do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Embora todos os atos divinos sejam, simultaneamente, atos do Pai, do Filho e do Espírito Santo, nem sempre o são da mesma forma. Embora a criação seja obra de Deus, o Pai, e de Deus, o Filho, não foi Deus, o Pai, ou Deus, o Espírito Santo, que encarnou e se tornou Homem, mas unicamente Deus, o Filho. Não foi o Pai nem o Filho que foi derramado, mas unicamente o Espírito Santo. Na tradição cristã, a cada uma das três pessoas divinas é associado um aspeto principal ("apropriação"): Deus, o Pai, é Criador, o Filho é Redentor e o Espírito Santo é Recriador.

SÍNTESE Voltar ao topo

A atuação de Deus na criação e na história é a atuação do Pai, do Filho e do Espírito Santo. (3.2)

Já o primeiro relatório sobre a criação contém indicações que remetem para a Trindade de Deus, como os três varões enviados por Deus a Abraão, a tríplice bênção sacerdotal e a tríplice glorificação do anjo na visão de vocação do profeta Isaías. (3.2.1)

Um exemplo da presença do Deus Trino encontra-se no batismo de Jesus, quando o Pai e o Espírito Santo dão testemunho do envio do Filho. Pai, Filho e Espírito Santo também são mencionados na Grande Comissão de Jesus, bem como na fórmula de bênção na 2ª aos Coríntios 13,13. (3.2.2)

A doutrina trinitária de Deus foi formulada nos concílios realizados nos séculos IV e V. No Concílio de Niceia (325), a unidade de natureza entre o Pai e o Filho tornou-se doutrina vinculativa. A unidade de natureza entre o Espírito Santo e o Pai e o Filho foi acordada no Concílio de Constantinopla (381). (3.2.3)

No Seu ser, "Pai", "Filho" e "Espírito Santo" são pessoas divinas distintas, estão sempre interrelacionadas e são coeternas. (3.2.4)

Na tradição cristã, a cada uma das três pessoas divinas é associado um aspeto principal: Deus, o Pai, é Criador, Deus, o Filho, é Redentor, Deus, o Espírito Santo, é Recriador. (3.2.4)

3.3 Deus, o Pai Voltar ao topo

Deus manifesta-se como Pai de uma forma insuperável na encarnação de Deus, o Filho: «E o verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade. [...] Deus nunca foi visto por alguém; o Filho unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, esse o fez conhecer» (Jo 1,14.18). Desde toda a eternidade, Deus, o Pai, faz conhecer o Seu Filho Unigénito (o que significa: o Seu Filho único, vide 3.4.1). Este segredo só se desvenda àquele ao qual o Filho o revelar: «[...] e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar» (Mt 11,27).

Quando o crente usa o termo "Pai", em relação a Deus, estão sempre associados os aspetos da criação, da autoridade e do cuidado paternal. Deus é o autor e o sustentador de tudo o que criou. Por isso mesmo, qualquer pessoa se pode dirigir a Deus, enquanto seu Criador, chamando-O de Pai.

Na época veterotestamentária, Deus manifestava-se como Pai amoroso e zeloso em relação ao povo de Israel. Ele disse a Moisés: «Então dirás ao Faraó: Assim diz o Senhor: Israel é meu filho, meu primogénito. E eu te tinha dito: Deixa ir o meu filho, para que me sirva» (Ex 4,22.23). O povo de Israel designa Deus como «Pai» (Dt 32,6; Jr 31,9). Quando Jesus falou aos judeus, no sermão da montanha, Ele também designou Deus como sendo Pai deles (Mt 5,16 e outros). Ele exortou-os a se dirigirem a Deus com as palavras: «Pai nosso, que estás nos céus» (Mt 6,9).

Jesus Cristo abriu caminho ao Homem, para que se pudesse tornar filho e, por conseguinte, co-herdeiro do Altíssimo, através da regeneração por água e espírito (Ef 1,5; Tt 3,5-7; Rm 8,14-17). Assim, os termos "Pai" e "Filho" alcançaram uma nova dimensão. Em 1Jo 3,1*, fala-se do amor de Deus como sendo o motivo pelo qual o regenerado pode ter a certeza da sua relação de filiação com Deus: «Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus; e, realmente, o somos!»

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

3.3.1 Deus, o Criador Voltar ao topo

«No princípio, criou Deus os céus e a terra» (Gn 1,1). Esta afirmação retirada do primeiro versículo da Escritura Sagrada exprime uma verdade básica que é referida no primeiro artigo de . Deus criou os mundos celestiais, bem como o espaço, e deu à Terra o seu lugar no universo: foi aqui que Deus se encarnou.

Tudo o que existe tem a sua origem na atuação criadora de Deus. Por um lado, Deus criou do nada («creatio ex nihilo») e sem qualquer precedente, ou seja, totalmente livre: «Deus [...] chama as coisas que não são como se já fossem» (Rm 4,17; cf. Heb 11,3). Por outro, formou objetos e seres vivos a partir da matéria por Ele criada (Gn 2,7.8.19). Toda a criação está subjugada a Ele.

A criação e a sua ordem dão testemunho da sabedoria de Deus, cuja dimensão é inconcebível para o Homem. É com admiração que o salmista exclama: «Ó Senhor, como são grandes as tuas obras. Todas elas dão fruto da tua sabedoria! A terra está cheia das tuas criaturas!» (Sl 104,24*).

No Novo Testamento evidencia-se que Deus criou tudo através do Seu Filho. Isso torna-se especialmente notório no início do Evangelho de João: «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez» (Jo 1,1-3; cf. Cl 1,16; Heb 1,2; vide 3.4.2).

Tal como o Pai e o Filho, o Espírito Santo também é Criador. É o que se percebe deste texto bíblico: «Façamos o homem à nossa imagem, conforme à nossa semelhança» (Gn 1,26).

O Deus Trino criou o mundo material através da Sua palavra, é Ele quem preserva a sua existência e o orienta. Assim sendo, a criação não contém apenas o segredo da origem e do início, mas também o da continuação e do futuro. Em tudo se reconhece o constante cuidado paternal do Criador: «Tu amas tudo quanto existe e não detestas nada do que fizeste; pois, se odiasses alguma coisa, não a terias criado. E como subsistiria uma coisa, se Tu a não quisesses? Ou como se conservaria, se não tivesse sido chamada por ti? Mas Tu poupas a todos, porque todos são teus, ó Senhor, que amas a vida! O teu espírito incorruptível está em todas as coisas!» (Sb 11,24-12,1).

SÍNTESE Voltar ao topo

Deus manifesta-se como Pai de uma forma insuperável na encarnação de Deus, o Filho. (3.3)

Quando se usa o termo "Pai", em relação a Deus, estão sempre associados os aspetos da criação, da autoridade e do cuidado paternal. (3.3)

Através da Sua palavra, Deus criou tudo o que existe. Por um lado, Deus criou tudo a partir do nada e sem ter modelos a seguir. Por outro, formou objetos e seres vivos a partir da matéria por Ele criada. Toda a criação está subjugada a Ele. É Ele que mantém e dirige a criação. (3.3.1)

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

3.3.1.1 A criação invisível Voltar ao topo

A Escritura Sagrada dá imensos testemunhos de um mundo invisível: áreas, processos, estados e seres. É criado por Deus e é designado por "criação invisível". Por vezes, também se usa o termo "além" para descrever este mundo, o que sublinha que a criação invisível está para além dos limites daquilo que é percetível para o Homem. Os seus segredos são indesvendáveis pela investigação humana, tal como o próprio Deus o é. No entanto, através de manifestações divinas, o Homem pode, por vezes, vislumbrar partes da criação invisível.

É praticamente impossível descrever o mundo invisível com termos humanos, pois todos estes estão relacionados com o mundo da experienciabilidade humana (o visível). No entanto, a Escritura Sagrada usa este tipo de terminologia para fazer afirmações sobre o que é invisível numa linguagem simbólica, recorrendo a metáforas.

Do relato bíblico consta o seguinte: fazem parte da criação invisível o reino, no qual trona Deus (Ap 4 e 5), os anjos (vide 3.3.1.1.1), a alma imortal do Homem (vide 3.3.4) e o reino dos mortos (vide 9). O diabo, oponente de Deus e inimigo do Homem, bem como todo o seu séquito, também fazem parte do mundo invisível, embora não tenham sido criados como criaturas malignas (vide 4.1 e 4.1.2).

3.3.1.1.1 Os anjos Voltar ao topo

O termo "anjo" é a tradução do termo hebraico "malak" ou do termo grego "angelos". Ambos os termos são usados, por vezes, nos respetivos textos, hebraicos ou gregos, da Escritura Sagrada no sentido mais genérico de "mensageiro, enviado", embora na maioria dos casos no sentido de mensageiros celestiais de Deus [4].

A função dos anjos consiste em adorar Deus, cumprir as Suas ordens e, assim, servi-Lo. Segundo a vontade de Deus, em casos isolados os anjos podem tornar-se visíveis. A Escritura Sagrada relata que os anjos levavam mensagens aos homens, a mandado de Deus. Existem muitas indicações de que os anjos também serviam ao Homem, oferecendo-lhes ajuda ou proteção a mandado de Deus. Sendo, «todos eles, espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão-de herdar a salvação» (Heb 1,14). Mateus 18,10 indica que se associam anjos às crianças, que estão constantemente a ver a face de Deus, o Pai.

Os serviços prestados aos homens por anjos estão sempre fundamentados na vontade de Deus. Por isso, o agradecimento ou a adoração não cabe aos anjos, mas unicamente a Deus: «Eu sou Rafael, um dos sete anjos que apresentam as orações dos justos e têm lugar diante da majestade do Senhor. [...] Quando eu estava convosco, não era por minha própria iniciativa, mas pela vontade de Deus; e por isso deveis louvá-lo sempre» (Tb 12,15.18*]).

A formulação «multidão dos exércitos celestiais» em Lucas 2,13 dá uma certa ideia do grande número de anjos; bem como a indicação de Jesus, em Mateus 26,53, em como o Seu Pai lhe enviaria mais de doze legiões de anjos. Os anjos são descritos como «magníficos em poder» (Sl 103,20) e seres sagrados e majestosos. Também podem causar medo e aterrorizar o Homem (Lc 1,11.12.29; 2,9.10).

Além disso, a Escritura Sagrada também fala dos querubins que, depois da queda do Homem, guardam o caminho até à árvore da vida (Gn 3,24), e dos serafins que o profeta Isaías viu numa visão, servindo junto ao trono de Deus (Is 6,2-7).

As descrições bíblicas permitem deduzir que haverá certas hierarquias no mundo dos anjos: fala-se de príncipes ou do arcanjo Miguel, o grande príncipe (Dn 10,13; 12,1; Jd 9) bem como de Gabriel e Rafael, que assistem diante de Deus (Lc 1,19; Tb 12,15*) e, por conseguinte, parecem ter uma posição mais destacada. A Escritura Sagrada não fornece informações exatas sobre ordens existentes no mundo dos anjos.

O amor de Deus para com o Homem evidencia-se, entre outras formas, pelo facto de Ele também deixar os anjos servir o Homem.

[4] Um exemplo de que na Escritura Sagrada também se encontram referências a seres humanos que são designados de "anjos" consta dos capítulos 2 e 3 do Apocalipse. Aqueles que nestes capítulos são designados de "anjos das igrejas" são os dirigentes das respetivas comunidades.

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

3.3.1.1.2 Significado do que é invisível para a vida do Homem Voltar ao topo

A crença de que a alma e o espírito continuam a existir eternamente no além, após a morte natural, é extremamente importante para o Homem (1Pe 3,19; 1Cor 15). A postura que o Homem assume na Terra para com Deus, tem repercussões sobre a sua existência no além. Este reconhecimento pode contribuir para resistir às tentações do diabo e levar uma vida agradável aos olhos de Deus.

Neste sentido, é útil ocupar-se do além, do que é invisível. Mas a ocupação com o invisível na forma de invocação de espíritos ou sessões mediúnicas não está em conformidade com a vontade de Deus (Dt 18,10.11; 1Sm 28).

O apóstolo Paulo exprime o que o invisível tem de particular: «Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz, para nós, um peso eterno de glória mui excelente; não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas» (2Cor 4,17.18).

SÍNTESE Voltar ao topo

Um mundo invisível (criação invisível, além) é mencionado com frequência na Escritura Sagrada. Dele fazem parte o reino no qual Deus está no trono, os anjos, a alma imortal do Homem, bem como o reino da morte. E o diabo e o seu séquito também fazem parte do mundo invisível. (3.3.1.1)

O termo "anjos" define, acima de tudo, mensageiros celestiais de Deus, cuja função consiste em adorar a Deus e a servi-Lo. Segundo a ilustração bíblica, no mundo dos anjos existem hierarquias, nomeadamente "príncipes" ou "arcanjos". A Escritura Sagrada não fornece informações exatas sobre ordens existentes no mundo dos anjos. (3.3.1.1.1)

No mundo invisível, a alma e o espírito do Homem perduram eternamente. Este reconhecimento pode contribuir para resistir a tentações e levar uma vida agradável aos olhos de Deus. (3.3.1.1.2)

3.3.1.2 A criação visível Voltar ao topo

A Escritura Sagrada dá testemunho de que Deus criou o mundo visível em seis "dias de criação". Estes dias representam períodos de duração indefinida. A Bíblia relata como aquilo que é percetível para o Homem foi chamado à existência: Deus é o autor de toda a realidade experienciável. Bastou a Sua palavra para criar o céu e a Terra, a luz, a forma da Terra, do sol, da lua e das estrelas, as plantas e os animais, bem como o Homem — e tudo era muito bom (Gn 1,31).

Embora a criação tenha sofrido as consequências do pecado original, a avaliação globalmente positiva de Deus prevalece. Isso evidencia-se também pelos cuidados que Ele dedica à ordem que instituiu para a Sua criação (Gn 8,22). Assim sendo, a criação visível — mesmo no seu estado pecaminoso — dá testemunho de Deus, o Criador (Rm 1,20). Pela encarnação, Deus também entra na criação material.

Deus atribuiu ao Homem o seu habitat e incumbiu-o de dominar e preservar a Terra (Gn 1,2-30; Sl 8,6). No que concerne à criação, o Homem é responsável perante Deus, o Criador. Cabe-lhe tratar de toda a forma de vida e do habitat com estima.

3.3.2 O Homem à imagem e semelhança de Deus Voltar ao topo

De entre todas as criaturas, Deus deu ao Homem uma posição de destaque e colocou-o numa relação estreita Consigo próprio: «E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme à nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou» (Gn 1,26.27).

O que caracteriza o Homem neste contexto, é que ele tanto está relacionado com a criação visível como com a invisível, porque, decorrente do ato divino, ele tem uma natureza material e uma natureza imaterial: «E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida: e o homem foi feito alma vivente» (Gn 2,7). Deus concede à Sua mais nobre criatura força vital e também lhe dá parte das características da natureza divina, como sendo o amor, a personalidade, a liberdade, o intelecto, a imortalidade. Deus dá ao Homem a capacidade de reconhecer o Criador, de o amar e de o louvar. Deste ponto de vista, o Homem está direcionado para Deus, apesar de nem sempre reconhecer o verdadeiro Deus, colocando algo diferente no Seu lugar.

Visto que foi Deus quem deu ao Homem as naturezas física e espiritual, ambas recebem uma determinada dignidade que exige respeito.

A "semelhança" com Deus significa que o Homem detém uma posição de destaque entre a criação visível: ele é aquele que é abordado e amado por Deus.

Além disso, a semelhança do Homem com Deus também indica que Deus encarnou, se tornou Homem em Jesus Cristo, à «imagem do Deus invisível» (Cl 1,15). Jesus Cristo é o segundo Adão, o "segundo homem" (1Cor 15,45.47), no qual se torna visível a semelhança com Deus na sua globalidade.

No entanto, o facto de o Homem ter sido criado à imagem e semelhança de Deus não implica que, partindo da pessoa que o Homem é, se possam tirar ilações em relação à natureza de Deus — isso só se verifica exclusivamente em Jesus Cristo.

Deus criou o Homem como um ser capaz de falar. Outro ponto que está relacionado com a similitude a Deus. Deus é um ser falante desde toda a eternidade. Ele fez tudo através da palavra e chamou o Homem pelo seu nome. Ao ouvir a alocução divina, o Homem adquire consciência de si próprio como pessoa — o "tu" de Deus torna o Homem no "eu". Ele tem capacidade de louvar Deus, de comunicar com Ele em oração e de escutar a palavra de Deus.

Também o livre arbítrio deriva do facto de o Homem ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. Esta liberdade que lhe foi concedida implicou, por seu turno, que o Homem passasse, simultaneamente, a ser responsabilizado pelos seus atos. Ele sofrerá as consequências dos seus atos (Gn 2,16.17).

Homem e mulher são ambos feitos à imagem e semelhança de Deus, o que significa que, na sua natureza, são iguais. Não foram criados apenas juntos; antes foram criados um para o outro e ambos têm a mesma missão: "dominar" a Terra, ou seja moldá-la e preservá-la. No entanto, estes poderes outorgados ao Homem não lhe conferem o direito de lidar arbitrariamente com a criação. Antes pelo contrário, sendo semelhante a Deus, tem a obrigação de lidar com a criação de forma consentânea com a natureza divina: com sabedoria, bondade e amor.

SÍNTESE Voltar ao topo

Deus, o autor de toda a realidade experienciável, atribuiu ao Homem o seu habitat e deu-lhe a missão de dominar a Terra e de a preservar. Cabe ao Homem tratar de toda a forma de vida e do habitat com estima. (3.3.1.2)

Deus criou o Homem à Sua imagem, o Homem tanto está relacionado com a criação visível como com a invisível. Deus concede ao Homem força vital ("fôlego") e também lhe dá parte das características da natureza divina. (3.3.2)

A "semelhança" com Deus significa que o Homem detém uma posição de destaque entre a criação visível: ele é aquele que é abordado e amado por Deus. Ambos, homem e mulher são semelhantes à imagem de Deus. (3.3.2)

3.3.3 A queda do Homem Voltar ao topo

Depois de o criar, Deus concedeu ao Homem o acesso direto a Si próprio. Através do mandamento que lhe deu, de não comer da árvore da ciência do bem e do mal, Ele evidencia-se ao Homem como Senhor e Legislador que espera dele obediência.

Por influência do mal, o Homem cai em tentação e não lhe consegue resistir, transgredindo o mandamento decretado por Deus: é o momento em que o pecado entra na existência do Homem; associado ao pecado está a separação de Deus, a morte espiritual. O Homem apercebe-se disso através da sua nudez, da qual agora se envergonha (Gn 3,7-10). A vergonha é uma prova de que a confiança original do Homem no seu Criador está destruída. A desobediência do Homem leva a que Deus o exclua da comunhão que tinha com ele até àquele momento.

Esta separação faz com que, de então em diante, o Homem tenha de levar uma vida atribulada na Terra; uma existência que termina com a morte do corpo (Gn 3,16-19). O Homem não consegue, por si só, anular a separação face a Deus.

Desde a sua queda que o Homem é pecaminoso, isto é, envolvido no pecado e, como tal, incapaz de viver sem pecado. Sobressaltado por dores e preocupações, vive num mundo sobre o qual paira a maldição de Deus. A sua vida passa a ser caracterizada pelo medo da morte (vide 4.2.1).

Tudo isto significa que a liberdade original do Homem ficou drasticamente limitada: embora, de então em diante, o Homem pudesse esforçar-se por levar uma vida em conformidade com a vontade de Deus, ele iria falhar sempre de novo, fruto do poder exercido pelo mal sobre ele. Assim sendo, terá de passar o resto da sua vida como "servo", ou seja, sem ser livre e estando ligado pelo pecado.

Mas mesmo sendo pecador, o Homem não fica sem consolação e amparo por parte de Deus, que não o abandona na morte. Na presença do Homem, Deus dirige as seguintes palavras à serpente: «E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente: esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar» (Gn 3,15) — uma primeira indicação referente ao sacrifício de Jesus, através do qual o Senhor vence o Mal.

3.3.4 O Homem como unidade composta por corpo, alma e espírito Voltar ao topo

Deus criou o Homem como ser físico e espiritual, composto por espírito e alma. O corpo do Homem é mortal, enquanto o espírito e a alma são imortais (vide 9.1).

O corpo é gerado através da procriação, tomando, assim, parte na natureza e no aspeto dos seus pais. Mas a alma não se deve ao ato de procriação humana, mas antes à criação direta por Deus. É nela que se evidencia a natureza criadora atual de Deus.

Na Bíblia, o espírito e a alma não são diferenciados claramente [5]. O espírito e a alma concedem ao Homem a capacidade de participar no mundo espiritual, de reconhecer Deus e de estabelecer uma ligação com Ele.

O espírito, a alma e o corpo não podem ser entendidos como sendo independentes uns dos outros, antes estando correlacionados, interpenetrando-se e influenciando-se mutuamente, porque o Homem é uma unidade: enquanto viver na Terra, ele é uma unidade de espírito, alma e corpo (1Ts 5,23), sendo os três estreitamente interativos; após a morte do corpo, formam uma unidade de espírito e alma.

A morte não provoca a anulação da personalidade do Homem. Ela passa a exprimir-se através do espírito e da alma.

Aquando da ressurreição dos mortos, o espírito e a alma serão unidos com um corpo ressuscitado (vide 10.1.2).

SÍNTESE Voltar ao topo

O Maligno induz o Homem à tentação. Este sucumbe à tentação e infringe o mandamento decretado por Deus: é o momento em que o pecado entra na existência do Homem. (3.3.3)

A consequência do pecado é a apartação de Deus. Além disso, é o momento em que a liberdade original do Homem sofre uma limitação importante: embora o Homem possa esforçar-se por levar uma vida em conformidade com a vontade de Deus, ele irá falhar sempre de novo nessa sua tentativa. Mesmo enquanto pecador, o Homem não será desamparado por Deus. (3.3.3)

Deus criou o Homem como ser físico e espiritual: o corpo é mortal, mas a sua natureza espiritual — o espírito e a alma — perdura eternamente. A morte não provoca a anulação da personalidade do Homem. Ela passa a exprimir-se no espírito e na alma. (3.3.4)

[5] A alma imortal não deve ser confundida com a "psique" do Homem, que, em linguagem corrente, também é designada de "alma". E também o espírito, pertencente à natureza imortal, tem de ser distinguido do intelecto (em linguagem corrente: "espírito humano").

3.4 Deus, o Filho Voltar ao topo

A profissão de fé em como Jesus Cristo é o Filho de Deus é um dos fundamentos da cristã.

A afirmação contida no segundo artigo de : «Creio em Jesus Cristo, Filho unigénito de Deus, nosso Senhor», exprime esta em poucas palavras. No Credo Niceno-Constantinopolitano (vide 2.2.2), evidencia-se o conteúdo desta : «Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas.»

Quando se fala de "Deus, o Filho", fala-se da segunda pessoa da Trindade de Deus, que vive e governa em comunhão com Deus, o Pai, e com Deus, o Espírito Santo, para todo o sempre. O termo "gerado" não deve ser interpretado do ponto de vista biológico, mas antes como tentativa de exprimir linguisticamente esta relação misteriosa entre Deus, o Pai, e Deus, o Filho.

Entre Deus, o Pai, e Deus, o Filho, não existe qualquer escalonamento — mesmo que a sequência dos termos "Pai" e "Filho" possam, eventualmente, dar a ideia de que existe uma sequência ou uma hierarquia. Pai e Filho são, da mesma forma, verdadeiro Deus; têm a mesma natureza. O texto bíblico em Heb 1,3* exprime-o desta forma: «Este Filho, que é [...] imagem fiel da sua [do Pai] substância

Em Jesus Cristo, Deus, o Filho, tornou-se Homem continuando a ser, ao mesmo tempo, Deus: Deus entrou na realidade histórica e agiu dentro dela. A crença em Deus, o Filho, é inseparável da crença em Jesus Cristo como uma personagem que está presente e age no contexto histórico. A profissão de fé evidencia este aspeto remetendo para as estações essenciais na vida do Filho de Deus encarnado e identifica-as, ao mesmo tempo, como o fundamento do acontecimento histórico-salvífico: «Creio em Jesus Cristo, unigénito Filho de Deus, nosso Senhor, o qual foi concebido pelo Espírito Santo, e nasceu da virgem Maria; padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; entrou no reino da morte; ressuscitou dos mortos ao terceiro dia, subiu aos céus; e está sentado à direita de Deus, Pai todo-poderoso, de onde virá.»

Jesus Cristo é verdadeiro Homem e verdadeiro Deus. Tem duas naturezas, uma humana e outra divina, estando ambas presentes n'Ele, imiscíveis, inalteráveis, inseparáveis e indivisíveis.

Segundo a Sua natureza humana, Ele é igual aos outros homens; apenas se distingue deles pelo facto de ter vindo ao mundo sem pecado, de nunca ter pecado e de ter sido obediente a Deus, o Pai, até à Sua morte na cruz (Fl 2,8).

Segundo a Sua natureza divina, Ele continua a ser inalteravelmente verdadeiro Deus em termos de omnipotência e perfeição, mesmo durante o período da Sua humilhação na Terra. Jesus manifestou o segredo da Sua pessoa de múltiplas formas, o que se compreende, por exemplo, das palavras contidas em Mt 11,27: «Todas as coisas me foram entregues por meu Pai: e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» O reconhecimento de que Jesus Cristo é o Filho de Deus, resulta de uma manifestação divina: «E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro, estamos, isto é, no seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna» (1Jo 5,20).

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

3.4.1 O Filho unigénito de Deus Voltar ao topo

A afirmação de que Jesus Cristo é o Filho unigénito do Pai (Jo 1,14), está contida no segundo artigo de : «Creio em Jesus Cristo, unigénito Filho de Deus», o que significa: Jesus Cristo é Filho de Deus de uma forma incomparável. Neste contexto, «unigénito» significa: Ele foi gerado, e não criado pelo Pai. «O qual é [...] o primogénito de toda a criação» (Cl 1,15). O Filho de Deus está junto do Pai antes de toda a criação (preexistência).

Em Jo 3,16, Jesus é designado de «Filho unigénito de Deus». Ele é quem autenticamente pode dar testemunho do Pai. O texto bíblico em Jo 1,18* expressa-o assim: «A Deus jamais alguém o viu; o Filho unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer.»

O Filho de Deus não é nenhuma criatura, como o Homem, também não é comparável a anjos, pois estes têm um princípio. Ele não tem princípio nem fim, tem a mesma natureza que o Pai — ou seja, é «unigénito», eternamente gerado. Em Heb 1,5 é usado o termo "gerado" com base no texto bíblico do Sl 2,7 para exprimir a relação inigualável existente entre o Pai e o Filho.

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

3.4.2 O Verbo encarnado Voltar ao topo

Em Jo 1,1-18 são feitas afirmações fundamentais sobre a existência de Deus e a Sua manifestação no mundo. Fala-se do princípio, da origem, que condiciona tudo e do qual tudo parte. Este princípio, que em si é incondicional e se situa para além de toda a temporalidade, é associado estreitamente ao termo usado na língua grega "Logos", que, regra geral, é traduzido pelo termo "Verbo". O Logos, este poder, é o princípio da criação. O Verbo e Deus estão sempre diretamente correlacionados: «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus» (Jo 1,1). Deus e o Verbo existem desde toda a eternidade.

Em Jo 1,14, dá-se prova da presença do Logos na Terra: «E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade.» O Verbo divino supraterreno, que no princípio está com Deus, entra agora na esfera terrena, até mais do que isso: faz-se carne — o Verbo eterno torna-se um verdadeiro Homem.

A humanidade do Filho de Deus, a realidade histórica do "verbo que se fez carne", é refletida nesta afirmação: «vimos a sua glória». Aqui, faz-se referência ao círculo dos testemunhos da atuação de Jesus na Terra. Os apóstolos e os discípulos tiveram comunhão direta com Jesus Cristo, o Verbo que se fez carne (1Jo 1,1-3).

A glória do Pai no além torna-se uma realidade histórica experienciável na glória do Filho no aquém. Assim sendo, o Filho de Deus pode afirmar: «Quem me vê a mim vê o Pai!» (Jo 14,9).

O texto bíblico em Heb 2,14 explica a razão pela qual o Verbo se fez carne: «E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele [Jesus Cristo] participou das mesmas coisas, para que, pela morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo».

3.4.3 Jesus Cristo, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus Voltar ao topo

O reconhecimento, de que Jesus Cristo é verdadeiro Homem e verdadeiro Deus, ou seja, a doutrina das duas naturezas de Cristo, foi definido como conteúdo doutrinal no Concílio de Chalcedon (451 d.C.). Esta doutrina da dupla natureza de Jesus ultrapassa os horizontes da experienciabilidade e da imaginação do Homem. Trata-se de um mistério.

A encarnação do Filho de Deus é descrita em Fl 2,6-8 como sendo servilismo: «Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens. E achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz

Jesus partilhou com os homens todo o espectro das emoções corporais e espirituais. Na Sua humanidade, Ele tinha um corpo e as respetivas necessidades. Em Lc 2,52 está escrito que Jesus crescia em sabedoria, e em estatura e em graça para com Deus e os homens. No casamento em Canaã, Ele se alegrou com os que estavam alegres. Sofreu com os tristes e chorou quando Lázaro morreu. Sentiu fome enquanto estava no deserto; sentiu sede quando chegou à fonte de Jacob. Sentiu a dor quando os soldados Lhe bateram. Face à Sua morte iminente na cruz, Ele admitiu: «A minha alma está cheia de tristeza, até à morte» (Mt 26,38).

O facto de Jesus Cristo ser verdadeiramente um homem é expresso em Heb 4,15. Ao mesmo tempo, este texto bíblico também frisa a diferença entre Ele e todos os restantes homens: Ele é imaculado.

Da mesma forma, Jesus Cristo é verdadeiro Deus.

Tanto a Sua filiação divina como a existência divina de Jesus Cristo são comprovadas na Escritura Sagrada. Quando Jesus foi batizado no rio Jordão, ouviu-se uma voz vinda do céu: «Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo» (Mt 3,17). Aquando da transfiguração, o Pai também realçou a filiação divina de Jesus e acrescentou a advertência de que todos deveriam escutá-Lo (Mt 17,5).

As palavras de Jesus «Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer» (Jo 6,44) e «Ninguém vem ao pai senão por mim» (Jo 14,6) expressam uma igualdade de autoridade divina entre Deus, o Pai, e Deus, o Filho. O Pai traz o Homem para junto do Filho, e o Filho conduz o Homem para junto do Pai.

Só como verdadeiro Deus é que Jesus Cristo conseguiu afirmar: «Eu e o Pai somos um» (Jo 10,30), expressando assim, na maior simplicidade linguística, que, em natureza, é idêntico ao Pai.

Outros textos bíblicos que comprovam que Jesus Cristo é verdadeiro Deus, são os seguintes:

  • o comportamento dos apóstolos após a ascensão: «E, adorando-o [Jesus Cristo] eles» (Lc 24,52);

  • a afirmação em Jo 1,18*: «A Deus jamais alguém o viu; o Filho unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer»;

  • o testemunho dado pelo apóstolo Tomé, depois de ter visto o Ressuscitado: «Senhor meu, e Deus meu» (Jo 20,28);

  • a profissão de fé na natureza de Jesus no hino a Cristo: «nele habita, corporalmente, toda a plenitude da divindade» (Cl 2,9);

  • o testemunho dado em 1Jo 5,20: «e no que é verdadeiro estamos, isto é, no seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna»;

  • a afirmação: Deus, «aquele que se manifestou em carne» (1Tm 3,16).

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

3.4.4 Indicações referentes a Jesus Cristo no Antigo Testamento Voltar ao topo

Já o Antigo Testamento fornece indicações que remetem para o Messias, o Salvador e Redentor que há-de vir. Na maldição lançada sobre a serpente, logo após a queda do Homem, já se encontra uma indicação que remete para um Redentor que há-de vir (Gn 3,15).

O autor da Epístola Aos Hebreus reconhece, nos atos do rei-sacerdote Melquizedec, que leva pão e vinho a Abraão e o abençoa (Gn 14,17-20; Heb 7), uma indicação que remete para Jesus Cristo.

Deus, o Filho, acompanhou o povo de Israel ao longo da História. O apóstolo Paulo dá, expressamente, testemunho da presença de Cristo durante a peregrinação pelo deserto: «[...] nossos pais [...] beberam todos de uma mesma bebida espiritual; porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo» (1Cor 10,1-4).

Os profetas veterotestamentários anteveem pormenores concretos relacionados com a aparição do Redentor:

  • Isaías descreveu-o com nomes que sublinham a Sua imparidade: «Porquanto um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; tem a soberania sobre os seus ombros, e o seu nome é: Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai-Eterno, Príncipe da Paz» (Is 9,5*).

  • Miquéas anunciou o local de nascimento do Senhor: «E tu, Beth-leém Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá, de ti me sairá o que será Senhor em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade» (Mq 5,2).

  • Malaquias profetizou a vinda de um anjo que prepararia o caminho para o Filho de Deus: «Eis que eu envio o meu anjo, que preparará o caminho diante de mim; e, de repente, virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais, o anjo do concerto, a quem vós desejais; eis que vem, diz o Senhor dos exércitos» (Ml 3,1). Este anjo que havia de preparar o caminho é João Batista (Mt 11,10).

  • Zacarias descreveu a entrada do Senhor em Jerusalém: «Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis que o teu rei virá a ti, justo e Salvador, pobre, e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta» (Zc 9,9).

Desta forma, a encarnação do Filho de Deus, bem como o Seu caminho sobre a Terra, foram profetizados no Antigo Testamento.

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

3.4.5 Jesus Cristo — o Redentor Voltar ao topo

O nome "Jesus" significa: "O Senhor salva". Quando o anjo Gabriel anunciou o nascimento de Jesus, ele especificou logo o nome que Lhe haviam de dar: «[...] e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados» (Mt 1,21). Já a nomenclatura evidencia que Jesus é o Salvador e Redentor prometido.

Nas Suas obras, Jesus Cristo manifestou-se como sendo o Salvador e Redentor enviado por Deus: «Os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho» (Mt 11,5). Mas a redenção através de Jesus Cristo ainda vai muito além da dimensão do visível, da temporalidade, pois abrange também o que é invisível, eterno. Ela tira ao diabo o poder sobre o Homem e conduz para fora do pecado e da morte.

A redenção do Homem é fundamentada no sacrifício de Jesus Cristo (Ef 1,7). Unicamente n'Ele é que o Homem obtém acesso à salvação(Act 4,12).

SÍNTESE Voltar ao topo

Deus, o Filho, é a segunda pessoa da Trindade de Deus. Em Jesus Cristo, Ele tornou-se Homem continuando a ser, ao mesmo tempo, Deus: Ele entrou na realidade histórica. (3.4)

Jesus Cristo é verdadeiro Homem e verdadeiro Deus, ou seja, tem duas naturezas diferentes. Na Sua natureza humana, Jesus Cristo é igual aos outros homens, contudo, é imaculado. Segundo a Sua natureza divina, Ele continua a ser inalteravelmente verdadeiro Deus, mesmo durante o período da Sua humilhação na Terra. (3.4)

Jesus é designado "Filho unigénito de Deus". O Filho de Deus, o "Unigénito", é o Gerado pelo Pai, ou seja, não foi criado, mas antes é eterno, sem princípio nem fim, tem a mesma natureza que o Pai. (3.4.1)

A palavra divina extramundana ("logos", o verbo), que, no início, está com Deus, através de Jesus entra na esfera do que é terreno e humano. "Faz-se carne" (Jo 1,14) — o Verbo eterno torna-se um verdadeiro Homem. A glória do Pai no além torna-se uma realidade histórica experienciável na glória do Filho no aquém. (3.4.2)

A dupla natureza de Jesus Cristo, enquanto verdadeiro Homem e verdadeiro Deus, é um mistério. Enquanto verdadeiro Homem, Jesus partilhou com os homens todo o espectro das emoções corporais e espirituais. Enquanto verdadeiro Deus, Ele expressou a Sua consubstancialidade com o Pai: «Eu e o Pai somos um» (Jo 10,30). (3.4.3)

O Antigo Testamento contém algumas indicações que remetem para o Messias vindouro. Os profetas veterotestamentários anteveem pormenores concretos relacionados com a aparição do Redentor. Desta forma, a existência eterna, a encarnação do Filho de Deus, bem como o Seu caminho sobre a Terra, foram profetizados já no Antigo Testamento. (3.4.4)

Nas Suas obras, Jesus Cristo manifestou-se como sendo o Redentor enviado por Deus. A redenção que liberta da morte e do pecado é baseada no sacrifício de Jesus Cristo; o Homem só consegue alcançar a salvação através d'Ele. (3.4.5)

3.4.6 Títulos de majestade atribuídos a Jesus Voltar ao topo

O termo "Títulos de majestade" refere-se a nomes e designações para o Filho de Deus, com os quais a Escritura Sagrada aborda características diferentes da Sua imparidade.

3.4.6.1 Messias — Cristo — Ungido Voltar ao topo

Estes três termos designam a mesma coisa: "Messias" vem do termo hebraico "maschiach", a versão latina "Cristo" surgiu a partir do termo grego "Christos", que traduzido significa "Ungido".

Em alguns dos Salmos, os reis de Israel são designados como "Ungidos de Deus" (Sl 20,6 e outros). A sua unção está estreitamente ligada a afirmações sobre uma aliança especial que Deus fez com David e os seus descendentes. A veneração do rei ungido e dado por Deus por vezes até chegava ao ponto de ele próprio ser designado de Deus (Sl 45,6-10).

Com base nas afirmações dos profetas (Is 61; Jr 31,31ss e outros), foram-se desenvolvendo, entre o povo de Israel, imaginações sobre como seria o Messias, o que se foi concretizando gradualmente numa determinada estatura que ultrapassa todo o poder de imaginação humana e que, no mais profundo sentido, detém um caráter divino.

O facto de Jesus de Nazaré ser este Messias, este Cristo, é algo inequivocamente professado no Novo Testamento. O título de majestade "Cristo" está tão estreitamente ligado a Jesus, que até se torna nome próprio: Jesus Cristo. Quem crer n'Ele, professa o Messias esperado pelo povo de Israel, o mensageiro de salvação enviado por Deus.

Sempre que no Novo Testamento se fala de Jesus, trata-se do Cristo, do Messias. Assim, fica demarcada uma diferença inequívoca: enquanto, atualmente, ainda muitas pessoas pertencentes à judaica esperam pela vinda do Messias, os cristãos professam que o Messias já veio e está presente em Jesus Cristo. Esta crença é formulada na afirmação significativa que se encontra no início do Evangelho segundo S. Marcos: «Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus» (Mc 1,1).

3.4.6.2 Senhor Voltar ao topo

No Antigo Testamento, a designação "Senhor" é geralmente usada quando se fala do Deus de Israel. No Novo Testamento, este título de majestade também é associado a Jesus Cristo.

Da Epístola Aos Romanos consta o seguinte: «Porque, se confessares com a tua boca: «Jesus é o Senhor», e acreditares no teu coração que Deus o ressuscitou de entre os mortos, serás salvo» (Rm 10,9). É daí que se deduz a afirmação "Kyrios Iesous" (do grego: "o Senhor é Jesus"), que é uma das profissões de mais antigas do cristianismo primitivo. Sendo que o termo "Senhor" não é uma alocução respeitosa, mas antes uma designação da autoridade divina de Jesus Cristo.

Depois da Sua Ressurreição, o facto de Jesus ser "o Senhor", torna-se uma certeza inabalável para os Seus discípulos. O apóstolo Tomé dirige-se ao Ressuscitado com as palavras: «Senhor meu, e Deus meu» (Jo 20,28).

Quando Jesus é intitulado "o Senhor", isso também visa exprimir que não é mais ninguém senão Deus que n'Ele assumiu figura humana.

O apóstolo Paulo escreve sobre a natureza de regente de Jesus, que supera todos os restantes regentes, incluindo o Imperador romano que reclama para si a qualidade de divindade: «Mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou, antes dos séculos, para nossa glória; a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória» (1Cor 2,7.8).

O facto de Jesus ser o senhor da glória, atribui grande significado à invocação do Seu nome e à Sua adoração (Fl 2,9-11).

3.4.6.3 Filho do Homem Voltar ao topo

O termo "Filho do Homem" é baseado no texto bíblico em Daniel 7,13.14 que o usa para descrever um ser celestial, que não pertence à espécie humana.

Na época de Jesus, os judeus crentes esperavam pelo "Filho do Homem" ao qual deveria ser entregue, por Deus, a regência do mundo. Segundo João 3,13, o próprio Senhor se dá a conhecer como filho do Homem: «Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu». Assumindo esta natureza, Ele tem o poder de perdoar os pecados (Mt 9,6), é Senhor sobre o Sábado (Mt 12,8) e «veio buscar e salvar o que se havia perdido» (Lc 19,10).

Por fim, Jesus anunciou o sofrimento (Mt 17,12), a morte sacrificial (Mt 12,40; 20,28) e a ressurreição do Filho do Homem (Mt 17,9). Quando Ele fala do Filho do Homem, está sempre a referir-se a si próprio.

Estêvão também deu testemunho da divindade do Filho do Homem: «Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus» (Act 7,56). — Jesus Cristo, o Filho do Homem, volta a estar no lugar de onde partiu (Jo 16,28).

3.4.6.4 Emanuel — Servo do Senhor — Filho de David Voltar ao topo

A Escritura Sagrada contém mais títulos de majestade para Jesus: Emanuel, Servo do Senhor, Filho de David.

O nome hebraico "Immanuel" significa "Deus connosco". Remetendo para Jesus, o texto bíblico em Mt 1,22.23 retoma a profecia de Is 7,14: «Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho e chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, que traduzido é: Deus connosco.» Ou seja, Jesus Cristo é aquele através do qual Deus está presente e é diretamente experienciável.

O título "Servo do Senhor" encontra-se no Antigo e Novo Testamento, sempre associado a pessoas de destaque dentro da história de salvação: patriarcas, profetas, apóstolos. Isaías forneceu indicações referentes a um servo de Deus, que acabaram por se tornar realidade em Jesus Cristo (Is 42,1 e outros).

No Novo Testamento, o título "Filho de David" é uma designação frequentemente usada para Jesus Cristo. Logo no princípio do Evangelho segundo S. Mateus é dada esta ênfase: «Livro da geração de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão» (Mt 1,1). Isso significa que as promessas dadas a David são cumpridas no Filho de Deus.

SÍNTESE Voltar ao topo

Os "títulos de majestade" são nomes e denominações usados para abordar características distintas da singularidade do Filho de Deus: (3.4.6)

O facto de Jesus de Nazaré ser o "Messias" é confirmado unanimemente no Novo Testamento. (3.4.6.1)

"Senhor" é a designação da autoridade divina de Jesus Cristo. (3.4.6.2)

O termo "Filho do Homem" designa um ser celestial que não faz parte da humanidade; foi o próprio Senhor que se deu a conhecer como Filho do Homem. (3.4.6.3)

A Escritura Sagrada enuncia também "Emanuel" ("Deus connosco"), "Servo do Senhor" e "Filho de David" como outros títulos de majestade de Jesus. (3.4.6.4)

3.4.7 Ministérios de Cristo — Rei, Sacerdote e Profeta Voltar ao topo

Ao título "Rei" associa-se sempre a ideia de reger e governar. O sacerdote ocupa-se do serviço sacrificial para servir de mediador de reconciliação do Homem com Deus. De um profeta espera-se que proclame a vontade divina e preveja acontecimentos vindouros.

Reger e governar, promover a reconciliação com Deus, proclamar a vontade de Deus e prever o futuro: tudo isto se encontra concretizado na perfeição em Jesus Cristo.

3.4.7.1 Jesus Cristo — o Rei Voltar ao topo

Quando o anjo do Senhor anunciou à virgem Maria o nascimento de Jesus, ele disse o seguinte: «Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; [...] E reinará eternamente na casa de Jacob, e o seu reino não terá fim» (Lc 1,32.33).

Os magos do oriente perguntaram pelo recém-nascido rei dos judeus, pois vieram para o adorar (Mt 2,2).

Em Jesus Cristo se cumpriu a promessa que Deus dera ao profeta Jeremias: «Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a David um Renovo justo; e, sendo rei, reinará, e prosperará, e praticará o juízo e a justiça na terra» (Jr 23,5).

Natanael, um dos primeiros discípulos de Jesus, reconheceu: «Rabi, tu és o Filho de Deus; tu és o Rei de Israel» (Jo 1,49). Mas a qualidade de rei em Jesus não se refere a uma regência terrena e também não se evidencia pela exteriorização de sinais de poder, mas antes se torna notória através da autoridade com que agia e os sinais que dava.

As ideias de que Ele ansiava por uma regência terrena como rei, ou queria assumir uma função política, foram claramente desfeitas por Jesus.

Todos os quatro Evangelhos relatam a forma como Jesus entrou em Jerusalém antes do Seu sofrimento e da Sua morte. Aquando da Sua entrada, Ele deu-se a conhecer como rei da paz e da justiça, conforme já o profeta Zacarias o tinha anunciado (Zc 9,9). O povo queria fazer de Jesus o rei terreno, tendo-o aclamado nesse sentido (Jo 12,13).

Mesmo no interrogatório de Pilatos, Jesus deu a perceber que o Seu reino não era deste mundo e que não reclamava qualquer direito ao poder de um regente terreno. Pilatos retomou estas palavras de Jesus: «Logo, tu és rei?», dando, assim, oportunidade ao Filho de Deus de falar sobre a Sua realeza: «Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade.» Neste momento, estando Ele perante um representante da grande potência mundial de Roma e do paganismo, Jesus voltava a assumir que seria rei e testemunho da verdade (Jo 18,33-37).

A morte na cruz representa o ponto culminante e o fim de uma humilhação que, na realidade, é o caminho para o enaltecimento de Jesus Cristo. «E Pilatos escreveu, também, um título, e pô-lo em cima da cruz; e nele estava escrito: JESUS NAZARENO, REI DOS JUDEUS [...] e estava escrito em hebraico, grego e latim» (Jo 19,19.20). No sentido mais profundo, este título em três línguas diferentes destinava-se a dar a conhecer a realeza de Jesus Cristo ao mundo inteiro.

A dignidade real de Jesus Cristo também é sublinhada no Apocalipse de João: Jesus Cristo é o «príncipe dos reis da terra» (Ap 1,5). Quando o sétimo anjo tiver tocado a sua trombeta, «os reinos do mundo vieram a ser do nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre» (Ap 11,15): agora, a realeza de Jesus Cristo está patente em todas as áreas.

3.4.7.2 Jesus Cristo — o Sacerdote Voltar ao topo

A função principal dos sacerdotes da Antiga Aliança consistia em oferecer sacrifícios a Deus, instruir o povo na lei, tomar decisões em casos jurídicos complexos e deliberar sobre todas as questões relacionadas com a pureza cúltica. A função do sumo sacerdote consistia em levar perante Deus os seus próprios pecados, os dos sacerdotes e os do povo. Para cumprir esta sua função, ele entrava, uma vez por ano, no dia da reconciliação (Yom Kippur), no lugar santíssimo. Ele agia em representação do povo e tornava-se elo de ligação entre Deus e o povo de Israel.

Em relação ao sacerdócio da Antiga Aliança e aos sacrifícios que se faziam no templo, o texto bíblico em Hebreus 8,5 expressa o seguinte: «Os quais servem de exemplar e sombra das coisas celestiais.» Debaixo da luz do Evangelho, torna-se evidente que o sacerdócio veterotestamentário só podia ser provisório, «pois a lei nenhuma coisa aperfeiçoou» (Heb 7,19).

Com a encarnação do Filho de Deus está presente um sacerdócio que supera qualquer outro sacerdócio. Jesus Cristo não é apenas um sumo sacerdote de entre a grande série de sumo sacerdotes de Israel. Em Jesus Cristo surge, acima de tudo, o sumo sacerdote no qual está fundamentada a redenção do mundo: é o próprio Deus quem ultrapassa o abismo do pecado e reconcilia o mundo consigo próprio, através de Jesus Cristo; não existe nenhum outro sacerdócio capaz de o fazer. Assim sendo, Jesus Cristo é sumo sacerdote perpétuo: «[...] porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo. Portanto, pode também salvar, perfeitamente, os que por ele se chegam a Deus; vivendo sempre para interceder por eles» (Heb 7,24.25).

Contrariamente aos sumo sacerdotes da Antiga Aliança, Jesus Cristo não precisava da reconciliação com Deus — Ele próprio era o Reconciliador. Não dá apenas testemunho do encontro com Deus, n'Ele próprio, o Homem e Deus ficam inseparavelmente unidos.

É no sacerdócio de Jesus Cristo que se evidencia a dedicação de Deus ao mundo; é nele que o Homem tem acesso à salvação de Deus.

A Epístola Aos Hebreus expõe o ministério sumo-sacerdotal de Cristo, dado para expiar os pecados do povo (Heb 2,17). Em Jesus Cristo, o sumo sacerdote perpétuo, é dada a certeza da remissão dos pecados e a promessa da vida eterna.

De Hebreus 3,1 consta o seguinte: «considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão». Jesus Cristo supera o serviço do sumo sacerdote na Antiga Aliança, sendo Ele o verdadeiro sumo sacerdote, e Ele é a condição prévia para o serviço dos apóstolos na Nova Aliança. O conteúdo da missão apostólica torna-se evidente em 2Cor 5,20: «Rogamos-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus.»

3.4.7.3 Jesus Cristo — o Profeta Voltar ao topo

Em Jesus Cristo cumpriu-se a promessa que Deus dera a Moisés: «Eis lhes suscitarei um profeta do meio dos seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar» (Dt 18,18).

Os profetas da Antiga Aliança eram vocacionados para proclamar a vontade de Deus. Muitas vezes, as suas mensagens começavam com uma menção da autoria divina das palavras: «Assim diz o Senhor». Em Jesus Cristo, é o próprio Deus quem fala com o Homem.

De acordo com o texto bíblico de Marcos 1,15, o Filho de Deus começou a Sua atuação com as palavras: «O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no Evangelho!». O Senhor ensinava com plenos poderes, isto é, com autoridade divina, o que se percebe pelas seguintes palavras: «Eu, porém, vos digo» (Mt 5-7).

Enquanto profeta, Jesus Cristo também manifestou coisas do futuro, como se vê, por exemplo, em Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21.

Nas Suas últimas instruções aos discípulos (Jo 13-16), Ele prometeu o Espírito Santo, que conduziria a toda a verdade.

No Livro do Apocalipse, o Filho de Deus desvenda o percurso da história de salvação até à nova criação.

É assim que Jesus Cristo age como profeta: Ele proclama a vontade de Deus, ilumina o passado, desvenda o que está oculto, indica qual é o caminho da vida e promete coisas futuras. As Suas afirmações têm validade eterna: «Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão» (Mc 13,31).

SÍNTESE Voltar ao topo

A natureza de Rei de Jesus Cristo evidencia-se no poder com o qual Ele agia e pelos sinais que Ele dava. (3.4.7.1)

No sentido mais profundo, esta inscrição na cruz, em três línguas diferentes, destina-se a dar a conhecer a realeza de Jesus Cristo ao mundo inteiro. (3.4.7.1)

No livro do Apocalipse de João, a dignidade da realeza de Jesus Cristo também é referida (Ap 1,5; 11,15). (3.4.7.1)

Em Jesus Cristo surge o sumo sacerdote no qual está fundamentada a redenção: através de Jesus Cristo, Deus reconcilia o mundo consigo próprio. Contrariamente aos sumo sacerdotes da Antiga Aliança, Jesus Cristo não precisava da reconciliação com Deus — Ele próprio era o Reconciliador. (3.4.7.2)

É no sacerdócio de Jesus Cristo que se evidencia a dedicação de Deus ao mundo: é n´Ele que o Homem tem acesso à salvação de Deus; é n´Ele que é dada a certeza da remissão dos pecados e a promessa da vida eterna. (3.4.7.2)

Os profetas da Antiga Aliança estavam vocacionados para proclamar a vontade de Deus. E Jesus Cristo também agiu como profeta: Ele proclamava a vontade de Deus, iluminava o passado, desvendava o que estava oculto, indicava qual o caminho da vida e prometia coisas futuras. (3.4.7.3)

3.4.8 Testemunhos neotestamentários referentes à pessoa e à atuação de Jesus Cristo Voltar ao topo

Os Evangelhos dão testemunho da vida e da atuação de Jesus Cristo. No entanto, os evangelistas não relatam na qualidade de biógrafos; é antes uma forma de dar testemunho de que esse Jesus de Nazaré é o Messias esperado por Israel: a Sua história é a história da intervenção salvífica de Deus no rumo do mundo, do princípio do reino de Deus na Sua pessoa. Os elementos essenciais da profissão de fé em Cristo estão fundamentados nos testemunhos neotestamentários feitos sobre Jesus.

3.4.8.1 Conceção e nascimento de Jesus Voltar ao topo

Nos Evangelhos segundo S. Mateus e S. Lucas, é narrado o nascimento de Jesus. Jesus nasceu no tempo em que Herodes era rei na Judeia, Augusto imperador em Roma e Cirénio o seu governador na Síria. Estes dados precisos remetem para a existência histórica real de Jesus e inviabilizam a tentativa de relegar a história de Jesus de Nazaré para o domínio dos mitos ou das lendas.

A imparidade do Homem Jesus é evidenciada pelo facto do nascimento virginal, o qual consta do Evangelho segundo S. Lucas. O anjo Gabriel levou a mensagem à virgem Maria: «E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de David, seu pai; e reinará eternamente na casa de Jacob, e o seu reino não terá fim» (Lc 1,31-33). E também deu a Maria a explicação de como ela iria conceber: «Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que, também, o Santo, que de ti há-de nascer, será chamado Filho de Deus» (Lc 1,35).

A afirmação contida no segundo artigo de de que Jesus «[...] foi concebido pelo Espírito Santo, e nasceu da virgem Maria», descreve que a encarnação do Filho de Deus é um acontecimento que é retirado do contexto da natureza. Jesus de Nazaré é verdadeiro Homem, mas já a Sua mortalidade e a Sua humanidade estão indissociavelmente ligados à vontade salvífica de Deus: a conceção e o nascimento de Jesus são atos salvíficos e, por conseguinte, parte integrante da história de salvação. Os acontecimentos em redor do nascimento de Jesus sublinham esta perceção:

  • Apareceram anjos e anunciaram aos pastores no campo a feliz mensagem: «Pois, na cidade de David, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor» (Lc 2,11; cf. Mq 5,1).

  • Uma estrela indicou o caminho para o local de nascimento do rei recém-nascido; os magos do oriente seguiram a estrela e foram conduzidos até Belém, onde adoraram a criança (Mt 2,1-11).

3.4.8.2 Batismo de Jesus no rio Jordão Voltar ao topo

Jesus Cristo é imaculado. No entanto, deixou-se batizar por João Batista no rio Jordão e permitiu que O enquadrassem entre os pecadores (2Cor 5,21). Neste ato de batismo, que foi uma expressão de penitência, torna-se evidente que Jesus Cristo se humilhou e deixou que n'Ele se fizesse o que cabe a todos os pecadores.

Logo aqui se vê que Jesus Cristo, o Imaculado, assume o pecado, em representação dos pecadores, e assim acaba por abrir o caminho que leva à justiça perante Deus.

Depois de ter sido batizado, o Espírito Santo desceu visivelmente sobre Jesus. Através de uma voz vinda do céu, o Pai deu este testemunho: «Tu és o meu Filho amado, em ti me tenho comprazido» (Lc 3,22). Através deste acontecimento revelador, o Pai dá a conhecer a filiação divina de Jesus ao mundo inteiro e proclama a Sua messianidade: Jesus é o Cristo, o Filho de Deus.

As palavras de João Batista provam que ele reconheceu em Jesus o servo de Deus sofredor, o Redentor (Is 53,5): «Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.» Antes disso, tinha-lhe sido dito: «Aquele sobre o qual vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que baptiza com o Espírito Santo.» João sublinhou esse aspeto: «E eu vi, e tenho testificado que este é o Filho de Deus» (Jo 1,29.33.34).

3.4.8.3 Tentação de Jesus no deserto Voltar ao topo

Depois de ter sido batizado no rio Jordão, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto «para ser tentado pelo diabo» (Mt 4,1). Ficou lá durante quarenta dias e foi tentado várias vezes pelo diabo. Jesus resistiu à tentação e repeliu o diabo.

Este acontecimento tem relevância histórico-salvífica: Adão sucumbiu à tentação e caiu em pecadoCristo, «que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado» (Heb 4,15), sendo o novo Adão, resiste à tentação. Ainda antes de iniciar a Sua obra publicamente, Ele prova ser vencedor sobre Satanás.

SÍNTESE Voltar ao topo

A história de Jesus de Nazaré é a história da intervenção salvífica de Deus no curso do mundo. Os Evangelhos não são biografias, mas antes testemunhos da . (3.4.8)

A singularidade do Homem Jesus é destacada pelo Seu nascimento virginal. A conceção e o nascimento de Jesus são atos salvíficos e, por conseguinte, parte integrante da história de salvação. (3.4.8.1)

Embora Jesus Cristo seja imaculado, deixou-se batizar por João Batista e permitiu que O enquadrassem entre os pecadores. Depois do batismo, Deus, o Pai, anunciou ao mundo inteiro a filiação divina de Jesus. (3.4.8.2)

Ainda antes da Sua atuação em público, Jesus foi tentado no deserto. E conseguir vencer Satanás. (3.4.8.3)

No fulcro da proclamação de Jesus, estava o reino de Deus na sua forma atual e futura. Em Jesus Cristo, esse reino está personificado e presente. (3.4.8.4)

3.4.8.4 Ensinamentos de Jesus Voltar ao topo

No fulcro da proclamação de Jesus está o reino de Deus — a regência de Deus que se concretiza no plano histórico — na Sua figura presente e futura: «O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo» (Mc 1,15). Assim sendo, o reino de Deus passa a estar presente personificado em Jesus Cristo (Lc 17,21).

O conteúdo fundamental do Evangelho é a graça, o amor e a reconciliação que se manifestam em Jesus Cristo. Ele é o Filho de Deus e veio para destruir as obras do diabo, redimir o Homem pecaminoso e concupiscente e libertá-lo do poder do diabo. Através do Seu sacrifício, Jesus Cristo abre ao Homem o caminho que leva à reconciliação com Deus e a porta que conduz à vida eterna. Através da Sua morte e da Sua ressurreição, Ele comprova, de uma vez para sempre, que Ele é Senhor sobre a morte e o diabo. Através da sua , o Homem toma parte nesta vitória (1Cor 15,57).

Jesus escolheu discípulos para O seguirem. Ele pregou com poder, com autoridade majestosa, e perdoou pecados. Os Seus atos milagrosos foram mais uma forma de deixar bem claro que, com Ele, a salvação chegara ao Homem. Assim, sublinhou a Sua mensagem da regência divina que estava prestes a começar e a mensagem de si próprio, enquanto Salvador.

3.4.8.5 Milagres de Jesus Voltar ao topo

Todos os quatro Evangelhos escritos existentes falam dos atos milagrosos de Jesus como sendo acontecimentos reais, que dão testemunho da Sua messianidade. Os Seus milagres demonstram a dedicação misericordiosa de Deus ao Homem sofredor. São parte do acontecimento revelador, porque mostram a glória de Cristo (Jo 2,11) e a Sua autoridade divina (Jo 5,21).

Os milagres que o Filho de Deus praticou foram muito diversificados: curou doentes, expulsou espíritos maus, ressuscitou mortos, fez milagres naturais, o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, milagres em que ofertou bens materiais.

Cura de doentes

Jesus curou doentes, cegos, coxos, surdos, leprosos. Estas curas de doentes remetem para a natureza divina de Jesus Cristo, que agiu tal e qual como Deus falava de Si próprio a Israel: «eu sou o Senhor que te sara» (Ex 15,26). Um destes milagres é a cura de um paralítico em Cafarnaum (Mc 2,1-12), ao qual Jesus começou por dizer: «Filho, perdoados estão os teus pecados» (versículo 5). Os escribas acharam que isto era uma blasfémia — o Senhor provou que Ele tanto tinha o poder de perdoar pecados como o de curar. Os milagres curativos estão estreitamente correlacionados com a dos homens.

Expulsões de espíritos maus

Dos atos milagrosos de Jesus também constam expulsões de espíritos imundos (Mc 1,23-28). Até os demónios nos possessos reconheciam Jesus Cristo como Senhor (Mc 3,11). Fica bem claro que o mal não é nenhum poder autónomo, antes estando sujeito ao poder de Deus; com a vinda de Jesus Cristo, terminou o período da sua regência destruidora e da sua influência sobre os homens (Lc 11,20).

Ressuscitações de mortos

Os Evangelhos relatam três casos nos quais o Senhor voltou a dar vida a pessoas que já tinham morrido: a filha de Jairo (Mt 9,18-26), o mancebo de Naím (Lc 7,13-15) e Lázaro (Jo 11,1-44). Antes da ressuscitação de Lázaro, Jesus manifestou-se pronunciando as palavras que se referem ao fundamento da Sua natureza: «Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá» (Jo 11,25.26). Jesus Cristo não tinha apenas o poder de ressuscitar mortos — Ele próprio é a vida, Ele próprio é a ressurreição. A ressuscitação de mortos é uma metáfora que indica que a em Jesus Cristo significa ultrapassar a morte e que, como tal, traz a vida eterna.

Milagres sobre a natureza

Quando Senhor mandou acalmar o vento e o mar, evidenciou o Seu poder sobre os elementos da natureza (Mt 8,23-27 e outros). A regência sobre os poderes da natureza sublinha a natureza criadora do Filho de Deus, que, sendo "o verbo eterno do Pai", existiu antes de todas as criaturas (Jo 1,1-3).

Milagres da multiplicação dos pães e dos peixes

Todos os Evangelhos relatam como Jesus multiplicou a comida para cinco mil pessoas (Mc 6,30-44 e outros), nos Evangelhos segundo S. Mateus e S. Marcos também se fala da multiplicação dos pães e dos peixes para quatro mil homens (Mt 15,32-39; Mc 8,1-9). Por um lado, estes acontecimentos relembram como Deus alimentou o Seu povo no deserto, por outro, remetem para a Santa Ceia: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo» (Jo 6,51).

Milagres de oferta de bens materiais

Outros sinais da divindade de Jesus Cristo e da proximidade do reino de Deus também são os milagres através dos quais determinadas pessoas receberam uma plenitude de dádivas naturais. Por exemplo, a pescaria de Pedro (Lc 5,1-11) e o que sucedeu no casamento em Canaã, quando Jesus transformou água em vinho (Jo 2,1-11).

SÍNTESE Voltar ao topo

O conteúdo fundamental do Evangelho são a graça, o amor e a reconciliação que se manifestam em Jesus Cristo. (3.4.8.4)

Todos os Evangelhos relatam os atos milagrosos como sendo acontecimentos reais. Dão testemunho da messianidade de Jesus e evidenciam a dedicação misericordiosa ao Homem padecente. (3.4.8.5)

Os milagres que o Filho de Deus praticou foram muito diversificados: curou doentes, expulsou espíritos maus, ressuscitou mortos, fez milagres naturais, o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, milagres em que ofertou bens materiais. (3.4.8.5)

3.4.8.6 Parábolas e palavras metafóricas de Jesus Voltar ao topo

Nas Suas prédicas, Jesus usava muitas parábolas e nelas retratava figurativamente a vida quotidiana dos Seus ouvintes. De Mateus 13,34.35 consta o seguinte: «Tudo isto disse Jesus por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas; para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta, que disse: Abrirei em parábolas a minha boca; publicarei coisas ocultas desde a fundação do mundo.»

Nas Suas narrações alegóricas, Jesus tematizava os elementos essenciais da Sua doutrina e explicava os segredos do reino dos céus: «O reino dos céus é semelhante...» (Mt 13,1ss).

Os primeiros três Evangelhos contêm mais de quarenta parábolas. Através destas parábolas, Ele explicava aspetos essenciais do Evangelho: a proximidade do reino de Deus, o mandamento do amor ao próximo, a índole do Homem, a vinda do Filho do Homem.

Em Jesus Cristo está presente o reino de Deus Voltar ao topo
  • Na parábola do grão de mostarda, Jesus mostrou o princípio tão modesto do reino de Deus e o seu crescimento. Com a parábola do fermento, Ele evidenciou que, no fim, Cristo se propagará em tudo (Mt 13,31-33).

  • Na parábola do tesouro escondido num campo, e também na parábola da pérola de grande valor, é retratado um Homem que reconhece a riqueza oculta em Cristo e que aproveita a oportunidade de participar no reino de Deus, que lhe é oferecida (Mt 13,44-46).

  • Neste reino de Deus, o "reino de Deus que está próximo", é onde Deus se dá a conhecer como Pai Celestial cheio de amor. Da mesma forma, as parábolas da ovelha perdida, da dracma perdida e do filho pródigo (Lc 15,4-32) mostram a vontade de reconciliação e o amor de Deus para com o pecador. O Senhor convida todos, sem fazer qualquer tipo de distinção, e dá-lhes a oportunidade de comungar com Ele.

Amor ao próximo Voltar ao topo
  • Os mandamentos mais importantes da lei consistem em amar a Deus e amar ao próximo. Na narração do bom samaritano (Lc 10,30-35), Jesus mostrou quem é o próximo e explicou que o amor ao próximo significa não fechar os olhos perante a aflição dos outros, mas antes prestar ajuda. A forma de transformar este conceito na prática também se pode deduzir da parábola do juízo definitivo (Mt 25,35.36)

A índole do Homem Voltar ao topo
  • A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14) concentra-se na índole do Homem: não é aquele que se gaba das suas obras, mas antes aquele que se aproxima de Deus com humildade e procura a misericórdia, que será justificado. Entre outros aspetos focados, a parábola do semeador também tematiza a índole do Homem: mostra que a aceitação devida da palavra de Deus requer um coração temente a Deus (Lc 8,15 e outros).

  • A parábola do credor incompassivo também foca a índole: fala do perdão e exorta aqueles que receberam a graça de Deus a serem, também, misericordiosos para com os outros. Quem conhece a grandeza do amor de Deus, sentirá mesmo necessidade de se reconciliar com o próximo (Mt 18,21-35).

A vinda do Filho do Homem Voltar ao topo
  • Nas parábolas sobre a vinda do Filho do Homem, Jesus revelou acontecimentos futuros. Em Mateus 24,37-39 faz-se uma comparação entre o tempo antes da Sua vinda e a época em que viveu Noé: a revinda de Cristo será súbita. É nesse sentido que a parábola sobre o ladrão na noite termina com a exortação: «Por isso, estai vós apercebidos, também; porque o Filho do homem há-de vir à hora em que não penseis» (Mt 24,44). A mesma mensagem também está contida na parábola das dez virgens (Mt 25,1-13): é preciso estar vigilante e preparado para a revinda súbita do Senhor. A parábola dos dez talentos exorta para aproveitar o tempo que resta até à revinda de Cristo (Mt 25,14-30).

Todas estas parábolas aprofundam a compreensão das afirmações de Jesus sobre a Sua revinda, sobre a salvação e o juízo, sobre a Sua regência no fim dos tempos, sobre as potestades do mundo e sobre a vida eterna como verdadeiro destino do Homem.

Palavras metafóricas Voltar ao topo
  • Palavras metafóricas, que expressam a natureza de Jesus e, por conseguinte, são uma automanifestação do Filho de Deus, encontram-se no Evangelho segundo S. João. Nas passagens em que Jesus usou as palavras "ego eimi" (Eu Sou...), Ele apresentou-se como «o pão da vida» (Jo 6,35) e «a luz do mundo» (Jo 8,12). Da mesma forma, Ele é «a porta» que leva à salvação (Jo 10,9), o «bom Pastor» que dá a Sua vida pelas ovelhas (Jo 10,11), e Ele é «a videira» (Jo 15,5). Jesus Cristo é «a ressurreição», «o caminho, e a verdade, e a vida» (Jo 11,25; 14,6); é unicamente Ele quem dá acesso a Deus, o Pai. Estas sete palavras "ego eimi" (Eu sou...) mostram o caráter de divindade e realeza que Jesus reclama: Ele não é apenas o enviado do Pai, Ele próprio é Deus.

3.4.8.7 Jesus e a lei Voltar ao topo

Para Israel, a lei mosaica tinha autoridade absoluta; respeitá-la e cumpri-la era considerado como sendo a chave para a relação entre o Homem e Deus. Jesus não aboliu a lei, mas deixou claro que Ele tem maior autoridade e que é Senhor sobre a lei.

No sermão da montanha (Mt 5-7), perante os Seus discípulos e o povo, Ele tomou posição em relação à lei. Nas chamadas antíteses de Jesus («Ouvistes que foi dito [...] Eu, porém, vos digo [...]»), através das quais Ele especificou mais precisamente a lei e conduziu os ouvintes ao entendimento da vontade de Deus por detrás da lei, Ele apresentou-se como sendo o único com autoridade e poder para interpretar a lei.

Desvendando o núcleo da lei mosaica, Ele exprimiu que a lei — tal como toda a Antiga Aliança — remetia para Ele e que Ele viera para a cumprir. Com a Sua obediência, Ele opôs-se à desobediência do primeiro Homem; com o Seu cumprimento perfeito da lei, Ele pôs fim ao domínio sem limites do pecado sobre o Homem.

3.4.8.8 Jesus e os Seus apóstolos Voltar ao topo

Para a propagação do Evangelho, Jesus escolheu doze apóstolos do círculo dos Seus discípulos (Lc 6,12-16; Mc 3,14). Eles formavam o Seu núcleo mais próximo. Com eles, Ele tinha uma relação especial de confiança. Quando os outros discípulos o deixaram, porque não o compreendiam, os apóstolos ficaram com Ele e professaram que Ele é Cristo.

Foi a eles que Ele deu o exemplo de como servir humildemente, quando lhes lavou os pés (Jo 13,4ss). Eram apenas estes doze que estavam com Ele quando instituiu a Santa Ceia (Lc 22,14ss). Foi a eles que Ele se dirigiu nas Suas últimas instruções (Jo 13-16). Foi a eles que Ele prometeu o Espírito Santo. Foi a eles que Ele fez saber que iria voltar para junto do Pai. Foi a eles que Ele deu a promessa da Sua revinda. Foi por eles e por aqueles que através da palavra dos apóstolos iriam crer n'Ele que Ele intercedeu na oração sumo-sacerdotal (Jo 17). Ele próprio se santificou por eles «para que também eles sejam santificados na verdade» (versículo 19).

Foi a eles que Ele se mostrou várias vezes, após a Sua ressurreição (Act 1,2.3) e foram eles que receberam d'Ele a Grande Comissão, antes da Sua ascensão.

SÍNTESE Voltar ao topo

Nos discursos metafóricos (as chamadas parábolas), Jesus tematizou os elementos essenciais da Sua doutrina. As parábolas de Jesus são direcionadas para a Sua revinda e a respetiva preparação. (3.4.8.6)

Nas declarações metafóricas do Evangelho de João, Jesus evidencia-se como verdadeiro Deus. (3.4.8.6)

Desnudando o cerne da lei mosaica, Jesus demonstrou que a lei e toda a Antiga Aliança remetiam para Ele. Ele viera para cumprir o que a lei previa. (3.4.8.7)

Para fins de propagação do Evangelho, Jesus escolheu doze dos Seus discípulos para serem apóstolos. Com eles, Ele tinha uma relação especial de confiança. Foi a eles que Ele se mostrou, após a Sua ressurreição e foram eles que receberam d'Ele a Grande Comissão, antes da Sua ascensão. (3.4.8.8)

3.4.9 Paixão e morte sacrificial de Jesus Voltar ao topo

Os últimos dias que antecedem a morte sacrificial de Jesus são alvo de uma descrição detalhada nos Evangelhos.

Quando o Senhor entrou em Jerusalém sentado num jumento, cumpriu-se a profecia contida em Zacarias 9,9. Com a purificação do templo, Jesus evidenciou que a casa do Senhor é sagrada. As disputas com os fariseus e saduceus foram-se agravando — até ao ponto de quererem a Sua morte (Lc 20).

Quando Jesus foi ungido com um unguento de nardo puro muito precioso, segundo as Suas palavras, isso aconteceu em antecedência à Sua morte iminente (Jo 12,7). Alguns dos presentes ficaram algo aborrecidos por acharem que era um desperdício: se tivessem vendido aquele unguento, os «trezentos dinheiros» teriam sido mais úteis dando-os aos pobres. Judas Iscariotes, um dos doze apóstolos, dirigiu-se aos sumos sacerdotes. Ofereceram-lhe 30 «siclos de prata» se traísse Jesus, isto é, 30 moedas de prata, um montante correspondente ao preço de um escravo (Ex 21,32). Desta forma, cumpriu-se o que fora referido em Zacarias 11,12.13 — o Senhor foi colocado ao mesmo nível de um escravo.

3.4.9.1 Jesus institui a Santa Ceia Voltar ao topo

Por ocasião da Festa da Páscoa, o Senhor juntou-se aos doze apóstolos. Quando estavam todos, sentados à mesa, o Filho de Deus instituiu a Santa Ceia: «E, quando comiam, Jesus tomou o pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo. E tomando o cálix, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; Porque isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados» (Mt 26,26-28). Assim, tornam-se compreensíveis as palavras que fizeram com que muitos dos Seus discípulos se afastassem do Senhor, quando Ele disse: «[...] se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos» (Jo 6,53).

Durante a ceia, o Senhor identificou o Seu traidor. Este saiu daquela comunhão, «E era já noite» (Jo 13,30).

3.4.9.2 Jesus em Getesêmane Voltar ao topo

Depois da ceia, Jesus foi com os apóstolos ao jardim de Getesêmane. A natureza humana do Filho de Deus evidencia-se no medo que sente face à morte iminente que deverá sofrer na cruz. Em humildade e dedicação total a Deus, Ele prostrou-se e lutou com esse medo quando orou: «Pai, se queres, passa de mim este cálix, todavia não se faça a minha vontade, mas a tua». (Lc 22,42). A seguir, apareceu-lhe um anjo que o confortou. Jesus colocou a Sua vontade sob a vontade do Seu Pai — estava pronto a fazer o sacrifício.

Depois disso, Jesus foi preso. Judas Iscariotes entregara-o aos soldados dando-Lhe um beijo para o identificar. O Senhor não usou poderes celestiais para escapar à prisão, Ele bebeu do cálice do sofrimento que o Pai Lhe dera (Jo 18,11). Os discípulos abandonaram Jesus e fugiram.

3.4.9.3 Jesus diante do Sinédrio Voltar ao topo

O Sinédrio declarou Jesus culpado de blasfémia e condenou-o à morte. Consideraram ser uma blasfémia Ele afirmar que era Filho de Deus.

Enquanto Jesus estava a ser interrogado diante do Sinédrio, Pedro negou ser um discípulo de Jesus e de O conhecer (Lc 22,54-62). Cristo também sofreu com esta negação. No entanto, nunca condenou Pedro.

Depois de Jesus ter sido condenado à morte, Judas Iscariotes arrependeu-se da sua traição e quis devolver as 30 moedas de prata aos sumos sacerdotes: «Pequei, traindo o sangue inocente» (Mt 27,1-5). Visto que os sumos sacerdotes não quiseram aceitar o dinheiro de volta, ele atirou as moedas para dentro do templo, foi-se embora e enforcou-se. As suas palavras dão a entender que Judas não queria que Cristo morresse. Embora a sua traição tenha sido o meio de cumprir o que estava prometido na Escritura (Mt 27,9.10; Jr 32,9; Zc 11,12.13), isso não o exime da responsabilidade pelos seus atos.

3.4.9.4 Jesus diante de Pilatos e Herodes Voltar ao topo

Os judeus conduziram Jesus à residência do governador romano Pilatos, um local onde os judeus crentes não entravam, para não se contaminarem (Jo 18,28). Mas Jesus teve de entrar na audiência.

Durante o interrogatório perante Pilatos, Jesus referiu que o Seu reino não era deste mundo e que Ele não vinha reclamar quaisquer direitos de regência terrena. Pilatos achou que Ele estava inocente e entregou-o ao rei Herodes. Os regentes Herodes e Pilatos, que antes eram inimigos, tornaram-se amigos naquele dia (Lc 23,12) — os poderes terrenos aliaram-se contra o Senhor.

Os romanos açoitaram o Filho de Deus. O povo exigia a Sua crucificação e culpavam-no de se ter erguido contra o imperador, dizendo que Ele era o "rei dos judeus", o que era punível com a pena de morte (Jo 19,12). Pilatos ainda viu uma maneira de conseguir a liberdade de Jesus: seria o povo a decidir se queriam que fosse Jesus ou o criminoso Barrabás a ser libertado. Incitado pelos príncipes dos sacerdotes e os anciãos, o povo optou por Barrabás. Para expressar que não era responsável por aquilo que agora iria acontecer, Pilatos lavou as suas mãos diante do povo e disse: «Estou inocente do sangue deste justo; considerai isso.» E o povo respondeu: «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos» (Mt 27,24.25). Pilatos mandou açoitar Jesus de novo e entregou-o aos soldados para o levarem para a crucificação.

Através da participação do governador romano, a condenação e a execução de Jesus deixaram de ser um assunto meramente relacionado com Israel, os gentios também participaram — a humanidade em geral é culpada da morte do Senhor.

3.4.9.5 Crucificação e morte sacrificial de Jesus Voltar ao topo

No Seu caminho para Gólgota, Jesus era seguido por uma grande multidão de povo. O Senhor disse às mulheres que o lamentavam: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai, antes, por vós mesmas, e pelos vossos filhos» (Lc 23,28). Foi uma indicação que Ele deu relativamente à iminente destruição de Jerusalém.

Juntamente com o Senhor, foram crucificados dois criminosos. A cruz de Jesus era a do meio. Aqui se cumpriu o que estava escrito em Isaías 53,12: o Senhor «foi contado com os transgressores», foi colocado ao mesmo nível deles. Os severos sofrimentos de Jesus acabaram por terminar numa cruel agonia de morte.

As palavras que Jesus disse, já na cruz, dão testemunho da Sua grandeza divina. Mesmo naquele sofrimento e na agonia de morte Ele ainda se dirigiu com misericórdia, perdão, intercessão e compaixão aos outros, manifestando, assim, o amor de Deus e a Sua graça.

A tradição eclesiástica definiu uma determinada sequência das últimas palavras de Jesus, que mesmo nos Evangelhos, difere consoante o autor, e a qual também queremos seguir aqui:

«Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.» (Lc 23,34)

O Filho de Deus, que, mesmo na cruz, continuou a ser o Misericordioso, intercedeu diante do Seu Pai por todos aqueles que o tinham levado ali à cruz e que não abrangiam o significado real dos seus atos. Foi neste momento que Jesus cumpriu a lei, de amar o seu inimigo, de uma forma inigualável (Mt 5,44.45.48).

«Em verdade te digo que estarás comigo, hoje, no Paraíso.» (Lc 23,43)

O Senhor dirigiu-se ao infrator que ali estava crucificado juntamente com Ele, que Lhe tinha pedido pela Sua graça e que tinha reconhecido, no momento da sua morte, que Jesus era o Salvador. O Paraíso que o Senhor prometeu àquele pecador arrependido era, na imaginação da época, o local onde se encontrariam os piedosos e justificados no além.

«Mulher, eis aí o teu filho.»«Eis aí tua mãe.» (Jo 19,26.27)

No momento da Sua morte, Jesus preocupou-se com Maria, Sua mãe, e confiou-a nas mãos do Seu discípulo João. Aqui, evidencia-se o cuidado paternal e o amor de Cristo, que intercede pelo próximo, apesar da Sua própria aflição.

Na tradição cristã, Maria é vista como símbolo da Igreja. Ela é colocada sob a tutela do ministério de apóstolo, que aqui é representado por João.

«Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?» (Mc 15,34)

Os judeus crentes usam estas palavras do Salmo 22 para se dirigirem a Deus quando estão perante a morte. Por um lado, é uma forma de lamentar o sentimento de afastamento d'Ele, por outro, de dar testemunho da sua no poder e na graça de Deus. Foi com estas palavras que Jesus se dirigiu ao Seu Pai.

Mas o Salmo 22 também remete para o sofrimento e a confiança do justo em Deus. Grande parte deste Salmo também remete para a morte sacrificial de Cristo, o que o torna uma prova veterotestamentária do Messias, que é Jesus.

«Tenho sede» (Jo 19,28)

Foi aí que se cumpriu o que está escrito no Salmo 69,21: «Deram-me fel por mantimento e, na minha sede, me deram a beber vinagre.» No sentido figurativo isso significa que Jesus teve de beber o cálice do sofrimento até ao fim para que, assim, se cumprisse na íntegra a vontade do Pai.

«Está consumado.» (Jo 19,30)

Quando estas palavras foram pronunciadas, era pela nona hora, ou seja, início da tarde. Foi a conclusão de uma parte importante dentro da história de salvação: Jesus fez o sacrifício para a salvação do Homem. A Sua morte sacrificial põe termo à Antiga Aliança, que tinha sido feita exclusivamente com o povo de Israel. É a altura de a Nova Aliança entrar em vigor (Heb 9,16), uma aliança à qual também têm acesso os gentios.

«Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.» (Lc 23,46)

Esta citação do Salmo 31,5 mostra que Jesus Cristo, mesmo neste momento, confiava plenamente no Seu Pai.

A morte do Senhor foi acompanhada de acontecimentos dramáticos: a terra tremeu e fenderam-se as pedras; e o véu do templo, que separava o lugar santíssimo do santo, rasgou-se em duas peças. Isso indica que, por um lado, o serviço sacrificial veterotestamentário encontrara o seu termo na morte de Cristo e deixara de ter importância; a Antiga Aliança fora cumprida. Por outro lado, indica que, através da morte sacrificial de Jesus, pelo "rasgar do véu", «isto é, pela sua carne» (Heb 10,20), estava criado o caminho que levava ao Pai.

Vendo tudo aquilo que sucedera no momento da morte de Jesus, o centurião romano e os soldados que guardavam o Senhor exclamaram: «Verdadeiramente este era Filho de Deus» (Mt 27,54). Ou seja, no momento da morte de Jesus foram gentios que reconheceram n'Ele o Filho de Deus.

José de Arimateia, membro do Sinédrio, pediu a Pilatos que lhe entregasse o corpo de Jesus, para que o pudesse sepultar. Juntamente com Nicodemos, que outrora fora ensinado pelo Senhor sobre a regeneração de água e espírito (Jo 3,5), colocou Jesus num sepulcro novo aberto numa rocha. E o sepulcro na rocha foi tapado com uma grande pedra; os sumos sacerdotes mandaram soldados guardar o sepulcro (Mt 27,62-66).

Segundo o comprova a Escritura Sagrada, tanto o sofrimento de Jesus, como a Sua morte, aconteceram em representação dos homens e, como tal, têm efeito salvífico: «Porque para isto sois chamados; pois, também, Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas; o qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano; o qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente; levando ele mesmo, em seu corpo, os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados» (1Pe 2,21-24).

Como Sofredor e Moribundo, Cristo, o Mediador, reconcilia os homens com Deus e cria o meio de redenção do pecado e da morte. Assim se cumpria a palavra de João Batista: «Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29). Através da Sua morte sacrificial, o Senhor aniquilou o poder de Satanás e venceu a morte (Heb 2,14). Dado que Jesus Cristo tinha resistido a todas as tentações de Satanás, Ele, por ser impecável, pôde assumir os pecados de toda a humanidade (Is 53,6) e adquirir um mérito através do Seu sangue, a partir do qual toda a iniquidade pode ser remida: a Sua vida, que Ele deu pelos pecadores, é o resgate. A Sua morte sacrificial abre ao Homem o caminho para Deus.

3.4.9.6 Indicações veterotestamentárias referentes ao sofrimento e à morte sacrificial de Jesus Voltar ao topo

Em Isaías 53, é dada uma descrição do Servo do Senhor, que é humilhado e que tem de sofrer. Esta descrição refere-se a Jesus Cristo, o «desprezado, e o mais indigno entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos» (versículo 3). A Sua humilhação terminou no Seu amargo sofrimento e na Sua morte: «Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si. [...] O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados» (versículos 4.5). Esta é uma indicação que remete para o caminho de sofrimento de Cristo e para a Sua morte sacrificial.

Depois de Jesus morrer, um dos soldados espetou-lhe uma lança no flanco; assim se cumpriu a profecia de Zacarias 12,10: «e olharão para mim, a quem trespassaram.» Contrariamente ao que fizeram com os transgressores na cruz, os soldados não partiram as pernas a Jesus. Isto já ficara predefinido na primeira festa de Páscoa, quando Deus ordenou qual seria a forma de comer o cordeiro (Ex 12,46; Jo 19,36).

Estes exemplos mostram que o Antigo Testamento não descreve apenas a história do povo de Israel: na retrospetiva a partir da cruz, percebe-se que o Antigo Testamento está direcionado para Jesus Cristo. É n'Ele que o Antigo Testamento se cumpre (vide também 1.2.5.2).

3.4.9.7 Indicações de Jesus referentes ao Seu sofrimento e à Sua morte Voltar ao topo

Os Evangelhos relatam que o Senhor anunciara o Seu sofrimento e a Sua morte, mas também a Sua ressurreição, em variadas ocasiões. A título de exemplo, referem-se aqui algumas ocorrências:

  • Depois de Pedro ter confessado a Jesus: "Tu és o Cristo de Deus!", o Senhor disse aos Seus discípulos: «O Filho do Homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos doutores da Lei, tem de ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar» (Lc 9,22*).

  • Depois dos acontecimentos no monte da transfiguração, Jesus ensinou os Seus discípulos: «O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, e matá-lo-ão; e, morto ele, ressuscitará ao terceiro dia» (Mc 9,31).

  • Antes da Sua entrada em Jerusalém, o Senhor dirigiu-se aos doze: «o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e condená-lo-ão à morte. E o entregarão aos gentios, para que dele escarneçam, e o açoitem e crucifiquem, e ao terceiro dia ressuscitará» (Mt 20,18.19).

  • Quando os escribas e os fariseus quiseram ver sinais, Jesus remeteu-os para a história do profeta Jonas: «Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra» (Mt 12,40).

  • Por ocasião da purificação do templo, Ele disse algo semelhante: «Derrubai este templo, e em três dias o levantarei» (Jo 2,19). Só depois da Sua ressurreição é que os discípulos perceberam que Jesus Cristo na altura falara do templo que era o Seu próprio corpo (Jo 2,21.22).

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

3.4.9.8 Indicações referentes à morte sacrificial de Jesus nas epístolas dos apóstolos Voltar ao topo

A morte sacrificial de Jesus e o caminho à redenção que então se abriu para os homens, são temas centrais nas epístolas dos apóstolos. Por exemplo, na 1ª de João 3,16: «Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos» (cf. 1Pe 2,21-24).

A Epístola Aos Hebreus mostra a Nova Aliança em comparação com a Antiga Aliança e coloca o sacrifício de Cristo no fulcro da história de salvação. Os sumos sacerdotes da Antiga Aliança eram pecadores e mortais; o seu sacerdócio chegara ao fim. Mas Jesus Cristo é sem pecado e imortal; o Seu sacerdócio é incorruptível. Na Antiga Aliança, todos os sacerdotes tinham de repetir os seus sacrifícios, mas o sacrifício de Cristo foi feito uma única vez e ficou válido para sempre (Heb 9).

As afirmações sobre a morte sacrificial de Jesus nas epístolas dos apóstolos também foram feitas porque tinham surgido doutrinas falsas. Uma delas preconizava a existência de um mensageiro, que entraria no mundo e se tornaria Homem apenas aparentemente, mas que nunca sofreria nem morreria na cruz. Outras doutrinas falsas negavam a ressurreição do Senhor. O apóstolo Paulo opôs-se e disse «que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras» (1Cor 15,3.4).

Na 2ª aos Coríntios 5,19 descreve-se o significado da morte sacrificial de Jesus: «Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo».

3.4.9.9 A cruz Voltar ao topo

No centro do Evangelho está Jesus Cristo, que através da Sua morte na cruz e da Sua ressurreição criou a salvação eterna. A cruz de Cristo torna-se símbolo máximo do ato reconciliador de Deus nos homens pecadores. As palavras do apóstolo Paulo na 1ª aos Coríntios 1,18 mostram que existe um certo campo de tensões, no que se refere à interpretação da morte na cruz: «Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas, para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.» Em geral, a morte na cruz foi considerada como derrota, como fim ignomioso de um homem desprezado e expulso da sociedade humana. Mas aqui, segundo a sabedoria divina, a aparente derrota é, na verdade, uma vitória que se tornou o fundamento de uma obra de redenção de dimensões inexplicáveis.

No ato da ressurreição, Deus confirmou que o Crucificado é Cristo (Act 2,36); é n'Ele que é concedida a salvação eterna.

SÍNTESE Voltar ao topo

Os últimos dias que antecedem a morte sacrificial de Jesus são alvo de uma descrição detalhada nos Evangelhos: foi no círculo dos apóstolos que Jesus Cristo instituiu a Santa Ceia. Quando é preso, Ele é traído por Judas Iscariotes. Diante do Sinédrio, é acusado da blasfémia. (3.4.9; 3.4.9.1-3.4.9.3)

Devido ao envolvimento do governador romano Pilatos, a condenação e a execução Jesus deixaram de ser um assunto meramente relacionado com Israel, passando a estar envolvidos também os gentios. Ou seja, a humanidade em geral torna-se culpada da morte do Senhor. (3.4.9.4)

O Seu sofrimento, bem como a Sua morte, aconteceram em representação dos homens e, como tal, têm efeito salvífico. Como Sofredor e Moribundo, Jesus Cristo, o Mediador, reconcilia os homens com Deus e cria o meio de redenção do pecado e da morte. A Sua morte sacrificial na cruz abre aos homens o caminho para Deus. (3.4.9.5)

A morte sacrificial de Jesus confirma as indicações veterotestamentárias. Foi o próprio Jesus que anunciara o Seu padecimento e a Sua morte e a Sua ressurreição. Nas epístolas dos apóstolos é descrito o significado da morte sacrificial de Jesus. (3.4.9.6; 3.4.9.7; 3.4.9.8)

A cruz de Cristo torna-se símbolo máximo do ato reconciliador de Deus nos homens pecadores. (3.4.9.9)

3.4.10 Atuação de Jesus Cristo no reino dos mortos Voltar ao topo

Na 1ª de Pedro 3,18-20 está descrito que, após a Sua morte, o Filho de Deus pregara àqueles que, na época de Noé, tinham desobedecido. Ele fez isso para oferecer a salvação: «Porque por isso foi pregado o evangelho, também, aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, mas vivessem segundo Deus, em espírito» (1Pe 4,6). Ou seja, a ação salvífica de Cristo também abrange os mortos. Da forma como o Filho de Deus se dedicara aos pecadores na Terra, assim o foi fazer com aqueles que na sua vida terrena desrespeitaram a vontade divina.

Desde que Jesus fez o Seu sacrifício, também os mortos passaram a ter acesso à salvação (vide 9.6). Ele próprio disse: «vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão» (Jo 5,25).

Através da Sua morte sacrificial, o Filho de Deus tirou ao diabo o poder sobre a morte (Heb 2,14.15). Ele, Jesus Cristo, tem as chaves da morte e do inferno (Ap 1,18). Neste contexto, o termo "inferno" não designa o local da maldição, mas antes o local onde se encontram os falecidos, e a locução "ter as chaves" significa exercer o domínio.

De Romanos 14,9 consta o seguinte: «Foi para isto que morreu Cristo, e tornou a viver: para ser Senhor, tanto dos mortos, como dos vivos». Sendo o Senhor, Ele foi enaltecido pelo Pai que o colocou acima de todos: «Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que, ao nome de Jesus, se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra» (Fl 2,9.10).

O ingresso do Filho de Deus no reino dos mortos é o momento de triunfo do vencedor de Gólgota, que destruiu o poder da morte e lhe tirou o seu caráter eterno.

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A ação salvífica de Cristo também abrange os mortos. (3.4.9.10)

Jesus Cristo detém as chaves da morte e do inferno. O ingresso do Filho de Deus no reino dos mortos é o momento de triunfo do vencedor de Gólgota, que destruiu o poder da morte e lhe tirou o seu caráter eterno. (3.4.9.10)

3.4.11 Ressurreição de Jesus Cristo Voltar ao topo

A ressurreição de Jesus Cristo é um feito do Deus Trino, realizado de uma forma nunca antes vista:

  • Por um lado, este ato evidencia o poder de Deus, o Pai — Ele ressuscita Jesus dos mortos (Act 5,30-32).

  • Por outro, cumprem-se as palavras de Deus, o Filho: «tenho poder para a [a minha vida] dar, e poder para tornar a tomá-la» (Jo 10,18).

  • Por fim, dá-se testemunho da ação de Deus, do Espírito Santo: «E, se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita» (Rm 8,11).

Jesus Cristo ressuscitou sem que algum ser humano tivesse sido testemunha ocular deste processo. No entanto, a Escritura Sagrada relata os muitos testemunhos dados em relação à ressurreição do Filho de Deus. Um deles é o sepulcro vazio, testemunhado pelas discípulas e pelos discípulos. Outros testemunhos são as diversas aparições do Senhor ao longo dos quarenta dias entre a Sua ressurreição e ascensão. A ressurreição de Jesus Cristo não é nenhuma fantasia do Seu séquito, talvez por quererem que a posteridade venha a acreditar num milagre; nem tão pouco é expressão de uma ideologia mitológica — a ressurreição de Cristo é uma realidade dentro da história; ela aconteceu na realidade.

3.4.11.1 Significado salvífico da ressurreição de Jesus Cristo Voltar ao topo

A ressurreição de Jesus é a prova do poder de Deus sobre a morte. Este poder é inerente à natureza de Jesus Cristo enquanto Filho de Deus.

Na ressurreição de Jesus Cristo cumpriram-se promessas veterotestamentárias (Lc 24,44-46; Os 6,2) e também as profecias que o próprio filho de Deus tinha feito antes (Mc 9,30.31; 10,34).

Sem a crença na Sua ressurreição, a em Jesus Cristo é vã: «E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã também a vossa » (1Cor 15,14). Só através da ressurreição de Cristo é que o crente obtém uma esperança fundamentada em alcançar a vida eterna, porque através dela é que foi criada a possibilidade de abolir a morte instituída pelo pecado original de Adão e a subsequente separação entre o homem e Deus (1Cor 15,21.22).

A profissão de fé em Jesus enquanto Cristo e a crença na Sua ressurreição têm um significado fundamental para a salvação do homem (1Pe 1,3-12). Esta crença na ressurreição da primícia, Cristo, dos mortos representa o fundamento da crença na ressurreição dos mortos em Cristo e na transformação dos vivos no momento da Sua revinda: «os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados» (1Cor 15,52).

3.4.11.2 Aparições do Ressuscitado Voltar ao topo

Quando Maria Madalena e outras mulheres chegaram ao sepulcro, logo de madrugada, viram que a pedra tinha sido removida e o sepulcro estava vazio. Elas tornam-se as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus, acabada de ocorrer. Um anjo anunciou-lhes que Jesus ressuscitara (Mt 28,5.6). Mais tarde, o Ressuscitado deu-se a conhecer a Maria Madalena; e também teve um encontro com Pedro e os restantes apóstolos.

As aparições pós-pascais do Senhor documentam que Jesus Cristo ressuscitou verdadeiramente. Trata-se de pessoas identificadas por nome, a quem Ele se mostrou e que O conheciam. Desta forma, fica sem fundamento qualquer especulação de que os discípulos teriam roubado o corpo para dar a ideia de ter havido uma ressurreição (Mt 28,11-15).

Quando aparecia, o Ressuscitado Filho de Deus dava aos Seus discípulos orientações e indicações referentes àquilo que no futuro teria de ser feito. Ensinou-os, deu-lhes poderes e missões.

Aos discípulos de Emaús, o Senhor explicou as Escrituras e partiu o pão com eles (Lc 24,25-35).

No final do dia em que ressuscitou, Ele entrou no círculo dos Seus discípulos. A Sua saudação «Paz seja convosco!» tirou-lhes o medo e deu-lhes confiança. E o Senhor deu-lhes uma missão: «assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós.» Como Ressuscitado e Senhor sobre a morte e o pecado, Ele concedeu aos Seus apóstolos o poder e a capacidade necessários, soprando sobre eles e dizendo: «Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverdes lhes são retidos» (Jo 20,19-23).

Numa outra ocasião, o Senhor apareceu diante de alguns discípulos, junto do mar de Tiberíades. O apóstolo Pedro foi incumbido de apascentar os cordeiros e as ovelhas de Cristo, ou seja, a Sua Igreja (Jo 21,15-17).

O Senhor ressuscitado mostrou-se aos Seus apóstolos «vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando do que respeita ao reino de Deus» (Act 1,3; cf. Jo 21,1-14).

Foi este o testemunho da ressurreição de Cristo que os apóstolos levaram consigo para o mundo inteiro. Na 1ª aos Coríntios 15,6 o apóstolo Paulo afirma que o Senhor terá sido visto, depois de ressuscitado, por mais de quinhentos irmãos ao mesmo tempo. E, por fim, relata que, por último, ele próprio também viu o Senhor. No entanto, o acontecimento a que ele se refere, quando ia a caminho de Damasco (Act 9,3-6), tem um caráter diferente: no caso, trata-se de uma manifestação do Cristo enaltecido, vinda do céu. Os verdadeiros testemunhos da ressurreição de Cristo, no sentido literal da palavra, foram apenas aqueles que viram Cristo, na terra, no período entre a Sua ressurreição e a Sua ascensão.

3.4.11.3 Corpo ressuscitado de Jesus Cristo Voltar ao topo

O corpo ressuscitado de Jesus Cristo é um corpo glorificado. A Sua ressurreição não significa o regresso a uma existência terrena; é totalmente diferente da ressuscitação de Lázaro (Jo 11,17-44), por exemplo, que, mais tarde, acabou por morrer de novo como qualquer mortal. O Cristo ressuscitado foi tirado definitivamente da morte: «Sabendo que, havendo Cristo ressuscitado dos mortos, já não morre; a morte não terá mais domínio sobre ele» (Rm 6,9). Deus ressuscitou Jesus e não entregou o Seu corpo à corrupção (Act 13,34.35).

Cristo vive no poder de Deus (2Cor 13,4). Depois da ressurreição, o Seu corpo glorificado foi tirado da efemeridade e mortalidade da carne; não ficando ligado ao espaço nem ao tempo. Foi nesse corpo que o Senhor apareceu junto dos Seus discípulos (Lc 24,36), atravessou portas fechadas (Jo 20,19.26), partiu o pão com os discípulos (Lc 24,30), lhes mostrou as Suas chagas e comeu com eles (Lc 24,40-43). Desta forma, deixou bem claro que não estava com eles como se fosse um "espírito", mas antes como Jesus Cristo em presença física.

O apóstolo Paulo compara o corpo ressuscitado de Cristo com o corpo que os mortos em Cristo terão depois da sua ressurreição. Trata-se de um corpo espiritual, que ressuscitará em glória e em força (1Cor 15,42-44). No momento da transformação, aquando da revinda de Cristo, os vivos recebem um corpo idêntico ao corpo glorificado de Cristo (Fl 3,21).

3.4.12 Ascensão de Jesus Cristo Voltar ao topo

Quarenta dias após a Sua ressurreição, Jesus Cristo ascendeu do círculo dos Seus apóstolos para junto de Deus, Seu Pai, ao céu. Antes de partir ainda lhes disse «que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai», quando disse «sereis baptizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias» (Act 1,4.5).

Enquanto Jesus abençoava os apóstolos, foi «elevado às alturas»; e uma nuvem ocultou-o aos seus olhos. Enquanto ainda estavam ali, a vê-lo partir, dois homens vestidos de branco apareceram junto deles e disseram: «Varões galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que de entre vós foi recebido em cima, no céu, há-de vir, assim, como para o céu o vistes ir» (Act 1,11). Contrariamente ao acontecimento da ressurreição, o qual não teve testemunhas oculares, os apóstolos presenciaram pessoalmente a Ascensão de Cristo. Reconheceram que o Ressuscitado foi enaltecido e voltou para junto do Pai. A natureza humana do Senhor passa definitivamente para a glória divina. Sendo cumpridas as palavras: «Saí do Pai, e vim ao mundo; outra vez deixo o mundo, e vou para o Pai» (Jo 16,28).

De Marcos 16,19 consta o seguinte: «Ora o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de Deus.» Ou seja, Ele não foi, enquanto sumo sacerdote da Antiga Aliança, para um santuário feito por mãos «porém no mesmo céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus» (Heb 9,24). À dextra de Deus intercede pelos Seus eleitos (Rm 8,33.34).

A imagem de Cristo estar sentado à dextra de Deus mostra como Ele toma parte na plenitude dos poderes e da glória de Deus, Seu Pai. Futuramente, Ele quer partilhar esta glória com os Seus: «Pai, aqueles que me deste, quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste» (Jo 17,24). Isso acontecerá quando Cristo arrebatar os Seus, de entre os mortos e os vivos, para junto d'Ele para que eles estejam com Ele para sempre (1Ts 4,15-17).

SÍNTESE Voltar ao topo

A ressurreição de Jesus Cristo é um ato do Deus Trino. Decorreu sem testemunhas oculares; no entanto, o Ressuscitado foi visto por muitas testemunhas. A Sua ressurreição não é apenas uma fantasia desejada, nem tão pouco é expressão de uma racionalidade mitológica: ela ocorreu na realidade. (3.4.11)

Através da ressurreição de Jesus, o crente obtém uma esperança justificada de alcançar a vida eterna: é o momento em que é criada a possibilidade de anular a morte fundamentada no pecado original de Adão e a separação do Homem em relação a Deus daí resultante. (3.4.11.1)

A crença na ressurreição da primícia, Cristo, dos mortos representa o fundamento da crença na ressurreição dos mortos em Cristo e na transformação dos vivos no momento da Sua revinda: (3.4.11.1)

O Senhor Ressuscitado mostrou-se às discípulas e aos discípulos; o Novo Testamento aborda múltiplas vezes encontros com o Ressuscitado. Foi este o testemunho da ressurreição de Cristo que os apóstolos levaram consigo para o mundo inteiro. (3.4.11.2)

Depois da ressurreição, o corpo glorificado de Jesus foi tirado da efemeridade e mortalidade da carne; não ficando ligado ao espaço nem ao tempo. (3.4.11.3)

Quarenta dias após a Sua ressurreição, Jesus Cristo ascendeu do círculo dos Seus apóstolos para junto de Deus, Seu Pai, ao céu. A natureza humana do Senhor passa definitivamente para a glória divina. (3.4.12)

Contrariamente ao acontecimento da ressurreição, o qual não teve testemunhas oculares, os apóstolos presenciaram pessoalmente a Ascensão de Cristo. Foi quando lhes foi prometida a revinda de Cristo. (3.4.12)

3.4.13 Jesus Cristo como cabeça da Igreja Voltar ao topo

Jesus Cristo regressou para junto do Pai. Mas, mesmo depois da Sua ascensão, Ele está presente na Terra, no Espírito Santo. Ele, a quem foi dado todo o poder, tanto no céu como na terra, cumpre, assim, a Sua promessa: «e eis que estou convosco todos os dias, até à consumação do século» (Mt 28,20). O Espírito Santo glorifica Cristo (Jo 16,14) e dá testemunho da Sua presença na Igreja.

De vez em quando, o apóstolo Paulo usa a imagem do «corpo de Cristo» quando se refere à Igreja. Num hino, um cântico de louvor a Deus, Cristo é por ele designado como «cabeça do corpo da igreja» (Cl 1,18).

A Igreja do Senhor tem muitos membros e um só corpo «pois todos nós fomos baptizados em um Espírito, formando um corpo» (1Cor 12,13). Este simbolismo mostra claramente que a Igreja do Senhor não é uma instituição nem uma organização. A Igreja do Senhor é antes o somatório de todos os seus membros — é um organismo vivo, dirigido por Cristo, a cabeça. É uma dádiva de Deus e está fora do acesso do homem (vide 6).

3.4.14 Jesus Cristo como cabeça da criação Voltar ao topo

De acordo com Efésios 1,20-23*, Cristo está colocado sobre tudo, como cabeça, «muito acima de todo o Poder, Principado, Autoridade, Potestade e Dominação e de qualquer outro nome que seja nomeado, não só neste mundo, mas também no que há-de vir.» Enquanto "Logos" (vide 3.4.2), Cristo é primogénito de toda a criação: «[...] nele foram criadas todas as coisas que há, nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, [...];tudo foi criado por ele e para ele» (Cl 1,16). Foi através d'Ele que Deus fez o mundo (Heb 1,2). Enquanto cabeça da criação, Cristo conduz o Homem concupiscente para fora «da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus» (Rm 8,19-22). Isso também se refletirá na criatura e se concretizará na nova criação: «...e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas» (Ap 21,4).

SÍNTESE Voltar ao topo

Mas, mesmo depois da Sua ascensão, Jesus Cristo continua presente na terra através do Espírito Santo. (3.4.13)

O Novo Testamento usa a imagem metafórica do "corpo de Cristo". Isso mostra que a comunidade de Jesus Cristo não é uma instituição ou organização, mas antes um organismo vivo, dirigido por Cristo, que é a cabeça desse corpo. (3.4.13)

Enquanto "Verbo", o Filho de Deus é o Primogénito de toda a criação. Através d'Ele, Deus criou o mundo. (3.4.14)

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

3.4.15 Promessa da revinda de Jesus Cristo Voltar ao topo

A promessa da revinda de Jesus Cristo é um elemento central da proclamação neotestamentária. Termos como "dia do Senhor", "dia de Cristo", "futuro do nosso Senhor", "manifestação da glória de Cristo", "aparição", "revinda do Senhor" descrevem todos o mesmo acontecimento: Cristo voltará e levará os Seus de entre os mortos e os vivos. Este acontecimento não é o Juízo Final, mas antes o ato através do qual a esposa de Cristo é levada para as bodas do Cordeiro (Ap 19,7).

São muitos os testemunhos bíblicos referentes à promessa da revinda de Cristo, que se encontram ao longo de todo o Novo Testamento:

  • Primeiro, é o próprio Senhor, quando disse aos Seus apóstolos: «E, se eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que, onde eu estiver, estejais vós, também» (Jo 14,3). E advertiu os Seus discípulos para serem vigilantes e estarem preparados: «Portanto, estai vós, também, apercebidos; porque virá o Filho do homem à hora que não imaginais» (Lc 12,40). Nas parábolas da vinda do Filho do homem (vide 3.4.8.6) é dada ênfase ao facto de o dia de Cristo vir de repente e provocar uma separação: alguns serão aceites, outros ficarão para trás.

  • Outra ocorrência é a dos anjos, que, no dia da ascensão de Jesus, prometeram aos apóstolos a Sua revinda (Act 1,11).

  • E nas epístolas dos apóstolos fica sublinhada a revinda de Cristo. Alguns exemplos: a 1ª de João 3,2 descreve, em poucas palavras, o futuro grandioso dos filhos de Deus, que, no momento da completação, serão semelhantes ao Senhor. O apóstolo Tiago exorta os crentes a serem pacientes até o Senhor vir «porque já a vinda do Senhor está próxima» (Tg 5,8). O autor da Epístola Aos Hebreus também pede paciência: «Porque, ainda um poucochinho de tempo, e o que há-de vir virá, e não tardará» (Heb 10,37). Quando Cristo vier pela segunda vez, Ele aparecerá «aos que o esperam para salvação» (Heb 9,28).

  • A segunda epístola de Pedro é dirigida a todos aqueles que negam o cumprimento da promessa da revinda de Cristo. E também exclui a eventualidade de um atraso no cumprimento desta promessa (2Pe 3,9).

  • O apóstolo Paulo confirma a promessa da revinda de Cristo e retoma este acontecimento repetidas vezes nas cartas que escreve, fazendo aí afirmações concretas sobre a ressurreição dos mortos em Cristo e sobre a transformação dos vivos no dia do Senhor (1Ts 4,13-18). Esse dia virá «como um ladrão de noite» (1Ts 5,2). E na primeira epístola aos Coríntios, o apóstolo termina a carta com uma saudação: «Maranata» (1Cor 16,22) — "o Senhor vem".

  • No Apocalipse de João é novamente o Filho de Deus que mostra o que acontecerá em breve (Ap 1,1). A exclamação «Certamente cedo venho» é a mensagem central do Apocalipse. E o Espírito e a Esposa respondem: «Ámen. Ora vem, Senhor Jesus!» (Ap 22,12.20).

Os textos bíblicos acima citados falam da revinda de Cristo como sendo um acontecimento prestes a surgir e que virá com toda a certeza, que trará salvação e comunhão em e com Cristo e que, por isso mesmo, dará consolação nas tristezas e aflições (Rm 8,17.18). Assim sendo, a promessa da revinda de Cristo é uma feliz mensagem para toda a humanidade. Aqueles que aceitaram Cristo, que trazem dentro si o Seu espírito e a Sua vida, e que, apesar da sua propensão para o pecado, se mantêm firmes na palavra: «que é Cristo em vós, esperança da glória» (Cl 1,27), esses são aqueles que vivenciarão em si o cumprimento da promessa.

SÍNTESE Voltar ao topo

A promessa da revinda de Cristo é um elemento central da proclamação neotestamentária. Esta revinda de Cristo não está associada ao Juízo Final. É antes o momento em que Cristo levará consigo aqueles que trazem dentro de si o Seu espírito e a Sua vida, tanto de entre os mortos como de entre os vivos. (3.4.15)

Testemunhos relacionados com a revinda de Cristo encontram-se em todo o Novo Testamento. Todas as ocorrências falam dela como de um acontecimento que está prestes a ocorrer e que virá seguramente. (3.4.15)

3.5 Deus, o Espírito Santo Voltar ao topo

A Escritura Sagrada fala com frequência do Espírito Santo, do Espírito de Deus. Ela prova que o reconhecimento de Deus só pode ser alcançado através do Espírito de Deus: «Assim, [...] ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus» (1Cor 2,11). O apóstolo Paulo estabelece uma relação incondicional entre o reconhecimento de que Jesus é o Senhor e o Espírito Santo: «ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo» (1Cor 12,3).

No terceiro artigo de , é confessado: «Creio no Espírito Santo». Esta afirmação corresponde à redação do «Credo dos Apóstolo(vide 2.2.1). A redação do Credo Niceno-Constantinopolitano é bastante mais vasta: «Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos Profetas.»

O Espírito Santo é verdadeiro Deus. Parte do Pai e do Filho e vive eternamente em comunhão com eles. Ele participa na criação (vide 3.3.1) e na história de salvação. O Espírito Santo é uma pessoa divina (vide 3.1.1) que é adorada e glorificada juntamente com o Pai e o Filho, como Senhor.

Na Escritura Sagrada, o Espírito Santo também é designado de «Espírito de Deus» (Gn 1,2; Rm 15,19 e outros), «Espírito do Senhor» (1Sm 16,13; 2Cor 3,17 e outros), «Espírito de verdade» (Jo 16,13), «Espírito de [Jesus] Cristo» (Rm 8,9; Fl 1,19), «Espírito de seu filho» (Gl 4,6) e «Espírito da glória de Deus» (1Pe 4,14).

O Novo Testamento fala do Espírito Santo como Consolador para sempre (Jo 14,16), e também como "força"*, "virtude" e "dom" (Act 1,8; 2,38). Esta força de Deus é prometida e enviada pelo Pai e pelo Filho. No ato do Santo Selamento, que juntamente com o Santo Batismo com Água traz a regeneração de água e espírito, o Espírito Santo é transmitido como força e dom, adquirindo o crente, assim, a filiação divina.

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

3.5.1 O Espírito Santo como pessoa divina Voltar ao topo

Desde o início, Deus sempre se manifestou ao Homem (vide 1.1). Já na criação, Deus fala e age como pessoa. A personificação faz parte da natureza de Deus (vide 3.2.4) e manifesta-se no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Como o Pai e o Filho, assim também o Espírito Santo é orador e regente, abordado e adorado; também Ele é «Senhor» (2Cor 3,17).

Ao Espírito Santo é atribuída uma majestade divina. Da indicação do apóstolo Pedro em Actos 5,3.4, deduz-se o seguinte: quem mente ao Espírito Santo, mente a Deus. Que o Espírito Santo é uma pessoa, percebe-se pelo facto de ele enviar homens para proclamarem o Evangelho (Act 13,4), de comunicar com o espírito do Homem (Rm 8,16) e de representar o orador diante Deus (Rm 8,26).

A atuação do Espírito Santo evidencia-se nas situações seguintes:

3.5.1.1 O Espírito Santo na unicidade com o Pai e o Filho Voltar ao topo

O Credo Niceno-Constantinopolitano (vide 2.2.2) exprime que o Espírito Santo parte do Pai e do Filho. Pai e Filho são ambos enviadores do Espírito Santo, segundo as palavras de Jesus: «Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei-de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim» (Jo 15,26). O Espírito Santo parte do Pai (Jo 14,26) e é enviado pelo Filho, ou seja, também parte d'Ele (Jo 16,7). Assim sendo, o Espírito Santo tanto é o espírito do Pai como também é o espírito do Filho. Estas palavras de Jesus também o expressam: «Ele [o Espírito Santo] me glorificará, porque há-de receber do que é meu, e vo-lo há-de anunciar. Tudo quanto o Pai tem é meu» (Jo 16,14.15).

Assim sendo, só se consegue compreender o que é o Espírito Santo, olhando para a unicidade das naturezas do Pai e do Filho. Tal como o Pai e o Filho, o Espírito Santo é "Deus verdadeiro de Deus verdadeiro". Ele não foi criado e faz parte do ser do Pai e do Filho e atua, tal como eles, eternamente.

3.5.1.2 O Espírito Santo e a encarnação do Filho de Deus Voltar ao topo

Um acontecimento central da história de salvação é a personificação de Deus em Jesus Cristo. A virgem Maria engravidou do Espírito Santo (Mt 1,18; Lc 1,35). A afirmação bíblica é retomada na profissão de fé nova-apostólica: "Creio em Jesus Cristo, [...] o qual foi concebido pelo Espírito Santo, e nasceu da virgem Maria".

É igualmente o Espírito Santo que é testemunho do envio do Filho. A autoridade divina do Filho de Deus encarnado é evidenciada pela descida do espírito durante o batismo de Jesus no rio Jordão (Mt 3,16.17; Jo 1,32-34). Nesse ato, Jesus, na Sua forma humana, recebe a unção com o Espírito Santo através da qual Deus confirma Jesus como o Messias, o "Ungido". Em casa de Cornélio, o apóstolo Pedro ensinou: «Esta palavra, vós bem sabeis, veio por toda a Judeia, começando pela Galileia, depois do baptismo que João pregou. Como Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude» (Act 10,37-38). O facto de o Espírito Santo estar permanentemente presente no Filho de Deus encarnado é testemunhado nos Evangelhos (Lc 4,1.14.18.21 e outros).

SÍNTESE Voltar ao topo

A Escritura Sagrada prova que o reconhecimento de Deus só pode ser alcançado através do Espírito de Deus. (3.5)

O Espírito Santo é verdadeiro Deus. Parte do Pai e do Filho e vive eternamente em comunhão com eles. O Espírito Santo é uma pessoa divina que é adorada e glorificada juntamente com o Pai e o Filho, como Senhor. (3.5)

O Novo Testamento também fala d'Ele como "Consolador" e "Sustentador", "Força" e "Dádiva de Deus". No ato do Santo Selamento, o Espírito Santo é administrado como força e dádiva. (3.5)

A personificação faz parte da natureza de Deus e manifesta-se no Pai, no Filho e no Espírito Santo. (3.5.1)

O Espírito Santo parte do Pai e do Filho. Tal como o Pai e o Filho, o Espírito Santo é Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Ele não foi criado e faz parte do ser do Pai e do Filho e atua, tal como eles, eternamente. (3.5.1.1)

A encarnação de Deus em Jesus Cristo foi originada pelo Espírito Santo, porque a virgem Maria engravidou através d'Ele. O Espírito Santo deu testemunho do envio do Filho quando Jesus foi batizado no rio Jordão. Foi nesse ato que se efetuou em Jesus, na Sua natureza humana, a unção com o Espírito Santo. Foi assim que Deus confirmou que Jesus era o Messias, o "Ungido". (3.5.1.2)

3.5.2 O Espírito Santo como força — o dom do Espírito Santo Voltar ao topo

O termo grego "pneuma", que normalmente é traduzido com "espírito", também tem, como o termo hebraico "ruach" e o termo latim "spiritus", outros significados, entre eles "vento, fôlego, espírito de vida". O texto bíblico de Génesis 2,7 fala do espírito como «fôlego da vida» vindo de Deus. É ele que traz a vida em si, provando ser uma força divina vital.

No decorrer da história de salvação, reconhece-se o espírito de Deus como força que arrebata o ser humano e o torna apto a ser uma ferramenta na mão de Deus. Esta força consegue influenciar, preencher e até renovar o homem (Tt 3,5).

Jesus Cristo agia com a força do espírito e o «poder do Senhor levava-o a realizar curas» (Lc 4,14; Lc 5,17*). Pouco antes da Sua ascensão, o Senhor ressuscitado prometeu aos apóstolos: «Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós» (Act 1,8).

Após o seu discurso no dia de Pentecostes, o apóstolo Pedro prometeu, àqueles que se deixassem batizar, que iriam receber o dom do Espírito Santo (Act 2,38).

Deus oferece este dom no ato da imposição da mão e oração de um apóstolo, tal como o mostra de forma exemplar o acontecimento na Samaria (Act 8,14-17). O crente é preenchido pelo Espírito Santo e, ao mesmo tempo, pelo amor de Deus (Rm 5,5).

É preciso distinguir entre o Espírito Santo como um dom dado por Deus e o Espírito Santo como personificação da divindade. O dom do Espírito Santo é transmitido através de Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

* Bíblia da Difusora Bíblica. Edição e copyright, vide «Observações referentes à redação dos textos».

3.5.3 Testemunhos da atuação do Espírito Santo na época do Antigo Testamento Voltar ao topo

Devido à natureza eterna do Espírito Santo na unicidade com o Pai e o Filho, o espírito era e continua a ser eficaz no ato da criação e na história de salvação. Por assim ser, a Escritura Sagrada dá testemunho, em muitos dos seus textos, da atuação do espírito na época veterotestamentária, embora nessa época ainda não existisse a perceção da natureza trinitária de Deus e não houvesse, ainda, a transmissão do espírito no sentido neotestamentário. Na época da Antiga Aliança, foram proferidas promessas através do Espírito Santo relativamente à vinda do Messias e à edificação da Nova Aliança.

3.5.3.1 O Espírito de Deus Voltar ao topo

«E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas» (Gn 1,2). Este texto bíblico mostra que o Deus Trino, isto é, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, atua com poder criador (cf. Gn 1,26).

Quando o Antigo Testamento fala do "espírito de Deus", é do Espírito Santo que se trata. Ainda não é evidenciado na sua personalidade própria, apenas é descrito como força impressionante e criadora de vida.

Os exemplos da atuação do espírito de Deus são-nos transmitidos, da época de Moisés (Ex 31,3; Nm 11,25-29) e da época dos juízes em Israel (Jz 3,10; 6,34; 11,29; 13,25), que, tomados pelo espírito de Deus, conduziram o povo do Senhor, cheios de coragem e força, para o combate contra os seus inimigos.

Também os reis do povo de Israel foram preenchidos pelo espírito de Deus. Exemplos são Saúl (1Sm 10,6) e David (1Sm 16,13). Mais tarde, Jesus Cristo mencionou a atuação do Espírito Santo através do rei David, quando disse: «O próprio David disse, pelo Espírito Santo: O Senhor disse ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés» (Mc 12,36). Tanto aqui, como também noutros textos bíblicos do Novo Testamento (Act 1,16; 4,25 e outros), é notório que já David se referia a Jesus Cristo, inspirado pelo Espírito Santo.

Na época veterotestamentária, o Espírito Santo só preenchia o ser humano temporariamente e não - como na Nova Aliança - a título permanente, em forma de dom sacramental (1Sm 16,14; Sl 51,11).

3.5.3.2 Atuação do Espírito Santo nos livros proféticos veterotestamentários Voltar ao topo

Tanto o Antigo como o Novo Testamento comprovam que o Espírito Santo atuou nos profetas e que falou através deles (Ez 11,5; Mq 3,8; Zc 7,12; Act 28,25). No Novo Testamento, dá-se especial ênfase ao facto de os profetas terem anunciado a vinda de Jesus Cristo: «Mas Deus assim cumpriu o que já dantes, pela boca de todos os seus profetas, havia anunciado, que o Cristo havia de padecer» (Act 3,18).

SÍNTESE Voltar ao topo

Jesus Cristo atuou na força do espírito. Antes da Sua ascensão, Ele prometeu aos apóstolos, que a força do Espírito Santo viria sobre eles. (3.5.2)

O dom do Espírito Santo é oferecido por Deus através da imposição das mãos e da oração de um apóstolo. É preciso distinguir entre o Espírito Santo como um dom dado por Deus e o Espírito Santo como personificação da divindade. (3.5.2)

Na época veterotestamentária, o Espírito Santo só preenchia o Homem temporariamente e não, como na Nova Aliança, de forma permanente, como dádiva sacramental. (3.5.3)

Exemplos da atuação do Espírito Santo são dados no tempo de Moisés, dos Juízes e Reis em Israel; o Espírito Santo também atuou nos profetas. (3.5.3.1; 3.5.3.2)

3.5.4 Promessa do Espírito Santo por Jesus Cristo Voltar ao topo

Jesus Cristo anunciou aos Seus apóstolos, antes de voltar para junto do Pai, que o Espírito Santo viria como "consolador" e "espírito da verdade". E também prometeu o Espírito Santo, como sustentador divino e como força vinda do alto, que seria dado aos Seus.

Jesus também frisou que a Sua partida deste mundo seria a condição prévia para a vinda do Espírito Santo como consolador (Jo 16,7). E a transmissão do Espírito Santo como dom também só ocorreu depois de Cristo ter sido glorificado através da Sua morte, da Sua ressurreição e do Seu regresso para junto do Pai (Jo 7,39).

3.5.4.1 O Consolador Voltar ao topo

Jesus Cristo é conselheiro e defensor dos Seus (Mt 28,20; 1Jo 2,1). Nos discursos de despedida, antes de ser preso e crucificado, Ele prometeu mais um consolador, o "Paracleto" (derivado do termo grego "parakletos": "sustentador", "advogado", "ajudante" ou "consolador"): «E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre [...] Mas, aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito» (Jo 14,16.26). O Espírito Santo é esse "outro" consolador e sustentador que permanece na comunidade. É Ele que dá testemunho de Jesus Cristo e O glorifica (Jo 16,14).

Desde a Ascensão do Senhor e do derramamento do Espírito Santo, no Pentecostes, é Ele que mantém vivo o Evangelho entre os seguidores de Cristo e quem os conforta (Mt 10,19.20).

3.5.4.2 O Espírito da verdade Voltar ao topo

Jesus Cristo também designou o Espírito Santo de «Espírito da verdade» (Jo 15,26). Este espírito evidencia o que é do agrado de Deus e o que é contrário à vontade de Deus: «E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo» (Jo 16,8). O Espírito Santo identifica claramente a verdade e a mentira (Act 13,9-10).

Durante a Sua atuação na Terra, o Senhor ainda não foi exaustivo nas Suas explanações sobre a verdade e o decorrer da história da salvação, mas deu indicações relativas às manifestações futuras do Espírito Santo: «Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há-de vir» (Jo 16,12.13). E é desta forma que o Espírito Santo também atua no presente (vide 1.3).

Tudo o que o espírito da verdade manifesta está relacionado com o ser e a obra de Cristo. Ele dá testemunho da regência do Filho de Deus (1Cor 12,3). Ele confessa que Jesus Cristo «veio em carne» (1Jo 4,2) e transmite o conhecimento de que Jesus veio como Filho, partindo do Pai, e de que vai regressar.

3.5.4.3 A força vinda do alto Voltar ao topo

Antes da Sua ascensão, o Senhor ressuscitado prometeu aos Seus apóstolos: «E eis que sobre vós envio a promessa do meu Pai: Ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder» (Lc 24,49). Estava a anunciar o derramamento do Espírito Santo, tal como já tinha sido anunciado por Deus, o Pai, através do profeta Joel (Jl 2,28.29). Em Pentecostes, a promessa cumpriu-se; foi, ao mesmo tempo, o início da atuação dos apóstolos em público.

A locução "força vinda do alto" (em grego: "dynamis" = "força") dá a noção do efeito preenchedor, propulsor e tonificante da atuação do Espírito e remete para uma intervenção poderosa por parte de Deus. Tal como o Pai e o Filho se manifestam dentro do mundo histórico, a automanifestação de Deus ocorre no Espírito Santo, no Pentecostes, como acontecimento pertencente à história de salvação. O Espírito Santo fortifica a Igreja de Cristo no seu esforço de tentar viver segundo o agrado de Deus, preparando-se, assim, para a revinda de Cristo.

SÍNTESE Voltar ao topo

Jesus Cristo, Sustentador e Advogado dos Seus discípulos, prometeu mais um Consolador. É ele que dá testemunho d'Ele e O glorifica, é ele que mantém o Evangelho vivo entre os seguidores de Cristo e é ele que apoia a comunidade. (3.5.4; 3.5.4.1)

Jesus Cristo também deu ao Espírito Santo o nome "Espírito da verdade". O Espírito Santo define a verdade e a mentira. (3.5.4.2)

Jesus remeteu para manifestações futuras do Espírito Santo. Todas elas estão relacionadas com a natureza de Cristo e a Sua obra. (3.5.4.2)

A locução "força vinda do alto" (ou "poder do alto") remete para a intervenção poderosa de Deus na atuação do Espírito Santo. (3.5.4.3)

A automanifestação de Deus no Espírito Santo ocorreu no Pentecostes. Foi, ao mesmo tempo, o início da atuação dos apóstolos em público. (3.5.4.3)

3.5.5 Espírito Santo e Igreja Voltar ao topo

As cartas neotestamentárias exprimem que o Espírito Santo estava presente nas igrejas cristãs primitivas. Jesus Cristo prometeu e enviou o Espírito Santo como sustentador e consolador aos Seus discípulos. A Igreja é designada como "casa de Deus", "morada de Deus" ou "templo de Deus" (1Tm 3,15; Ef 2,22; 2Cor 6,16).

Na Antiga Aliança, o templo é a habitação de Deus entre o Seu povo (1Rs 8,13). Esta imagem é retomada no Novo Testamento e usada para exemplificar a presença permanente de Deus e, por conseguinte, também a presença do Espírito Santo na Igreja. Os crentes devem ser edificados «como pedras vivas» e «casa espiritual» (1Pe 2,5).

3.5.5.1 Derramamento do Espírito Santo no Pentecostes Voltar ao topo

O derramamento do Espírito Santo no Pentecostes manifesta que Deus é trino: Pai, Filho e Espírito Santo (vide 3.1.1). O Espírito Santo enviado pelo Pai e pelo Filho preencheu os apóstolos e todos aqueles que estavam com eles.

É aqui que a Igreja de Cristo (vide 6.4.2) se torna experienciável no plano histórico. Este acontecimento mostra que o Espírito Santo é uma condição prévia para a Igreja: a Igreja e o Espírito Santo pertencem um ao outro.

Nas igrejas dirigidas pelos apóstolos, o Espírito Santo está permanentemente presente, nelas existe vida divina, que se evidencia na atuação e na palavra dos apóstolos e que também se deve evidenciar nas palavras e nos atos de cada um dos crentes (Rm 8,14).

Ao receber o dom do Espírito Santo, o Homem torna-se filho de Deus e entra na comunhão com o Trino. Para aqueles que serão arrebatados para junto do Senhor, esta comunhão culminará na plenitude quando Cristo regressar.

3.5.5.2 Atuação do Espírito Santo nos sacramentos Voltar ao topo

A força transmissora de salvação contida nos sacramentos deve-se ao facto de todas as três pessoas divinas intervirem neste ato.

Assim sendo, no ato do Santo Batismo com Água, o Espírito Santo também é uma das forças atuantes: Deus — Pai, Filho e Espírito Santo — conduz o batizado para fora do seu estado de afastamento de Deus (vide 8.1).

A consagração de pão e vinho para a Santa Ceia só é possível porque o Espírito Santo intervém neste ato. Assim sendo, a força do Espírito Santo gera uma realidade divina através de palavras humanas. Uma Santa Ceia plenamente válida, ou seja, a verdadeira presença do corpo e do sangue de Cristo, verifica-se quando é suportada pela força do Espírito Santo e quando a consagração dos elementos da Santa Ceia é realizada com base nos poderes concedidos pelos apóstolos (vide 8.2.12).

A mediação do dom do Espírito Santo através de um apóstolo ocorre no sacramento do Santo Selamento, o batismo com o Espírito. Neste ato, são dados ao Homem a força de Deus, a vida de Deus e o amor de Deus. Na regeneração por água e espírito, o Espírito Santo faz do Homem habitação de Deus (Rm 8,9).

3.5.5.3 Atuação do Espírito Santo no ministério de apóstolo Voltar ao topo

Os apóstolos exercem o seu ministério com a força do Espírito Santo. A atuação do Espírito Santo confere aos seus atos uma autoridade especial. Isso evidencia-se na administração e mediação correta dos sacramentos, na proclamação correta do Evangelho com base na Escritura Sagrada, no manter viva a promessa da revinda de Cristo e, através disso, na preparação da Sua Igreja-noiva para a Sua revinda. Através dos apóstolos da atualidade, o Espírito Santo atua com a mesma plenitude que na época dos primeiros apóstolos.

SÍNTESE Voltar ao topo

O Espírito Santo estava presente na igreja cristã primitiva. A Igreja é intitulada "casa de Deus“, "morada de Deus" ou "templo de Deus". Isso evidencia a presença do Espírito Santo dentro da Igreja. (3.5.5)

O Espírito Santo é um pré-requisito necessário para a Igreja: a Igreja e o Espírito Santo pertencem um ao outro. (3.5.5.1)

A mediação do Espírito Santo através dos apóstolos ocorre no sacramento do Santo Selamento, o batismo com o Espírito. Nos sacramentos do Santo Batismo com Água e da Santa Ceia, a força que atua também é a do Espírito Santo. (3.5.5.2)

Os apóstolos exercem o seu ministério com a força do Espírito Santo. (3.5.5.3)